Mali em contexto (2)

O Mali é uma das nações mais pobres do mundo. Como se isso não bastasse, os combates que decorrem na região obrigam a população a fugir aterrorizada para os países limítrofes.

São conhecidas as barbaridades cometidas por alguns grupos islâmicos extremistas, mas também é sabido que as forças do governo prenderam, torturaram e mataram tuaregs, aparentemente por razões étnicas... apenas.

Em Setembro do ano passado, por exemplo, estas prenderam 16 clérigos que se dirigiam a uma conferência religiosa e executaram-nos sumariamente.


Tudo isto parece explicar a missão “humanitária” que representaria a intervenção internacional naquele país. Mas a incoerência das forças internacionais nestas matérias fazem pensar noutras motivações.

Os interesses norte-americanos no Mali vão realmente para além da questão política. Num contexto em que o governo chinês promove fortemente as suas relações económicas com África, e em que a China é a maior importadora dos produtos do Mali, há quem pense que isto pesa mais nas preocupações do governo dos EE. UU. do que o combate ao terrorismo internacional, naquele país.

Contrariando a tradicional hegemonia dos EUA no continente africano, os países deste continente abastecem em grande quantidade a China, com minério e energia e acolhem cada vez mais investimentos.

Quanto à França, parece que a luta quase pessoal de Hollande contra os combatentes da Al Qaeda colhe popularidade junto da população francesa, embora o coloque numa posição frágil pelo desfecho que ela possa ter, e os partidos políticos à sua direita e à sua esquerda mostrem reservas sobre a preparação e os riscos que esta intervenção apresenta. Mélenchon, na esquerda política, alega inclusivamente, contra esta intervenção, que “os interesses fundamentais da França não estão em causa” no conflito interno do Mali.

Se não são “fundamentais”, que interesses estão em causa no Mali, onde há cerca de seis mil cidadãos franceses, para além da questão da segurança?

O Mali tem a terceira maior produção de ouro na África, o qual é extraído na região sul. E, como se lê numa página electrónica do Ministério da Economia e Finanças de França,
 «La France n’est plus le premier investisseur étranger au Mali, mais reste le partenaire le plus visible par le nombre d’implantations commerciales(...). En 2010, on recense près de 60 filiales et sociétés à capitaux français (participations minoritaires incluses). On dénombre par ailleurs près d’une soixantaine d’investissements privés réalisés par des ressortissants français ou binationaux installés au Mali, dans l’hôtellerie, la restauration, le bâtiment, les services». Indicador não menos significativo é que a Air France tem uma ligação diária por dia com o Mali.

Além de ouro e urâneo, o país possui destacadas reservas de cobre, diamante, manganês, ferro, fosfato e outros metais, além da possibilidade de se tornar importante exportador de petróleo – com a maioria das reservas localizadas na região norte.

A instabilidade no continente africano é tanto mais grave para a França quanto é certo que os países limítrofes do Mali, nomeadamente, são produtores de materiais essenciais à indústria francesa. Esta indústria abastece-se, em grande medida, de energia nuclear, cuja produção depende do urâneo fornecido pelo Niger!

Dos interesses ocidentais instalados na Argélia, mas sobretudo do conflito destes com as forças rebeldes da região, não têm faltado notícias por estes dias nos meios de informação pública.

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