O poder do humor

Ricardo Araújo Pereira dificilmente escapa a uma entrevista ou um colóquio com perguntas do público, sem ser interrogado sobre a influência do humor na política.

Ele lá vai tentando fugir à questão para evitar uma avaliação redutora, digamos assim, do seu trabalho.

Por mais que uma vez lhe li ou ouvi esta ironia sobre o poder do humor: «Todos recordamos a piada que acabou com a escravatura, a rábula de vaudeville que deu o direito de voto às mulheres, o programa cómico que determinou o fim da Segunda Guerra Mundial...».

Da última vez que o vi responder à questão, ele disse que era como o sol, isto é, que o facto de as pessoas irem para a praia em vez de irem votar, em dias de sol, não quer dizer que o sol seja culpado pela abstenção eleitoral.

Metáfora humorística à parte, pela desproporção dos elementos em comparação, a diferença que importa, digo eu, é que o sol não pensa, não escolhe as circunstâncias e os efeitos que provoca na Terra e nos seus habitantes – é determinado por leis naturais. Já o Ricardo escolhe, incluindo o conteúdo e o efeito psicológico da sua intervenção, e sabe como esse efeito depende do contexto histórico ou local em que é usada.

Claro que ele sabe disso e sabe que nós sabemos. Trata-se apenas de evitar que o seu humor seja condicionado por preconceitos ideológicos do seu público. Quando invoca Chaplin, Groucho Marx ou Woody Allen, para identificar o humor pelo humor, o Ricardo “finge” desconhecer a opção do primeiro pelos explorados contra os exploradores e a “obsessão” de Woody Allen pela crítica ao anti-semitismo.

Goucho Marx, entenda-se, é metido ali no meio para disfarçar – passe o humor tipo ricardeano!... Mas tem pelo menos uma afinidade com Woody Allen – a condição de Judeu. E afinal quem diz "O matrimónio é uma valiosa instituição se você gostar de viver em uma instituição", não é tão indiferente como parece.

Para evitar a conotação ideológica do seu humor, mais fácil seria se o Ricardo trabalhasse em pintura ou em música, mas nunca escaparia totalmente, já que até a obra inócua, se existe, não escapa ao julgamento de “pretender distrair do que é importante” ou até de ser apropriada e assim conotada através do seu uso. Veja-se, entre nós, o percurso do fado.

Analisando a sua postura, faço uma previsão. Se algum dia lhe perguntarem por que partido aceita ser candidato numas eleições, o Ricardo Araújo Pereira não vai buscar a Karl mas a Goucho Marx a resposta: "Inclua-me fora disso."

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