Porque hoje é domingo (47)

Até um ateu como eu é obrigado pela consciência a reconhecer a riqueza deste episódio que nos conta o evangelista João (4, 5-42) e que a Igreja Católica invoca neste domingo em todas as suas igrejas.

Trata-se do encontro de Jesus com uma mulher, junto de um poço.

Falemos do poço, primeiro, e da mulher, depois.

Antigamente, o poço era um lugar habitual de encontro, não tanto de deuses com mulheres pagãs, mas de pastores a dar de beber ao gado, mulheres a suprir a falta de água canalizada, e comerciantes a aproveitar o ajuntamento, à falta de centros comerciais.

A água do poço mata a sêde, refresca o corpo, mas o poço em si mesmo suscita-nos mêdo – em mim suscita – pela sua abissal profundidade. Nele convive, pois, o prazer e o perigo. E nisto se assemelha à mulher, pelo menos na abordagem cristã.

Quanto à samaritana de quem Jesus se abeirou, pouco sabemos, que a não descreve o santo evengelista, por respeito e pudor ou simplesmente porque lhe não chegou informação sobre a idade, o aspecto e o que fazia na vida, adultérios à parte.

“Dá-me de beber” – diria Cristo com a voz doce de um santo e a firmeza de um Deus. E mais que água, se é que água queria, demorou-se em conversas que a atrairam para a sua causa – era assim naquele tempo. E não sabendo nós mais do que o narrador, por aqui ficámos quanto aos factos.

Quanto ao significado, há quem diga com autoridade profissional que «o belíssimo diálogo entre Jesus e a samaritana (nos dá a) perceber como Jesus se comportava diante dos preconceitos morais, de raça, das discriminações sociais, religiosas, existentes na humanidade, isto é, Jesus reprovava todo tipo de exclusão».

Não se colocaria, ao tempo, digo eu, a questão dos casamentos homossexuais e da adopção de crianças por casais do mesmo sexo, mas somos levados a pensar que as novas tendências seriam bem aceites, quando o mesmo sacerdote nos alerta para o exemplo de Jesus que «se coloca acima de preconceitos e diferenças religiosas» encetando um « encontro de libertação que transformou a vida de uma mulher marginalizada».

Uma questão a pôr à consideração da Igreja Católica já que é ela e não “Deus” quem tem a última palavra – ou as palavras todas.

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