Assim falava Varoufakis (3)



AUTO-CRÍTICA

… Por mais que me satisfaça defender como atitude genuinamente radical a implantação de uma modesta agenda para estabilizar um sistema que desprezo, não fingirei que a coisa me entusiasme. Acho que aí está o que temos de fazer, sob as circunstâncias atuais, mas muito me entristece pensar que provavelmente não viverei para assistir à adoção racional de agenda muito mais radical.

Por fim, uma confissão de natureza muito altamente pessoal: sei que corro o risco de, sub-repticiamente, encobrir a tristeza por estar enterrando qualquer esperança de substituir o capitalismo, no tempo de vida que me resta, deixando-me arrastar pelo sentimento de satisfação por ter-me tornado "palatável" nos círculos da "sociedade polida". A sensação de auto-satisfação, ao ver-me festejado por ricos e poderosos, até começou, sim, uma vez, a implantar-se em mim. E que sensação feia, corrompida, não radical foi aquela!



O meu fundo do poço pessoal aconteceu
num aeroporto.




Um grupo endinheirado havia-me convidado para uma conferência sobre a crise europeia e consumira a quantia escandalosa de dinheiro necessária para enviar-me uma passagem de primeira classe. De volta para casa, cansado e já com muitas horas de voo na bagagem, eu ia andando do lado da longa fila dos passageiros da classe econômica, para chegar à porta de acesso dos ricos. Foi quando, de repente, com considerável horror, dei-me conta de como eu me deixara facilmente infectar pela sensação de que eu "tinha direito" de passar à frente dos hoi polloi [grego no orig., "a plebe"].

Percebi o quão rapidamente eu esquecera o que minha mente de esquerda sempre soubera: que nada se reproduz mais perfeitamente nem mais rapidamente, que um falso senso de "ter direito" a algo.

Forjar alianças com forças reacionárias, como entendo que devamos fazer para estabilizar a Europa hoje, põe-nos sob o risco de sermos cooptados, de deixar nosso radicalismo morrer sufocado sob o calor acintoso da sensação de ter afinal "chegado" aos corredores do poder.

Confissões radicais, como a que tentei escrever aqui, são talvez o único antídoto programático contra deslizes ideológicos que ameaçam nos converter em engrenagens da máquina. Se temos de forjar alianças com o diabo (e.g. com o FMI, com neoliberais os quais, contudo, também têm objeções ao que chamo de bancorruptocracia", etc.), temos de evitar nos converter em socialistas que fracassaram na luta para melhorar o mundo, mas... melhoraram, sim, muito, a própria vida privada.

O truque é evitar o maximalismo revolucionário que, no fim, só ajuda os neoliberais a superarem a oposição à imundície medíocre e autoderrotista deles; e conservar ante nossos olhos a feiúra inerente do capitalismo, quando tentamos salvá-lo, para objetivos estratégicos, dele mesmo. Confissões radicais podem ser úteis para alcançar esse difícil equilíbrio. O humanismo marxista, afinal, ensina a nunca parar de lutar contra isso em que nos estamos convertendo.

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