Profissão: canivete suíço

Vou com frequência ao Centro Comercial Arrábida, em Gaia, por razões de proximidade, de comodidade e de qualidade – como se diria em Marketing.

Há tempos tomei café num dos muitos balcões que se estendem e espalham pela área de “restauração”, situada no piso superior.

O café sabia a queimado mas eu admiti que fosse uma vez, por azar, e voltei lá mais tarde. O empregado era o mesmo e eu tive o cuidado de recomendar que não se repetisse o mau sabor da vez anterior. Mas repetiu-se.

Ao pagar, chamei a atenção para o incidente repetido e sujeitei-me a ouvir, como resposta que ninguém se tinha queixado antes! O empregado ficou satisfeito por me fazer ver que o problema estava em mim e eu, da vez seguinte, fui tomar café a outro lado.

Dias mais tarde, fui ao mesmo Centro Comercial para almoçar. Muita variedade, preços acessíveis…

Reparei no bom aspecto do peixe que se exibia numa das montras, e foi o que pedi. Adiantei logo o pagamento do café que iria buscar no fim da refeição e assim foi.

Depois de comer um peixe que de fresco tinha pelo menos a temperatura a que foi servido, voltei ao balcão a pedir o café. O empregado transmitiu a ordem para outro que veio trazê-lo. Sabem quem era? O mesmo que me havia atendido com alguma displicência uns dias antes no outro balcão! Ao que parece o empregado foi corrido, e bem, da loja anterior, e encontrou aqui quem o acolhesse.

A minha segunda surpresa foi que o café sabia a água. Claro que não fui reclamar. Nem voltei lá.

O terceiro episódio não tem nada. digo quase nada a ver com os anteriores. Passou-se no piso intermédio, numa loja de calçado.

O calçado dispõe-se ao longo de um espaço amplo, por cima de caixas que se amontoam. Tudo está feito para que o cliente disponha sem precisar de ajuda. Mas há alguns empregados que deambulam pela sala, a oferecer ajuda. Eu fixei-me, a dada altura, nuns sapatos castanhos com aspecto robusto como a época requer. 

Enquanto me debruçava para procurar nas caixas do fundo o número que me servia, fui surpreendido por uma voz que perguntava: “Precisa de ajuda?”. “Estou a procurar…” – e, dizendo isto, ergo-me e encaro, ó Deus, o mesmo empregado dos cafés mal servidos. O desgraçado, incompetente para servir cafés, encontrara um serviço mais rasteiro, por assim dizer. E eu fugi daquela sapataria como foge Deus do diabo ou vice-versa.

Continuo a frequentar o Centro Comercial Arrábida pelas razões apresentadas inicialmente. Afinal, vender cafés, sapatos, telemóveis, flores, relógios ou títulos bancários, não faz qualquer diferença desde que o profissionalismo foi banido em proveito da “flexibilidade”, do “trabalho temporário”, da “competitividade”.

Adeus à competência.
Viva o canivete suíço!


Imagem recortada em rubipresentes.com.br

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