Congressos partidários e tal

Um João e duas Catarinas irão disputar a direcção do Bloco de Esquerda (BE) – a Mesa Nacional – na Convenção marcada para os próximos dias 25 e 26.

Serão certamente "discutidas" questões de organização como a representação da diversidade interna, e questões de estratégia política como as próximas eleições autárquicas. Mas nada disto, como as outras coisas, se resolve numa sessão de discursos. Os congressos servem apenas para legitimar decisões que já foram tomadas nos bastidores ao longo de um processo mais ou menos assumido de negociações e avaliação de forças. É sempre assim, em todos os partidos.

Isto não quer dizer que os perdedores não aproveitem para marcar o seu descontentamento. Provavelmente ouviremos alguém dizer que «O Bloco de Esquerda precisa de se organizar e suprir as dificuldades que fazem com que, 17 anos depois da sua fundação, seja tão frágil a militância em grande parte dos concelhos do país, sem estruturas a funcionar, sem núcleos de empresa ou de escolas», e Catarina Príncipe reclamar que «Os órgãos de direcção do Bloco não foram tidos nem achados no desafio inicial lançado pela Catarina Martins ao António Costa. De uma maneira geral os e as militantes do Bloco acompanharam o processo do acordo pela comunicação social, sem nele terem participado». Cumprem-se as formalidades ociosas de um congresso ou de uma convenção!

Apesar de tudo, vale a pena ver até que ponto as tendências radicais que podem desmantelar a geringonça, encontram eco entre os participantes.

Sobre o desastre que poderia significar neste sentido, uma vitória da moção “B” de João Madeira, por exemplo, nada melhor do que ler o editorial do Avante de 13 de Dezembro de 2007!

À parte do que fica dito ou insinuado, os congressos partidários que tenho visto acontecerem desde sempre, destinam-se a convencer os seus militantes e o público em geral, de que são orgãos de decisão sobre as políticas e os políticos, isto é, que satisfazem as escolhas dos seus militantes.

Os que fingem melhor nesta matéria, há que reconhecê-lo, são o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda. Só porque os outros assumem este “bluff” sem pudor.

O BE não perde energia nem tempo que se compare ao que faz o PCP. Até pela razão óbvia de que não tem implantação de bases nem organização nem experiência que lho permita.

O PCP (e os partidos comunistas em geral) elaboram exaustivas teses, promovem incontáveis reuniões, difundem toneladas de papéis sobre os assuntos que irão ser “propostos” ao Congresso. Mas o sumo que os orgãos de direcção extraem de todo esse trabalho, não serve senão para dar volume à nata produzida por um reduzido núcleo de dirigentes – são as “propostas” que se destinam a ser aprovadas.

De resto, a elaboração dos documentos postos “à discussão”, o método de selecção das propostas recolhidas nas bases, e os métodos de “eleição” dos delegados, asseguram esse objectivo. Depois há a influência dos funcionários no funcionamento das reuniões e no encaminhamento de tais propostas, e, em última instância, digamos assim, há uma “comissão de redacção” com poder factico para filtrar aqueles “milhares de contributos” de que os partidos comunistas se gabam sempre e tanto, mas contributos destinados apenas ao “enriquecimento e aperfeiçoamento” do documento posto à discussão.

É uma certa interpretação do conceito bolchevique de “centralismo democrático” que, de resto, vigora sem nome nem pudor na direita e corre o risco de se implementar no Bloco se não tiverem juízo.

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