Mas poderíamos, ainda assim, na posse das tais fotografias da época, acreditar nas cores e até em pormenores formais do seu corpo ou das suas vestes, tão degradados estariam esses registos pelo tempo, esse monstro que nos pinta os cabelos, rasga traços no rosto e descalcifica os ossos?
É nisto que os registos digitais fazem toda a diferença.
Bem podem os olhos de Jesus chegar amarelos na sua foto de há dois mil anos. Se uma declaração escrita e assinada por quem de direito, disser que os olhos de Deus eram azuis, não haverá fotografia que o desminta. Porquê? Porque é mais fácil que o tempo tenha tingido de amarelo os olhos azuis do Senhor do que tenha substituído a palavra “amarelo” pela palavra “azul” na declaração – logo, se diz azul é porque é azul.
A fidelidade da fotografia ao objecto fotografado depende das condições de resistência do suporte da informação, a película ou o papel fotográfico. A fidelidade da reprodução digital depende apenas de um código que tenha o mesmo significado ao longo do tempo, como é o caso da palavra que o designa.
A fotocópia a cores é uma reprodução analógica de uma fotografia a cores, por exemplo. Mas a verdadeira cor da fotografia será melhor transmitida se dissermos qual é a luz, a intensidade e o brilho de cada ponto da imagem. É assim que, para o caso da cor, o código #900 no sistema RGB (red, green, blue) significa “vermelho”, visto que as outras cores têm valor zero. E este código não se confunde com #996 daqui a dois mil anos…
Outra vantagem do registo digital é a sua possibilidade de transmissão. Não é possível enviar uma folha azul pelo ar, de Lisboa para Pequim, sem arriscar a vida de um pombo-correio, mas é possível enviar um sinal eléctrico que seja lido como #009 e daqui descodificado no destino para uma impressão azul.
Se não percebeu, não se preocupe porque não é por isso que o céu deixa de ser #009.