Porque hoje é domingo (7) [acrescentado]

"Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados" – assim reza uma bem-aventurança pronunciada por Jesus segundo a sua igreja. Desde então, se já não era antes, os políticos não têm dito outra coisa, pronunciando a fome no presente e a satisfação no futuro. E se aqui se fala de Justiça, a homilia deste domingo invoca directamente a fome de alimentos.
(Evangelho - Mt 14,13-21)

A diferença, a fazer fé no que se conta, é que naquele mesmo dia “todos comeram e ficaram satisfeitos”. Afinal a justiça está, antes de mais, na forma como se repartem os bens naturais e sociais, o que dá a terra, o mar... e o trabalho!

Eu sei que Jesus podia multiplicar os escassos pães e peixes pelo número necessário à satisfação da assembleia por maior que esta fosse, mas cá, onde não se esperam milagres divinos, bem podiam a Pesca, a Agricultura e as indústrias cumprir essa tarefa.


Isto para dizer que a vantagem de Jesus não foi tanto a sua habilidade para a magia, quanto a sua vontade de dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, em vez de dar tudo a quem tudo tem. Ele que terá dito, embora isto já me pareça conversa de bolcheviques, que “é mais fácil a um camelo entrar no buraco de uma agulha do que a um rico entrar para o Reino dos Céus”. Eu também sei que é ociosa esta conversa, provado que dois mil anos de propaganda cristã não tiveram qualquer efeito nas sociedades; sei que foi sempre a paulada ou a ameaça que fez os poderosos “com-padecerem-se” dos expropriados da riqueza colectiva, mas não ficava bem a um cristão de nascença, embora dissidente, deixar de partilhar este clamor contra o cinismo e a crueldade em curso – por mais competentes e “responsáveis” que sejam os sagrados doutores da nossa era... na tarefa de que estão incumbidos por César, não por Deus.

ACRESCENTO
Por falar de César vs Deus, e para que se não diga que eu não ouço "o outro lado" , cito uma frase actual da Igreja portuguesa:

«A situação diminui a margem, legítima em democracia, para utopias. É este sentido de realismo que nos indica que devemos procurar soluções para Portugal no quadro social, político-económico em que está inserido: União Europeia, zona da moeda única, conjunto de países que se estruturam na base do respeito pela pessoa humana e pela sua liberdade, concretamente da liberdade de iniciativa económica».
O contexto - para os desconfiados! - lê-se AQUI.

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O problema é o sistema

Foto recortada de lainformacion.com

Também há quem diga que o problema é "o paradigma", e há quem fale em "modelo de desenvolvimento"... O tempo dirá para onde pende mais a correlação de forças - mais que de palavras.

Enquanto "Democracia real, já!" não é para já, "tomar la calle" é um bom princípio, provado que nem a "Comunicação Social" nem os parlamentos se revelam espaços de representação real ou suficiente.

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Como desfazer nações

Na sequência do artigo anterior cito agora parte de uma intervenção de Luis Filipe Menezes acerca da crise europeia, no "Frente a Frente" da Sic-Notícias de 19 de Julho:

Não é por acaso que entre os países que estão com (maiores) dificuldades temos a Irlanda, a Espanha, Portugal e a Grécia, os 4 países da adesão da década de 80. Porque foi a Europa rica do centro que moldou uma lógica perversa de apoio ao desenvolvimento dos países do sul, dizendo:


- tomem lá uns milhões de euros e agora destruam a vossa agricultura e quando precisarem de bens alimentares vêm-nos comprar aqui à Alemanha e à França, baratos,

- agora tomem lá mais uns milhões de euros para fazer uns hospitais e uma auto-estradas e abatam a vossa frota pesqueira que quando precisarem de peixe vêm aqui comprar aqui ao Norte porque nós temos peixe em quantidade para distribuir,

- agora tomem lá mais uns baldes de euros e levem para aí uma indústrias alemãs, subsidiem a sua instalação, elas ficam aí uns dez ou 15 anos e depois quando houver um alargamento a leste elas vão partir para mercados onde a mão de obra é mais barata, os custos de produção são mínimos e vocês nessa altura já devem ter o suficiente para se amanharem e não precisam de mais nada.

Ou seja, as economias fortes do centro da europa moldaram quase conscientemente uma dependência de todos estes países periféricos que se transformaram em consumidores dos seus produtos e produtores de coisa nenhuma.

No mesmo programa, João Soares referia que "os juros da Grécia vão em 40% e os juros portugueses vão em 20 %. Já ouvimos dizer que é a banca alemã que está a ganhar com isto!"

Dois dias depois, a União Europeia aprovou medidas "de ajuda" que incluem a diminuição dos juros e o alargamento do prazo de pagamento da dívida grega mas que se aplicam também a Portugal. Se isso tem alguma coisa a ver com a decisão de hoje, de Passos Coelho, no sentido de vender a participação do Estado na EDP, ao grupo de energia alemão RWE, é assunto sobre o qual se fará luz - para quem não esteja claro.

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Como fazer impérios

John Perkins diz que ajudou os EUA a roubar os países pobres, concedendo-lhes empréstimos que não pudessem pagar. Descreve o método:

1. INVESTIGAR
O “investidor” descobre uma fonte natural de riqueza; seja, por exemplo, petróleo.

2. CORROMPER
Manda o seu “diplomata económico” negociar com o dirigente desse país um investimento para extracção do petróleo, em troca de um grande empréstimo do Banco Mundial ou de uma das suas organizações. O dinheiro do empréstimo não é dirigido para aquele Estado mas sim para as corporações do "investidor", a fim de construírem grandes projectos de infra-estruturas naquele país. Só uma pequena parte será atribuída a uns poucos e ricos cidadãos do país fornecedor.

3. ENDIVIDAR
A população em geral não só não beneficia do negócio como fica com o encargo de pagar os juros do empréstimo – valor tão elevado que não terá capacidade para pagar de facto.

4. EMPOBRECER
Para fazer face à dívida, o Estado reduzirá a quantidade e a qualidade dos serviços prestados à população – saúde, educação, transportes, justiça, segurança social, etc..

5. CHANTAGEAR
O investidor manda uma delegação de “técnicos” para “ajudar”o país a solver os seus compromissos vendendo o petróleo do país (a preços irrisórios) ás companhias do “investidor” ou/e votando a favor dos interesses do “investidor” nas Nações Unidas ou/e mandando tropas para os países onde os EUA estão a intervir... (Lembrando entretanto que são eles, os donos das grandes companhias, que controlam as decisões do Banco Mundial, do FMI e, em certa medida, da ONU, para que “tudo” seja legal).

6. BURLAR
Os EUA deixam de aceitar o pagamento “das dívidas” em ouro como até 1971 e passam a exigir o pagamento na sua moeda, o dólar, cujo valor eles manipulam. O petróleo, mais importante que o ouro actualmente, passou a ser negociado em dólares com os países árabes. Um aspecto desta questão é que os EUA, eles próprios, não estariam em condições de pagar a sua enorme dívida sem ser em dólares, visto que podem desvalorizar a moeda.

7. ASSASSINAR
Sadam Hussein ameaçou vender o petróleo do Iraque noutra moeda e... correu-lhe mal. A questão é que “o investidor” abandona a táctica da corrupção quando esta não resulta, e passa então ao segundo recurso: o assassínio dos dirigentes insubmissos. São enviados os “chacais” para derrubar os Governos ou matar os líderes como aconteceu no Panamá, com Omar Torrijos, ou no Equador com Ramir Roldós.

8. FAZER A GUERRA
Se a táctica da corrupção falhar e falhar também a tentativa de derrubar os Governos ou de matar os dirigentes, há um terceiro e definitivo recurso: enviar tropas e fazer a guerra.

O texto reproduz de forma muito aproximada as declarações de John Perkins no vídeo que (ainda) pode ser visto AQUI.

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Plano de Privatizações

do Governo PSD-CDS

Alienação total dos capitais públicos da PT, da GALP, da EDP, da REN, a privatização das Águas de Portugal, da TAP, da ANA, da CP-Carga, a concessão de linhas da CARRIS, do Metro de Lisboa, STCP, a concessão de suburbanos de Lisboa e Porto da CP, privatização dos CTT, privatização da RTP e privatização total através do abandono da parte pública da LUSA, na indústria de Defesa os estaleiros navais de Viana do Castelo e outros sectores da IMPORDEF, e no sector financeiro a Privatização do sector segurador da CGD e outras áreas não financeiras da Caixa Geral de Depósitos. Tudo isto na sequência da aprovação de um decreto-lei de 5 de Julho destnado ao abandono das golden shares (direitos especiais), detidas pelo Estado português na GALP, na EDP e na PT, nem sequer através da venda mas sim da oferta aos accionistas privados.

Descrição do deputado António Filipe, do PCP, em Audição do dia 18 de Julho.

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O Grego

«Ver-se grego» ganha nova conotação desde a crise económica em curso. «Ver-se grego» pode querer dizer, entre outras coisas, ver-se entregue aos abutres financeiros. Mas como ensina "Zorba, o Grego", a alegria da alma sobreleva a ganância dos negócios.

Ficção? Não tanto como os discursos dos governantes.



Para representar o capitalista, teria que recortar "um boi a olhar para um palácio" que é como o capitalismo olha para a Cultura, para a História, para a Civilização, para o Homem. Melhor dizendo: "o capitalista vê em tudo mercadoria" - para usar a expressão de Karl Marx.

Pior que a cegueira do capitalista, só quem se deixa guiar por ele. Mas isso é voltar ao assunto do post anterior...

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Os eunucos da política

Contestando as sanções da ONU contra a Líbia, no contexto da crise actual, Vladimir Tchamov, embaixador russo em Tripoli, declarou que o apoio da Rússia a essas medidas representava, em certo sentido, uma traição aos interesses da Rússia.

Escreveu: “As empresas russas assinaram contratos vantajosos no valor de dezenas de milhares de milhões de euros, que podíamos perder e perdemos”. Para quem só raciocina em termos económicos, a liberdade, a dignidade e as vidas dos líbios (e dos outros) não têm valor.

Como dizia Zeca Afonso acerca dos eunucos “quando os mais são feitos em torresmos, não matam os tiranos, pedem mais! Infelizmente, a Rússia não foi o único país a demarcar-se. E tudo indica que as razões dos outros não são mais humanitárias.

Texto da notícia recortada em Da Rússia, de José Milhazes

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O tempo dirá se é tempo

Este esforço desmesurado dos políticos "e" jornalistas da Direita, para não mostrar que o tempo do liberalismo está condenado a acabar, tem um aspecto patético.

E há também aquela pose de candura cínica a espalhar sorrisos de lá do alto, qual amazona, julgando ter o Povo pelas rédeas.

Sob o manto diáfano da sua placidez, a nudez crua do seu pensamento: Mais mercado e menos Estado! Está nas suas mãos evitar a erosão do vento e a fúria do cavalo que, como se sabe, é um animal muito temperamental.

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Quem matou Salvador Allende?

Notícia Telesur:

Los abogados querellantes del juicio que pretende esclarecer los hechos sobre la muerte del ex presidente de Chile Salvador Allende difundieron los nombres de los presuntos pilotos de los cazabombarderos que atacaron el palacio de La Moneda durante el golpe de Estado encabezado por el dictador Augusto Pinochet el 11 de septiembre de 1973.

Mario López Tobar, Fernando Rojas Vender, Enrique Montealegre Julliá, Gustavo Leigh Yates y Eitel von Müllenbrock fueron identificados como los pilotos de los caza Hawker Hunter que bombardearon la edificación gubernamental chilena, todos ellos oficiales de la Fuerza Aérea de Chile.

Segundo um correspondente da Telesur, as investigações a cargo da Justiça deitam por terra a tese de suicídio do antigo presidente democrático do Chile

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Porque hoje é domingo (6)

Veio a troika com os seus milhões e começou a semear. Umas sementes caíam à beira do caminho e uns transeuntes que andam sempre por ali como quem não quer a coisa, aproveitaram a oportunidade.

Outros milhões caíram em terrenos pedregosos, improdutivos, mais propensos ao lucro do que ao investimento. E houve alguns que caíram entre espinhos, lá onde ninguém vai, espaço protegido e alimentado por leis, burocracias e taxas de juro.

Finalmente houve também muitos milhões que caíram em terra boa e deram fruto. Então vieram os oportunistas de sempre com seus grandes alforges, e levaram-nos.

«A vós é dado conhecer os mistérios do Reino», leitores deste blogue. Em dia de homilia, falo por parábolas como Jesus falava, sabendo embora como ele sabia que só os eleitos me entenderão.

Texto inspirado no Evangelho segundo S. Mateus 13,1-23.

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O dólar ataca

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É a prostituição, estúpido!

No combate mediático que se trava hoje entre Strauss-Kahn e a rapariga sem nome, o que interessa é perceber se o que domina o mundo é a economia ou a prostituição. O resto é a baixa política a deitar-se com o baixo jornalismo - nada de novo.

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Independência nacional

No dia 28 de Junho estive numa sessão de lançamento do livro “Tempo de Barbárie e Luta”, de Miguel Urbano Rodrigues, desta vez no Clube Literário do Porto.

Embora as intervenções e perguntas fossem para outras latitudes, eu queria ouvi-lo sobre a América-Latina, região que tão bem conhece. Da sua resposta recorto as seguintes passagens, não porque fossem as mais relevantes para ele mas sim para mim:
“a Venezuela é hoje o principal apoio à Revolução Bolivariana” e “sem Hugo Chavez a Revolução Bolivariana desaparece”.

A importância destas afirmações feitas por um grande admirador do regime cubano e defensor do papel político positivo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, com quem conviveu, denunciam dois factos novos: que nem Cuba nem as FARC têm já um papel importante no devir histórico da região. E sendo Chavez um político frágil, enredado em populismo e contradições, e sem garantias de continuidade no Poder, o sonho frustrado de Simon Bolívar terá que esperar por novos heróis e novas circunstâncias que os produzam.

Simón Bolívar, apesar das lutas heroicas e generosas que travou e do legado que deixou para o imaginário da América-Latina, morreu após uma batalha dolorosa contra a tuberculose sem que o seu projecto federalista se realizasse. Chavez, corre o risco de ser vitimado pela doença da nossa época, sem méritos que se comparem aos do seu inspirador histórico. Além do mais, são outras as circunstâncias.

As circunstâncias da revolta mais depressa parecem estar a formar-se na Europa. Assim queiram os escravos do colonialismo económico que alastra no "velho continete", e não faltarão simons-bolívares.

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