Crise... de vocações


A imagem aqui reproduzida é cabeça de um blogue de conteúdos religiosos cujo autor se diz “bacharel e mestre em Teologia”. Com ela, porém, o que eu pretendo é ilustrar o papel dos ateus convidados a participar numa cimeira inter-religiosa, tal como aconteceu no dia 27 em Assis, Itália.

Encontros ecuménicos ficam sempre bem, e quando se trata de rezar pela paz no mundo, a coisa ganha uma importância transcendente... Mas deixam-me confuso: então é preciso pedir a Deus para que o mundo viva em paz? O próprio Deus nunca se terá lembrado disso ou lembrou-se mas não quis ou simplesmente exige um quórum tão grande de requerentes que até os ateus fazem falta para atingi-lo?

A verdade parece-me ser outra mas receio que seja demasiado fastidiosa para expôr aqui. Em todo o caso, vou tentar.

Deus e o Demónio justificam-se mutuamente perante os homens. O Demónio cujo papel consiste em desviar o Homem dos caminhos de Deus, não teria qualquer papel sem Deus. E Deus, se não existisse o Demónio, seria dispensável para a Humanidade. Se o Demónio não existisse, tudo estaria normal, pacífico, estável; logo, nem o poder nem a bondade de Deus fariam qualquer falta ao Homem.


É por isto que a invenção do Demónio é indispensável à invenção de Deus, insisto. Além de resolver outra questão mais prática: sustenta a razão de ser dos “representantes de Deus", e dá a estes a autoridade de que precisam para “explicar” os mistérios sagrados - os quais, sendo mistérios, não é da vontade do Criador que sejam explicados!

Se a Humanidade poderia bem viver sem Deus nem Diabo, sem medo nem pecado, portanto, já os profissionais da religião não poderiam... Será que agora também os ateus vão ter os seus sacerdotes a cobrar uma dízima aos seus discípulos? Ao que chegou a crise... de vocações.

O encontro inter-religioso reuniu representantes de 300 religiões!  Bem poderia chamar-se a cimeira dos 300.

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Três perguntas bastam

Ao sr. Ministro das Finanças

1. Sendo que a “troica” ofereceu os empréstimos a Portugal contra determinadas exigências, para que decidiu você, unilateralmente, agravar essas exigências? Eles emprestaram mais dinheiro, por isso? Reduziram os juros, por isso? Alargaram os prazos de pagamento, por isso?

2. Acha que eles ficaram tão satisfeitos consigo que vão contratá-lo para o FMI quando deixar de ser ministro ou, pelo contrário, ficaram a pensar que você é burro e os portugueses são todos uns carneiros?

3. Você tem consciência de que vive muito acima das possibilidades... dos cidadãos comuns?


P.S.:
O deputado do PS, Carlos Zorrinho, sugeria ontem - talvez com razão - que a estratégia do PSD era fazer agora o máximo das malfeitorias para depois aparecer mais simpático na véspera das próximas eleições. Andará Zorrinho a ler O Príncipe, de Maquiavel, ou a História do Partido Socialista? 

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Porque hoje é domingo (10)

O ministério da Santíssima Trindade

NOTÍCIA
«Maioria rejeita proposta do PCP para aumento do salário mínimo nacional porque a situação económica não aconselha atualização»

PERGUNTA:
A situação económica de quem?

Eles não vivem do salário mínimo nem fazem parte do milhão e meio de portugueses que recebem menos de 485 euros de reforma por mês; eles não fazem parte sequer dos 2,5 milhões que ganham 700 a 800 euros; eles não vivem acima das suas possibilidades; eles são portugueses de primeira. Mais que isso, são governantes e deputados dos maiores partidos – dos que ganham eleições à custa de falsas promessas e do domínio dos mecanismos de propaganda... legítimos, claro!

Eles têm mais que fazer do que atender aos problemas ingentes das pessoas; sentem que o seu poder emana do FMI e da União Europeia, tal como o poder de Marcelo Caetano emanava de Deus. Eles são Passos Coelho e José Seguro, Paulo Portas e Maria de Belém, José Relvas e Ferro Rodrigues, Aguiar Branco e Basílio Horta, João Almeida e António Galamba e e e

«Aumentar o salário mínimo nacional de 485 para 500 euros é da mais elementar justiça» propôs o deputado Jorge Machado, do PCP. «Se o aumento do salário mínimo nacional acompanhasse os aumentos do índice de preços ao consumidor - acrescentou - o salário mínimo já seria de 500 euros em 2005».

Com este Governo, os ricos ficam cada vez mais ricos e quem vive do seu trabalho ou pensão fica cada vez mais pobre. Com este Governo e com este PS – entenda-se. Com esta santíssima trindade, enfim.

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Pela boca morre o ...


é A Arte de Ganhar Eleições

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Espelhos da crise (II)

Continuação do texto de James Petras na parte
que aborda a experiência da América Latina

Recentemente, o ministro das Finanças brasileiro levantou a possibilidade de os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) tomarem parte num "plano de resgate" para fazer frente às crises económicas da Europa. Tal declaração teve mais importância simbólica que real, mas reflecte no entanto uma certa realidade: enquanto o Norte mergulha numa profunda crise sem fim à vista, as economias latino-americanas estão com relativa boa saúde.

Com excepção dos países latinos que estão ainda sob domínio dos EUA, especialmente o México e a maior parte da América Central, a América Latina não somente evitou as crises que afligem o Norte, mas tem crescido de forma saudável, três vezes mais que os EUA ao longo da década. O novo milénio, especialmente entre 2003 e 2011 (excepto durante um breve interlúdio em 2009) tem sido um período de crescimento elevado, prosperidade generalizada, explosão das exportações, aumento das importações, aumento da cooperação inter-regional e redução da pobreza a larga escala.

O Brasil, por si só, reduziu o número de pobres em 30 milhões. Eleições normais, relativamente honestas e competitivas, resultaram em transferências estáveis e legitimadas do poder político. Exceptuando o golpe, apoiado pelos EUA, nas Honduras e a intervenção no Haiti e na Venezuela, as tomadas violentas do poder desapareceram durante a década passada. A construção de instituições regionais prosperou com o advento da UNASUL e do banco regional da América Latina.

Graças ao controlo fiscal e à regulação do sector bancário, resultados de lições aprendidas durante a crise das décadas perdidas (1980-2000), a América Latina foi apenas ligeiramente afectada pelo crash financeiro europeu e estado-unidense de 2008-2011. O comércio latino-americano duplicou, especialmente com a Ásia, ajudado pelo crescimento a dois dígitos da China. A procura de recursos agro-minerais triplicou. A chave deste crescimento baseado no aumento das exportações é a crescente independência económica da América Latina, que levou a que esta diversificasse os seus mercados, aproveitando as novas oportunidades e reduzindo a dependência em relação aos EUA.

(...) Graças à corrente estabilidade política e crescimento económico da América Latina, chovem investimentos institucionais e empresariais na região. Pelo contrário, os EUA e a UE sofrem com o desinvestimento e o declínio do investimento privado. Por outras palavras, o desenvolvimento da América Latina é o outro lado da moeda do subdesenvolvimento do eixo EUA-UE.


(Fim de citação)

O autor desenvolve depois uma análise sobre contradições sociais neste contexto de desenvolvimento da América Latina, nomeadamente as que decorrem do processo de distribuição da riqueza em países da região.

O artigo completo encontra-se AQUI e foi recolhido em português em resistir.info

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Espelhos da crise (I)

Será que as lições tiradas da experiência latino-americana podem fornecer um «modelo» para os EUA e a Europa? É este «modelo», na totalidade ou em parte, transferível para o Norte ou são as duas regiões tão diferentes que tais lições não são aplicáveis?

Esta questão é analisada por James Petras * num artigo que reproduzo parcialmente a seguir.

Os países da América Latina experimentaram durante os anos 80 uma época de crises persistentes, que se materializou num crescimento negativo, num aumento dos níveis de pobreza e num grande endividamento que permitiu aos credores (tais como o FMI) impor medidas de austeridade duras e agressivas juntamente com políticas de "ajustamento estrutural", que ficaram conhecidas pelo termo de "neo-liberalização".

Nelas se incluíam a privatização das mais estratégicas e lucrativas empresas públicas, assim como o fim de qualquer estratégia estatal de industrialização. Para os camponeses, a classe operária e a classe média, o curto boom neoliberal dos anos 90 foi a continuação da "década perdida" dos anos 80. As políticas neoliberais dos anos 90 baseavam-se na destruição dos fundamentos estruturais da economia e em enormes transferência das receitas e das despesas públicas para o capital enquanto se cortavam nos salários e na segurança social.

Os regimes neoliberais entraram numa crise profunda em 2000 provocando grandes contestações sociais. O resultado foi um novo enquadramento político e uma nova equação social que culminaram em novos regimes pós-neoliberais na maior parte dos países da América Latina.

Por outro lado, e em parte devido às oportunidades lucrativas que surgiram com a crise da dívida e com a neoliberalização da América Latina nos anos 90 (assim como na ex-União Soviética, Europa de Leste e Balcãs), os Estados Unidos e a UE prosperaram. Na América Latina, mais de 5000, bastante lucrativas, indústrias de extracção de recursos, bancos, telecomunicações e outras passaram para as mãos das multinacionais privadas estrangeiras e para as do capital local. Os grandes lucros derivados das acções, empréstimos e rendas das transferências de tecnologia enriqueceram os capitalistas do Norte, na mesma medida em que a pobreza se multiplicava pelo Sul.

Os anos 90 foram a "idade de ouro" do capital Ocidental que conheceu um crescimento dos seus lucros, enquanto os partidos de esquerda e os sindicatos pareciam incapazes de fazer frente a esta "onda" de conquista da economia por parte do capitalismo predatório.

A primeira década do novo milénio foi a "década perdida" do Norte. Ao longo dos últimos onze anos o Norte conheceu a estagnação e a recessão, que não permitiram qualquer recuperação económica. Os estados capitalistas salvaram temporariamente os bancos, mas demonstraram-se impotentes para relançar o crescimento económico.

A classificação da economia norte-americana foi cortada pelas agências de notação. O desemprego e o emprego precário dispararam para um quinto da força de trabalho, números só comparáveis com os dos países do terceiro mundo. Os programas sociais sofreram graves cortes nos Estados Unidos e nos países da União Europeia, destruindo décadas de conquistas sociais. Os défices orçamental e da balança comercial tornaram-se crónicos, enquanto os credores públicos e privados ficavam cada vez mais preocupados com as tendência recessivas da economia.

O sector financeiro dos Estados Unidos e União Europeia está ferido pela corrupção em larga escala, pelas fraudes, gestão negligente e contas falsificadas, algo que antes encontrávamos na América Latina. A União Europeia enfrenta cortes brutais nos salários, pensões e empregos que afectam milhões de trabalhadores e os jovens desempregados da Grécia, Portugal, Espanha e Itália tomaram as ruas.

As greves gerais ameaçam a estabilidade de regimes cada vez mais isolados e lembram as rebeliões populares que levaram a mudanças de regime na América Latina no final dos anos 90 e princípio dos anos 2000. Nos Estados Unidos, os protestos públicos reflectem um crescente descontentamento: mais de 75% da população tem uma visão negativa do Congresso e, 60%, da Casa Branca. O aprofundamento da alienação do eleitorado norte-americano é já comparável à perda de fé nos governos latino-americanos durante as "décadas perdidas" de 1980-2000.

Tanto os Estados Unidos como a União Europeia sofreram transformações radicais durante a "década perdida" do presente século. Económica, política e socialmente, o "Norte" foi latino-americanizado: instabilidade social, estagnação económica, alienação política, crescimento das desigualdades entre as classes e pobreza, tudo isto liderado por elites políticas corruptas.


Petras é sociólogo e analista político norte-americano, professor jubilado em Nova Iorque.

Esta passagem foi recortada por mim a partir do texto integral em português, publicado em resistir.info

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O protesto e o resto


São cada vez mais esmagadoras as percentagens de abstencionistas nos actos eleitorais, exprimindo a falta de confiança num sistema político que gere a riqueza, o poder e a informação com desprezo total pelos interesses, a vontade e a opinião dos cidadãos. E que rasga as promessas eleitorais assim que toma assento no Poder.

As manifestações de indignação que ganham corpo, cada vez mais, nas ruas das grandes cidades do mundo "liberal" convocam cada um de nós a assumir a sua responsabilidade no protesto activo e global, convocam-nos para o grande parlamento da representação directa.

“As palavras que hão-de salvar a humanidade há muito
que foram escritas, só falta agora uma coisa, salvar
a humanidade” - disse Almada Negreiros. Mas no contexto actual eu penso que faltam as palavras, as mensagens e os mensageiros portadores de uma nova arquitectura e uma nova engenharia social. Ser radical - lembrava Karl Marx - é resolver os problemas na sua raiz. É este aprofundamento que os movimentos de indignados reclamam.

Entretanto, não é demais denunciar a ruína do sistema. De uma forma ou de outra . Ou de outra...

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