31/12/2015

Profissão: canivete suíço

Vou com frequência ao Centro Comercial Arrábida, em Gaia, por razões de proximidade, de comodidade e de qualidade – como se diria em Marketing.

Há tempos tomei café num dos muitos balcões que se estendem e espalham pela área de “restauração”, situada no piso superior.

O café sabia a queimado mas eu admiti que fosse uma vez, por azar, e voltei lá mais tarde. O empregado era o mesmo e eu tive o cuidado de recomendar que não se repetisse o mau sabor da vez anterior. Mas repetiu-se.

Ao pagar, chamei a atenção para o incidente repetido e sujeitei-me a ouvir, como resposta que ninguém se tinha queixado antes! O empregado ficou satisfeito por me fazer ver que o problema estava em mim e eu, da vez seguinte, fui tomar café a outro lado.

Dias mais tarde, fui ao mesmo Centro Comercial para almoçar. Muita variedade, preços acessíveis…

Reparei no bom aspecto do peixe que se exibia numa das montras, e foi o que pedi. Adiantei logo o pagamento do café que iria buscar no fim da refeição e assim foi.

Depois de comer um peixe que de fresco tinha pelo menos a temperatura a que foi servido, voltei ao balcão a pedir o café. O empregado transmitiu a ordem para outro que veio trazê-lo. Sabem quem era? O mesmo que me havia atendido com alguma displicência uns dias antes no outro balcão! Ao que parece o empregado foi corrido, e bem, da loja anterior, e encontrou aqui quem o acolhesse.

A minha segunda surpresa foi que o café sabia a água. Claro que não fui reclamar. Nem voltei lá.

O terceiro episódio não tem nada. digo quase nada a ver com os anteriores. Passou-se no piso intermédio, numa loja de calçado.

O calçado dispõe-se ao longo de um espaço amplo, por cima de caixas que se amontoam. Tudo está feito para que o cliente disponha sem precisar de ajuda. Mas há alguns empregados que deambulam pela sala, a oferecer ajuda. Eu fixei-me, a dada altura, nuns sapatos castanhos com aspecto robusto como a época requer. 

Enquanto me debruçava para procurar nas caixas do fundo o número que me servia, fui surpreendido por uma voz que perguntava: “Precisa de ajuda?”. “Estou a procurar…” – e, dizendo isto, ergo-me e encaro, ó Deus, o mesmo empregado dos cafés mal servidos. O desgraçado, incompetente para servir cafés, encontrara um serviço mais rasteiro, por assim dizer. E eu fugi daquela sapataria como foge Deus do diabo ou vice-versa.

Continuo a frequentar o Centro Comercial Arrábida pelas razões apresentadas inicialmente. Afinal, vender cafés, sapatos, telemóveis, flores, relógios ou títulos bancários, não faz qualquer diferença desde que o profissionalismo foi banido em proveito da “flexibilidade”, do “trabalho temporário”, da “competitividade”.

Adeus à competência.
Viva o canivete suíço!


Imagem recortada em rubipresentes.com.br

20/12/2015

Falência monetária internacional

O Fundo Monetário Internacional (FMI) assume falhas nos programas de "ajustamento" que ajudou a implementar durante os últimos sete anos, e de que Portugal é uma das vítimas mais evidentes. 
(Ler, p.e., no Público)

Não são raros os países em que “as ajudas” do FMI se traduziram na falência económica e na degradação democrática dos mesmos. Está demonstrado que o faz intencionalmente, para condicionar as opções políticas nacionais.

Também não são raras as auto-críticas emanadas do FMI acerca das suas intervenções. Mas… tais críticas não se traduzem pela rectificação da sua estratégia; são rapidamente seguidas de novas medidas práticas de empobrecimento dos países intervencionados!

Que coisa é esta?

Com sede (física e política) nos Estados Unidos da América (EUA), o FMI foi criado para estabilizar as economias saídas da 2ª Guerra Mundial, elevar o crescimento económico sustentável e o emprego e reduzir a pobreza em todo o mundo. Em bom rigor, o seu objectivo fundamental era o de promover a estabilidade do sistema monetário internacional com base no dólar.

«Teoricamente, os governadores elegem o presidente do FMI, porém, na prática, o presidente do Banco Mundial (Bird) é sempre um cidadão dos Estados Unidos, escolhido pelo governo norte-americano». (Wikipedia)

O poder de voto depende da contribuição de cada país que, por sua vez, é calculada em função do respectivo Produto Interno Bruto (PIB). A Portugal corresponde 0,43% em comparação com perto de 17,5% dos EUA, por exemplo! França, Reino Unido e Alemanha correspondem a níveis de 5 a 6% aproximadamente.

O papel dominante dos EUA determina que a instituição seja refém dos interesses específicos e dos valores daquele país, nomeadamente no domínio económico-financeiro e no domínio geoestratégico.

16/12/2015

Olho por olho


É caso para dizer que Arnaldo de Matos "perdeu a cabeça".

12/12/2015

Que morram longe

Para não ter os idosos no hospital, metem-se as famílias na prisão – assim vai o projecto de lei de PSD/CDS, no que se refere a esta questão específica de prender as pessoas que não recolhem os seus familiares idosos nos hospitais.

Quantos mais idosos terão que ser encontrados abandonados e mortos nas “suas” residências, para se compreender que o Estado, social por definição, deve criar condições para que os nossos pais e avós possam viver e morrer com dignidade?

A prioridade das prioridades é isto e não a liquidez dos bancos e os “compromissos internacionais”. Ou os Direitos Humanos só interessam para o combate político?

Não se trata tanto de um crime privado de famílias negligentes ou egoistas; trata-se sobretudo de um crime público de estados liberais ou ditaduras.

Não, os hospitais não são lares para pessoas acamadas ou idosas. Mas isso deveria orientar-nos para criar condições de acessibilidade e dignidade no âmbito dos lares de idosos, por exmplo, em vez os forçar a viver em ambientes familiares onde são repudiadas.

A mensagem que traz esta proposta PSD/CDS, apesar de embrulhada com pretensões atendíveis, é que os velhos vão morrer longe. Hoje os idosos, amanhã os deficientes, os desempregados…

11/12/2015

Não se pode decapitá-los?

Lia-se ontem, em título na revista Visão: «Costa decapita direção do grupo parlamentar». 

Alarmado com esta inesperada radicalização de António Costa, corre-me o olhar para o corpo da notícia. Fico a saber que "decapitar" é convidar deputados para integrarem o novo governo!!! 

Ficou explicada a razão porque o PCP e o BE não quiseram integrar o novo poder executivo.

Sempre prontas e prontos a manifestar aptidões intelectuais que não têm, é frequente termos de levar "literalmente" com expressões erradas e comentários estúpidos daqueles cuja profissão depende, antes de mais, de saber falar. 

"Temos que saber com que linhas nos vamos cozer, literalmente"! - dizia pomposamente uma apresentadora de um programa de televisão, da tarde. Dizem outros, todos os dias. É a palavra da moda, qualquer coisa do tipo, tás a ver?! 

Não se pode decapitá-los

10/12/2015

Foi você que pediu aumento do salário mínimo?

Por via de regra, os contribuintes de alto rendimento representam uma parcela muito significativa do IRS cobrado, em países onde a tributação é levada a sério. Chegam a representar 20 a 25% da tributação em IRS.

Em Portugal não chegam a representar… meio por cento!

Assim falava José Azevedo Pereira, ex-Director Geral dos Impostos entre 2007 e 2014. Ouvi eu “com estes dois que a terra há-de comer”, no programa Negócios da Semana de ontem (2015-12-09).

Mais. As famílias ou agregados portugueses com alto rendimento são cerca de mil, mas apenas duzentas destas, aproximadamente, são realmente tributadas!

E agora – digo eu – venham enganar-nos com o argumento de que não vale nada preocuparmo-nos com os ricos que não pagam impostos porque “quase não há ricos” e os que há “não justificam” um agravamento de impostos.

Sob o manto diáfano da demagogia, a nudez crua da ladroagem. De alto rendimento!...



(Caricatura recolhida no Google)

04/12/2015

Teatro a sério

Sendo uma produção "Teatro dos Aloés" com encenação de José Peixoto e participação de actores como Elsa Valentim e Jorge Silva, não hesito em recomendar. E "fazer figas" para que venha ao Porto.