31/08/2008

Será desta?

Significativo destaque do Avante de 28 de Agosto:

Espaço Internacional recorda
50.º aniversário da Revolução Cubana.
Lutar e resistir contra o imperialismo

«O Espaço Internacional da Festa do Avante! vai dar destaque, este ano, à “Perigosa e explosiva situação no Médio Oriente” e ao “50.º aniversário da Revolução Socialista Cubana”. Ali, o visitante poderá acompanhar como os trabalhadores e os povos, com os partidos comunistas e progressistas, dão resposta à ofensiva do imperialismo e desbravam os caminhos da alternativa socialista».

A saber, quanto à alternativa socialista que a actual Direcção preconiza:

«... No mesmo dia falar-se-á de Cuba. Esta grande iniciativa contará com a presença dos camaradas que integram a delegação do Partido Comunista Cubano. “Mais do que um debate, será um grande acto comemorativo, político, dos 50 anos da Revolução Cubana”, sublinhou Ângelo Alves».

E eu pergunto: - Será desta vez que nos vão explicar se o regime cubano é uma ditadura do proletariado ou uma democracia da família Castro?

Resposta: Não!, isto é “um acto comemorativo, mais do que um debate”.

E eu pergunto: - Mais que um debate ou MENOS que um debate? Para quando o debate? Ficaremos à espera de um colapso... político, à russa, para ouvir que o PCP não aprova o unipartidarismo... nem que seja na América? O povo cubano merece menos que o português em matéria dos direitos e das liberdades?

Informação:
O não-debate será no Sábado, dia 6, ás 18h30.

Não contem comigo (dasss) !

29/08/2008

A Geórgia que se cuide !

Se julgava que o eixo-do-Bush vinha a correr com armas e bagagens para secundá-la na aventura da ofensiva contra a Ossétia do Sul, mediu mal o eixo e exagerou nas suas ambições: na melhor das hipóteses a NATO pode oferecer-lhe uma cadeira - nada que se pareça com um trono. E mais tarde ou mais cedo vai ter que se entender com a própria Rússia tal como eu tenho que me entender com os moradores da Quinta do Moxo – é uma questão de vizinhança.

A minha opinião não vale mais do que o envólucro de bala disparada, mas diz-me a intuição, mãe das ciências e de muitos enganos, que a Russia pôs o Sarcozy, a Ângela e a Condoleezza a espumar, não porque tivesse cometido um erro político (isso fá-los-ia delirar de riso) mas porque lhes deu um xeque-mate: usando dos argumentos, mutatis mutandis, do caso Kosovo, satisfazendo os anseios de uma população, mantendo a sua influência na Ossetia do Sul, reconheceu-lhe a independência, isto é, retirou à Geórgia e ao eixo-de-Bush o “direito de uso” a que aspiravam sobre aquele território.

Enquanto os líderes e os jornais do ocidente “ladram”, a caravana passa – a caravana russa. E a Geórgia assiste impotente, vítima de si própria.

(Recomendo a leitura de um texto de Mike Whitney, AQUI !)

23/08/2008

Rentrée (sans sortie)

Cirque Du Soleil – Saltimbanco

Jerónimo gagueja umas trivialidades sindicais à falta de perspectiva política; Louçã copia-as com eloquência e, esgotada a receita da criatividade, cede ao estilo populista. É entrar, meus senhores!

Ferreira Leite, leite magro de ideias, leite opaco de intenções, abriga-se num muro de silêncio que alguns militantes tentam arranhar aqui ou acolá, no Pontal ou na TV. Mas no geral, à sombra do mesmo muro, escondem-se com dentes afiados os barões assinalados, para lhe saltar à frente ou, conforme a situação, para cima dos ombros. Vale a pena assistir daqui por poucos meses à corrida. É entrar, meus senhores! O CDS, aguarda a boleia com mais ou menos jeito e trejeito de se fazer notar.

Colhendo o doce fruto do Poder, Cavaco emproa e Sócrates, na boa, vai correndo alegremente – o caminho está livre, o Povo domesticado, o neo-liberalismo instalado. É saquear, capitalistas, é saquear.

Este é o espectáculo. E o resto é tanga.

20/08/2008

Ossétia e os abutres

Onde outros/as vêem mapas e carros de combate, eu vejo cidades e pessoas, ruínas e cadáveres. Que hei-de fazer? Escrevo sobre o que vejo.
Bearing Witness / Gerardo Okarian – Genocid,ca 1960

Na Ossétia do Sul assenta a poeira sobre vinte mil cadáveres e oitenta mil refugiados. Chegam da Europa e da América os abutres, mas desta vez vão ter que grasnar baixinho mesmo que se ponham em bicos dos pés para a fotografia da Imprensa ocidental, porque o orgulho russo, esse, não morreu.

Quando a poeira assenta vislumbram-se sinais reveladores do papel que representa a NATO e a União Europeia no domínio da política internacional.

Situada na fronteira com a Rússia e com a Geórgia, «a Ossétia do Sul, cuja identidade histórica tem raízes remotas, pretendeu aceder à independência em 1992, após a desintegração da URSS, e de novo em 2006, após expressivo referendo, a qual todavia não foi reconhecida pelas instituições internacionais».

Na madrugada de 8 de Agosto de 2008 a Geórgia tentou reassumir o controlo daquela república separatista controlada pela Rússia que ripostou militarmente com envio de soldados russos. Estava desencadeado o conflito.

ver mais em "continuação"

Do Público:
A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, criticou duramente Moscovo, acusando a Rússia de destruir infra-estruturas civis georgianas.
... numa entrevista à CBS, Condoleezza Rice disse que a Rússia se está a isolar. “Está a tornar-se cada vez mais uma fora-da-lei neste conflito”, disse Rice. “Eles tinham, e provavelmente ainda têm, a intenção de estrangular a Geórgia e a sua economia”, acrescentou.
... O ministro russo dos Negócios Estrangeiros disse numa conferência de imprensa que a resposta da NATO era dúbia, acusando a Aliança de se pôr ao lado do “regime criminoso” de Tbilissi.

... O conflito começou quando a Geórgia enviou o seu exército para a província da Ossétia do Sul, na madrugada de 7 para 8 de Agosto, provocando uma contra-ofensiva da Rússia.

As potências ocidentais condenaram a Rússia pela resposta despropositada, ao passo que Moscovo se apressou a indicar que é necessário proteger os cidadãos russos (cerca de 90 por cento dos habitantes da Ossétia do Sul têm passaporte russo) e os elementos de manutenção da paz russos naquele território, prevenindo a Geórgia de levar a cabo um “genocídio”.

visao.pt :
Moscovo reagiu, afirmando que tirará «as conclusões que se impõem». A declaração da NATO «não é objectiva e reflecte uma tomada de partido», declarou o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov. O governante considerou que a posição da Aliança Atlântica «faz dos agressores vítimas». Moscovo não coopera com uma NATO que «protege os criminosos», referiu o representante da Rússia na Aliança Atlântica.

odiario.info
(citando um comunicado do Conselho Português para a Paz e a Cooperação 2008-08-16) :
«Recorde-se que a Ossétia, cuja identidade histórica tem raízes remotas, pretendeu aceder à independência em 1992, após a desintegração da URSS, e de novo em 2006, após expressivo referendo, a qual todavia não foi reconhecida pelas instituições internacionais. Tal propósito ganhou novo fôlego quando, à revelia da lei internacional, mas com o apoio e reconhecimento dos EUA e da UE, o Kosovo declarou unilateralmente a independência contra a soberania Sérvia em Fevereiro de 2008.

...Segundo o comunicado datado de 11 de Agosto do Comité da Paz da Geórgia, a presente situação de guerra eclodiu quando «o exército georgiano, armado e treinado por instrutores americanos e utilizando armamento também americano, submeteu a uma bárbara destruição a cidade de Tskhinvali. Os bombardeamentos mataram civis, ossétios, irmãs e irmãos nossos, crianças, mulheres, idosos. Morreram mais de dois mil habitantes de Tskhinvali e dos arredores. Morreram igualmente centenas de civis de nacionalidade georgiana, tanto na zona do conflito, como por todo o território da Geórgia.» A reacção da força de estabilização internacional, sob a jurisdição da OSCE desde 1992, constituídas por ossetas, russos e georgianos, estacionadas na Ossétia do Sul, forçaram a retirada de tropas georgianas para além dos limites desses territórios, infligindo também danos materiais e baixas civis e militares para além deles».

Honras e glórias

Uma vez mais os jogos olímpicos de Pequim deixaram de ser assunto desportivo e voltaram a ser assunto político. Não por causa dos "direitos humanos", agora e entre nós, mas sim por causa dos erros humanos.

Para salvar a honra supostamente manchada da nossa participação geral, acho que o presidente do Comité Olímpico Português deve deslocar-se ao Governo com uma corda ao pescoço, pedindo castigo. Mas acho também que deveria fazer-se acompanhar de outros dirigentes, treinadores e atletas que lhe prometeram dar um bom e esforçado rendimento.

Pouparia apenas o lançador de peso do Sporting para não ter que acordá-lo a horas impróprias. Eu sei do que estou a falar!...

Por sua vez, o Secretário de Estado do Desporto, mandava-os para trás, passaria a corda para o seu próprio pescoço e iria com ela ao parlamento pedir uma condenação por ter cedido o dinheiro público a atletas que apenas quiseram ir a Pequim para dar um passeio.

Só uma palavrinha para a Vanessa: «Quando eu boltar ao Perosinho (assim haja uma festa como aquela a que fui há uns anos) bou querer saber de ti. Pergunto ó Balente! Agora num me preguntes quem é o Balente...»

As notícias:

O presidente do Comité Olímpico Português, «para convencer o Governo de que Portugal tinha possibilidades», fez uma carta em que disse que ganhariamos 4 ou 5 medalhas 10 diplomas ou 60 pontos, se tivesse os apoios necessários.

O Governo deu os apoios que lhe foram pedidos mas os resultados dos atletas não corresponderam. Por isso, Vicente Moura declara publicamente a sua frustração e a intenção de não continuar à frente do Comité Olímpico Português depois destes jogos.

«Pensei que em conjunto com as federações podíamos colmatar as lacunas do sistema desportivo português. Enganei-me, enganei-me. Sem dúvida que me enganei».

Por considerarem que Portugal apresentava a melhor representação de sempre, Vicente Moura e os restantes responsáveis do COP estipularam aquele objectivo para Pequim 2008.

No final de Abril, Vicente Moura tinha condicionado a sua recandidatura ao cumprimento dos objectivos em termos de resultados.

11/08/2008

Vitória do Povo na Bolívia

Evo Morales, presidente da Bolivia.
Vou abraçar o povo boliviano mas não me demoro. Volto lá para o fim-de-semana. Se alguèm quiser saber porquê e não encontrar resposta na imprensa portuguesa, encontram uma ajuda em : http://www.manifestomarxista.blogspot.com

10/08/2008

Borboletas sem asas

Os balcões da cervejaria criavam entre eles corredores estreitos por onde os empregados circulavam. Do lado de fora havia os bancos onde os clientes se sentavam debruçados sobre as costeletas e os bifes de outros animais.

Com passos curtos e balanceados, circulava nesse labirinto o jovem Butterfly, cumprindo, apressado, o seu papel de recolher a louça suja e repor a lavada, ouvir os protestos dos seus superiores – sai-me daí que estorvas - , e contar o tempo que faltava para sair. Ele que apresentou currículo para empregado de balcão, e cunha de um doutor, ali andava carregando pratos e talheres, lavados para cá e sujos para lá, copos com lábios ainda agarrados...

Era dado à pintura, se tivesse tempo, e à dança do ventre, se tivesse onde. Mas era ali que o destino o colocara, onde esperava justiça. Esperava!... Passavam meses, já para mais de um ano, e a justiça tardava, como sempre.

Um, dois minutos antes do serviço fechar, chegava o Coronel que, com todo o respeito que é devido às autoridades e, por força de razão – ou por razão de força – quando são militares, tinha sintomas de senilidade mais do que se admite numa cervejaria de primeira classe. Sentava-se o idoso, mudava de lugar, chamava o empregado e, até que alguém viesse, dominava a sala com voz de comando.

- Faça o favor ! – atendia o empregado.
- Não é favor nenhum. Quero uma sopa.

E enquanto o diligente funcionário ia buscar uma colher e um guardanapo, o Coronel elevava mais a voz para reclamar:

- Mas que esteja quente.

Depois, num sussurrar mais intimista:
- Não sabem que a sopa, para ser boa, é quente.

As vozes de comando e de sussurro, alternando, prosseguiam sem nexo e sem audiência. O pessoal e a fraca clientela que havia àquela hora, ouviam com paciência e consentiam à velhice aquele desvario, certos de que para velhos vamos todos.

- Ó Butterfly, Butterfly! – era ele a chamar o rapazinho que passava a recolher os últimos destroços desse dia, agora que era tempo de arrumação geral.

Butterfly não respondia.

- Ela é muito sensível, esta rapariga. Olha, ó Butterfly... Muito sensível.

Ninguém dava importância ao que dizia o velho. Ele sabia disso. Se sabia! E nem sequer tinha tempo de esquecê-lo, de tal modo lho mostravam dia a dia, a todo o momento, os seres vivos deste mundo em que vivia ainda . Com a idade, tornamo-nos inúteis, dispensáveis, fantasmas, invisíveis. Logo, inimputáveis, o que concede o direito de dizer tudo porque tudo é nada, é disparate se for dito da forma desabrida como o faz o Coronel, e com a sua idade.

Arumado o que havia para arrumar, Butterfly já não anda por ali a mostrar as madeixas alouradas, mas, lá para dentro onde quer que esteja, é bem possível que se ponha a pensar no que lhe quer o velho. E o velho a pensar no que quer Butterfly. Uma estranha cumplicidade os aproxima, porventura nascida da solidariedade entre dois homens que sofrem a impotência para vencer o desprezo da comunidade, a exclusão, a solidão, a desesperança.

É certo que Butterfly pode alcançar o privilegiado posto de empregado de balcão, e o Coronel ainda vai a tempo de conquistar o Céu, pelas bem-aventuranças, mas convenhamos que são fracas certezas para quem tem só por certo arrastar-se pela Terra.

Não tarda que a casa feche as portas e então Butterfly e o Coronel hão-de tornar à crua realidade, com seus nomes verdadeiros, seguindo cada um para seu lado – que é lado-nenhum.

Talvez o rapazinho se vá a rir do velho. E o velho, do rapaz.

04/08/2008

Guerra e mal-entendidos (3)

Foi de caixão-à-cova aquela bebedeira.
Nunca mais apanhei uma tosga como aquela.

Numa daquelas noites em que o militar se rende à nostalgia enquanto espera, quase indiferente, a noite derradeira, se quase todos dormem e só o arvoredo escuro em torno vela, há que puxar pelo sono que não vem.


E uma bebida forte, dessas que nos corroem a garganta, o estômago e o cérebro, é o que se aconselha para vencer esta guerra.
Foi neste estado que me sentei e pedi ao soldado:
- Dá-me um café! Um café sem açúcar!

E enquanto esperava pela mistela amarga, voltei-me para trás e do púlpito tosco onde me sentava, proclamei um elogio inesperado ao amigo Álvaro que já estava deitado, talvez sonhando com a sua terra que não era aquela. Estávamos em Angola, destacamento da Cabaca, salvo erro, e do mundo onde nascemos só chegava a Lua e a saudade.

O elogio era às suas qualidades, as do Álvaro, um homem às direitas, um homem de esquerda – passe o paradoxo. Era nele que eu confiava e com quem discutia sobre este mundo e o outro, o mundo das ideias, dos valores, e da única guerra que era nossa, tão diferente daquilo a que fôramos mandados.

Firme no banco verde desbotado, voz de canhão arranhando-me a garganta, grandiloquente como qualquer borracho, eu dizia das grandes qualidades, da sabedoria, do humanismo do Nosso Furriel, e de como eu sentia o privilégio, e todos deveriamos sentir, de ter connosco o camarada Álvaro. Entretanto, Álvaro ressonava na caserna.

Quando me decidi a tomar o café, além de amargo já estava frio. E assim que o levei por onde antes passara vodka e whiski, caiu-se-me a cabeça no balcão e mais não digo ainda que me seja perguntado porque quando acordei estava já deitado, na caserna.

Passaram-se três anos, creio eu, quando falei com o Álvaro pelo telefone, eu já no Porto, ele na sua terra que a guerra para nós não foi o fim.


– Estiveste no comício do Palácio? – perguntou.

E antes que eu tivesse tempo para responder, acrescentou com uma sonora gargalhada:
- Foi uma festa. Os gajos ficaram à rasca.

Abreviando: o que é que se passou? Álvaro, grande amigo no "Ultramar", tinha participado numa provocação a um comício do Partido Comunista e disso me vinha dar notícia com grande entusiasmo como se a minha guerra ainda fosse a sua. Não sabia ele que por essa altura já eu era militante do partido que ele foi provocar – sem grande resultado, ao contrário do que ele imaginava.

Fiquei-lhe, então, a conhecer a veia esquerdista que o mato moderava para o tom em que a gente se entendia. Depois, o mêdo de expor até ao fim o pensamento de um e de outro, antes de 74, fez o resto, instalou o equívoco do nosso entendimento.

Não me lembro do seu segundo nome, mas não me esqueci do que aprendi com isto:

que o que se não diz faz muita falta.

Pintura acima: The Soldier Drinks, de Chagall