08/12/2017

Ora bolas... de ouro


Isto das bolas de ouro e das botas de ouro de Ronaldo, faz-me lembrar, “com o devido e merecido respeito”, aquilo que se diz no Porto acerca da Praça da Batalha: que é a praça mais rica de Portugal porque tem o café Chave de Ouro, o café e o cinema Águia de Ouro, e até um mijadouro  ao lado da Igreja de Santo ildefonso (assinalado na foto).


Nota: 
Em rigor, já não existe o café Águia de Ouro (por onde passaram algumas figuras ilustres portuguesas como Camilo Castelo Branco e Antero de Quental) e o próprio urinol foi pelo cano abaixo, por assim dizer. Conclusão: até o que é de ouro é efémero.

03/12/2017

Centeno não é Barroso… nem Guterres

Mas também não é Varoufakis

Relativamente à eventual escolha de Mário Centeno para presidir ao Eurogrupo, tem-se discutido se isso é bom ou mau para Portugal e se o ministro das Finanças irá ter alguma influência positiva nas decisões da instituição europeia – influência para Portugal e influência para a linha política da Europa.

Quanto a Portugal, o exemplo de Durão Barroso parece evidenciar que o nosso país não terá nada a ganhar. Barroso, alinhado ideologicamente com as políticas “austeritárias”, não deve surpreender que fosse apenas um submisso porta-voz da ideologia neo-liberal dominante. Mas se pensarmos em Guterres, o “socialista” português que ocupa o lugar de secretário-geral da ONU, que vantagem nos trouxe ou nos traz?

A perturbação no desempenho do actual ministro das Finanças português, que poderia causar a nomeação para presidente do grupo informal de ministros das Finanças da zona euro, não pode deixar de estar secretamente na cabeça de António Costa como está nas preocupações assumidas expressamente por Marcelo Rebelo de Sousa: “Se Centeno ganhar, não pode perder o pé em Portugal. É muito trabalho para ele" – comentou o Presidente da República!

Na sua candidatura à presidência do Eurogrupo, Mário Centeno defendeu (cito o Observador) “uma maior transparência e legitimidade dos processos de decisão da União Europeia. Centeno também deixa críticas às regras europeias em questões orçamentais e à omissão de medidas de crescimento económico nos programas de assistência financeira da troika”. Mas os termos em que se expressa parecem-me suficientemente prudentes para serem ambíguos. Em todo o caso é sabido que a política é sobretudo um jogo de bastidores.

Centeno que fará 51 anos no próximo Sábado, 9 de Dezembro, é um lutador – praticou rugby que é talvez o desporto mais parecido com o boxe! - mas no combate que o espera, se for escolhido, o ringue é a Europa e os adversários da sua visão humanista da economia, por assim dizer, levam grande vantagem negocial. Cá estaremos para assistir ao jogo – se houver jogo.

Fonte de imagem:  foto-montagem deste blogue

26/11/2017

Porque hoje é domingo (92)

Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo

Assim contou Jesus Cristo (Mateus 25:41) como “o Pai” trataria os seus filhos no chamado Juízo Final. Estou para ver como é que as homilias de hoje irão conciliar este deus do ódio com o deus do amor, do perdão, da caridade…

Eu sei, eu sei que não vão ter que explicar nada porque ninguém interrogará o sacerdote de serviço acerca das contradições da personagem. E ainda que o fizessem, há sempre a alegação da metáfora e tal.

Entretanto o medo faz o seu caminho silencioso como sangue venenoso no coração dos crentes ou, como a Igreja também lhes chama, os "tementes a Deus"!

19/11/2017

Oportunidade para Angola

Devido, em grande parte, à redução do preço do petróleo no mercado mundial, a economia angolana passa por uma das suas piores crises.

É o resultado talvez inevitável em qualquer país que tenha andado a nadar em petróleo quando este valia ouro, descuidando a diversificação da economia para fazer face à desvalorização da sua fonte de riqueza mais generosa.

A semelhança entre Angola e a Venezuela nesta matéria, por exemplo, é não só o choque económico mas também o choque político decorrente daquele. A diferença está na resposta que um e outro país dão ou não dão ao problema. A diferença, enfim, é que Angola parece estar a dar uma resposta inteligente.

Nicolás Maduro pode ter lido Karl Marx, tal como José Eduardo dos Santos e João Lourenço, embora sem a profundidade destes, mas contentou-se com as teses da luta de classes e da ditadura do proletariado. Não desenvolveu o Pensamento Económico. Eduardo dos Santos, é certo, desenvolveu-o a seu jeito…

João Lourenço, o novo presidente de Angola, está a adoptar medidas correctivas das práticas políticas e sociais, tão ajustadas como inusitadas. Se é por causa da crise económica e das exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), com vista a um futuro programa de apoio, dir-se-ia que “há (alguns) males que vêm por bem”.

Os constrangimentos a que terá que submeter-se para satisfazer a senhora Christine Lagarde (FMI) de tão má reputação na Europa e na América Latina, são conhecidos e reiterados: “é importante tentar reduzir a grande presença do Estado na economia”. Segundo ela, existe um programa de reestruturação de empresas públicas angolanas que inclui o encerramento de 48 e a privatização de outras 53...

Em todo o caso, o povo angolano não há-de estar disponível para uma nova forma de colonização e poderá criar, na complexidade dialéctica deste processo, uma nova e fecunda oportunidade.

12/11/2017

Porque hoje é domingo (91)


Para quem, como eu, dormiu em remotas aldeias de Angola, onde a casa do soba tinha quartos para várias jovens e onde os outros homens dormiam em dias diferentes com mulheres diferentes segundo uma escala rigorosa, isto da poligamia nas civilizações primitivas – civilizações virgens, digamos – não tem novidade. Já para não invocar a tese de Karl Marx segundo a qual a monogamia nunca existiu.

Mas a Igreja, na homilia deste domingo, irá dar a volta ao texto em que Mateus nos fala, com naturalidade, de poligamia cultural em grande escala e virgens ansiosas pela chegada do esposo.

“Do alto inacessível das suas alturas”, como dizia António Gedeão, os virtuosos sacerdotes tanto podem servir-se do episódio para falar de azeite como para falar de prudência ou do que lhes der na gana sacerdotal, mas o que se invoca é o texto seguinte (Mateus 25:1-13).


1 Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo.
2 E cinco delas eram prudentes, e cinco "loucas".
3 As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo.
4 Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com as suas lâmpadas.
5 E, tardando o esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram.
6 Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro.
7 Então todas aquelas virgens se levantaram, e prepararam as suas lâmpadas.
8 E as "loucas" disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam.
9 Mas as prudentes responderam, dizendo: Não seja caso que nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós.
10 E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta.
11 E depois chegaram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos.
12 E ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo que vos não conheço.
13 Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir.

11/11/2017

A palavra "democracia"

Ao ver como Mariano Rajoy reprime violentamente os independentistas provocadores no fraudulento referendo da Catalunha, como prende opositores políticos e como ele invoca a Constituição Espanhola para justificar tudo isso, bem como a manipulação despudorada da televisão pública (TVE) na forma como lida com o conflito entre os independentistas e os nacionalistas, desfaz-se qualquer dúvida sobre a hipocrisia com que o governo espanhol persegue os governantes venezuelanos, de Chavez a Maduro, por prenderem opositores políticos com pretextos comparáveis.

O mesmo se poderia dizer, rigorosamente, dos critérios democráticos de Donald Trump e dos governantes da europa ocidental, quanto à forma como tratam a China em comparação com a forma como tratam Cuba e outras ditaduras úteis.


AP Photo/Alex Brandon de Abril 2017