A importância de pi linha

Serve qualquer sinal para designar uma incógnita, sendo corrente usar o xis, o alfa, o gama... Mas para evitar mal-entendidos, porque o xis é conotado com pornografia, alfa é conotado com uma marca de automóvel e gama designa raios luminosos e navegadores, escolhemos o signo π que se lê “pi” (em matemática: 3,14...).

Diz o marxismo, na sua vertente filosófica, que pi não é pi mas que é pi e aquilo em que pi se torna. Isto aplica-se às pedras e ás flores, às pessoas e a toda a realidade, incluindo os partidos políticos. Só não se aplica à Matemática que é a ciência mais exacta porque, oh paradoxo, não lida com objectos da realidade.

Se um partido é aquilo que é, mais aquilo em que se transforma, é porque um elemento novo se acrescenta ao velho – sem ofensa. A representação deste fenómeno, para abreviar, seria: Pi = Pi+Pi’ , isto é, pi é igual a pi mais pi-linha.

Mais diz o Materialismo Dialectico que pi-linha (ou simplesmente pilinha, segundo o acordo ortográfico) não se acrescenta de fora, emerge do próprio pi como a pele das cobras. Esta teoria traduz um conceito social, a saber: a sociedade capitalista transforma-se numa sociedade socialista através da emergência de um elemento que se vai desenvolvendo no seio do próprio capitalismo. Digamos que esse elemento é o movimento revolucionário que, na linguagem dos signos aqui usada, é representado por pilinha.

Somos chegados, inevitavelmente, a uma abordagem freudiana de revolução que nem Marx nem o próprio Freud terão vislumbrado: o vigor fálico como expressão da qualidade revolucionária. Nada que não tivéssemos já percebido em algumas manifestações de afirmação pseudo-ideológica. E não é preciso invocar aquele lapso de Jerónimo de Sousa quando gritava em comício, a despropósito!, que os comunistas deveriam estar preparados para dar provas até de coragem física.

Força, camarada!
Cada vez há mais “folhas secas”
para varrer!

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Porque hoje é domingo (29)

Naquele tempo, uma espécie de abelha mágica andava pela região. Depositava um pólen que fecundava virgens e mulheres estéreis.

Foi assim que Maria engravidou apesar do seu corpo nunca ter sido tomado pelo companheiro ou por outro qualquer até então! (Mateus 1,25) Foi assim que o sacerdote Zacarias foi contemplado com a gravidez da sua Isabel quando a idade já não fazia crer que isso acontecesse.

De tal abelha não falam as escrituras mas sim de um tal Gabriel que terá andado de um lado para o outro a levar a notícia, primeiro a Zacarais e depois a Maria - desse Gabriel dizem as escrituras que era um anjo… O próprio S. José foi avisado por um anjo do Senhor. Isto é: sonhou que foi! (Mt 1, 20).


Não admira que as duas primas se encontrassem um dia para falar sobre o assunto. Conta S. Lucas (1,39-45) baseado em pesquisas a que procedeu mais tarde, que Nossa Senhora foi visitar a prima Isabel e, para além daquelas coisas que se dizem nestas circunstâncias, “ Ó prima, por aqui? Mas que surpresa!”, a mulher de Zacarias terá acrescentado: «Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?». Modéstia de Isabel se pensarmos que aquele que se agitava na sua barriga não era uma criatura insignificante, era João Batista, o que viria a ser profeta e a batizar o próprio Cristo.

Hoje sabemos como foi inútil a vida atribulada de Jesus que Deus mandou à Terra pela forma como vimos, para trazer a paz e o amor entre os homens, a caridade e a equidade, por assim dizer, que ao fim de dois mil anos o que temos é porrada e injustiça, egoismo e corrupção.

Não é ainda Natal, este domingo; é apenas o dia em que as duas primas se encontraram a falar daquilo que lhes aconteceu e cuja conversa deve estar tão bem retratada por S. Lucas como as datas (erradas!) que ele atribui aos acontecimentos. Nem será por mal; são as contingências de todo o historiador.

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Portugal à venda

Enquanto os países progressistas e progressivos do mundo preservam o seu património, enfrentando patrioticamente as consequências, os governos liberais europeus endividados pelas suas próprias políticas, alienam a riqueza do seu povo e o próprio povo, rendem-se cobardemente às pretensões neo-colonizadoras dos países ricos.

Foi assim com o desmantelamento da nossa indústria, pescas, agricultura, de que agora choram lágrimes de crocodilo. É assim com as privatizações da TAP, da ANA, da RTP, dos estaleiros de Viana do Castelo..., de que hão-de chorar mais tarde, estes "piegas" fingidos. Como se ninguém visse a Grécia aqui tão perto.

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Socialismo a votos

Este foi o ano da consagração do projecto socialista da Venezuela, o socialismo do século XXI, como diz Chavez, ou o socialismo como democracia avançada, como também dizem outros dirigentes.

Em 7 de Outubro, o povo venezuelano reelegeu Chávez com 55% dos votos, para o terceiro mandato presidencial de seis anos. Uma diferença de dois milhões de votos em relação ao seu opositor. Neste domingo, 17 de Dezembro, os candidatos do chavismo a governadores ganharam em 20 dos 23 estados! A oposição só conservou Amazonas, Lara y Miranda.

O mapa político da Venezuela apresenta uma esmagadora mancha vermelha para vigorar até 2013.


O chavismo tem condições para desenvolver o seu projecto socialista e com ele beneficiar em justiça e bem-estar as populações mais carenciadas, beneficiar em desenvolvimento a economia nacional e da própria região, beneficiar a “integração”, isto é, a coesão internacional dos diferentes países da América Latina e do Caribe.

Ao contrário do que aconteceria em períodos históricos anteriores, nada faz crer que uma conjura militar ou um boicote económico tenham condições de sair ao caminho do processo em curso, as relações políticas internacionais colocam o país ao abrigo de aventuras imperialistas e a situação económica mundial dá-lhe descanso e oportunidade.

Em condições normais de pressão externa e temperatura interna, por assim dizer, Chavez está salvo, sobretudo porque, como ele diz, “Chavez no soy yo; Chavez es el pueblo!”.

Uma lição para “ditadores do proletariado” e para “socialistas de gaveta” que não é certamente por rejeiterem alianças comprometedoras ou estilos populistas, que não querem aprender.

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Os erros entranham-se

De tanto repetir o mesmo erro, umas vezes por bem, outras, nem tanto, somos levados a tomar por certo e por verdade o erro, o disparate, a falsidade.

Tome-se por exemplo o “Pai-Nosso” que nos habituámos a dizer desde que a água-benta começa a fazer efeito na nossa linguagem. Em português não se diz “vou pedir aumento ao patrão nosso, vou insultar o presidente nosso, vou emigrar deste país nosso, vou esperar o pai nosso à camioneta”… Diz-se “nosso patrão, nosso presidente, nosso país, nosso pai”!

Outro caso é a Avé-Maria. Aqui, houve ignorância ou esquecimento de traduzir a primeira palavra árabe “طيور” que em português significa “salvé” ou “saúde”– salvação, saudação. A expressão السلام عليك يا مريم deveria traduzir-se por “Deus te salve, Maria”, ou “saúde, Maria” que é o que dizemos quando Maria espirra, por exemplo. Mas deixamos ficar o arabismo.

Outra coisa é traduzir “foot-ball” por futebol, “baguette” por baguete, “boite” por boate e “soutien-gorge” apenas por sutiã. Aqui ponderam-se diferentes razões.

Em alguns casos é para evitar uma expressão demasiado extensa. “Peça de roupa íntima feminina usada para segurar os seios” tornaria o significante tão complicado quanto o significado; “Vou dançar à caixa” comprometeria a reputação da Caixa Geral de Depósitos, e traduzir “casse-tête” por quebra-cabeças no sentido intelectual, deixava-nos sem um instrumento adequado para as "cargas" policiais contra os lançadores de pedras. Tudo isso tem a sua explicação. Agora, “Avé Maria”, valha-nos Deus!


Servem os maus exemplos religiosos, enfim, para demonstrar como um erro muitas vezes repetido se entranha de tal modo na cabeça de um cristão, de um cidadão, de um contribuinte, que o mais santo se crê em pecado, o mais generoso se sente arruaceiro e o mais honrado, um caloteiro. É assim que os ladrões passam por autoridades, que os vigaristas passam por empreendedores e os mamões passam por… laranjas.

Voltarei ao assunto nas próximas eleições - ou nas eleições próximas.

O quadro inicial é uma montagem original para este "blog".

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Porque hoje é domingo (28)

«As estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas». Quem assim falava não era presidente da república nem autarca, como se vê pela falta de referências a auto-estradas e à Mota-Engil. Era João que seria decapitado porque as suas professias comprometiam o Poder. Era mais uma voz que clamava no deserto como Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e poucos mais dos que se fazem ouvir.


Agora que a voz dos profetas ecoa nos sentimentos do povo, chegam os hipócratas de imprevisíveis bancadas com mêdo de perder um lugar no futuro tal como conseguiram um lugar no passado.
Por sua vontade, S. João seria decapitado e Jesus Cristo seria crucificado, mas lavam suas mãos e esperam que Herodes e Pôncio Pilatos sujem as suas. Não é difícil perceber pelos caminhos por que chegam aqui, que se estão nas tintas para que os camelos passem ou não pelo cu duma agulha, gozam com os crentes e continuam empoleirados na escavadora da economia nacional, fingindo-se críticos.


Como um filho de Deus, Passos Coelho, religiosamente inflexível, lembra o pecado original dos portugueses, a "sua" dívida, e aplica a penitência da deusa alemã. Entretanto, vendo o país a afundar, Noé vai enchendo a barca com tudo o que puder apanhar para si próprio: água, electricidade,  televisão, correio, aviões...

Perdoem alguma imprecisão histórica. Em caso de dúvidas, podem sempre consultar o Evangelho Segundo S. Lucas, logo no início do capítulo terceiro, e comprarem o livro de Isaías, à venda em qualquer lado.

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«RTP: o fim anunciado»

O título que dou a este artigo é o nome de um livro que José Barata-Feyo publicou em 2002. E dele recolho algumas passagens oportunas dez anos depois.

«O Governo nomeia o conselho de gerência ou de administração que, por seu turno, nomeia os directores bem como as macro e micro-estruturas da empresa. Todos se tornam assim, de alto a baixo, criaturas e potenciais instrumentos do governo».

Logo a seguir, cita Victor Cunha Rego, fundador do PS e que foi presidente da televisão portuguesa em 1982 e para quem «A RTP é um prolongamento do aparelho ideológico do Estado».

Até aqui, nada que nos surpreenda. Precisaria apenas, pela minha parte mas também em coerência com o seu pensamento, que a dependência dos jornalistas e dos quadros da empresa de comunicação não é menor nas estações privadas, antes pelo contrário. E que a dependência do governo a que "todos" os trabalhadores estão sujeitos não deve entender-se como adesão ideológica mas sim como desempenho profissional, tal como os operários em relação aos patrões. Outra coisa são os gestores de conteúdos.

«Quanto ao processo da morte da RTP – escrevia Barata Feyo há dez anos! – ele foi anunciado pelo primeiro-ministro Cavaco Silva, em vésperas de eleições presidenciais. Na corrida de 1991 para Belém, Pinto Balsemão, fundador do PSD, fez saber que poderia candidatar-se pelo seu partido contra Mário Soares, apoiado por Cavaco Silva e pelo aparelho do PSD. Balsemão renunciou à sua candidatura. Porquê? – pergunta Barata Feyo. E acrescenta: - Eles lá saberão».

«Cavaco Silva e o PSD acabaram com a taxa de televisão (…), obrigaram a RTP a vender ao desbarato os seus emissores e, a seguir, a alugá-los por um preço que, ao fim de três anos, já implicava prejuízo para a empresa». O jornalista desenvolve a seguir aquilo a que chama «manobra da asfixia da RTP», nomeadamente as limitações drásticas das receitas de publicidade. E denuncia a estratégia de sacrifício da RTP para criar condições vantajosas para os investidores privados que aguardavam o seu dia.

«Serviço público de televisão com um ou dois canais? – pergunta-se Barata Feyo, fazendo eco da questão que corre nessa altura. E responde que «a questão é capciosa» porque «o fecho de um canal implica, a prazo, o fim do outro, condenado a fazer uma programação desléxica que o vai empurrar para audiência residuais».

À parte a suspeição em torno das razões da renúncia de Balsemão, estas e outras análises afins foram primeiramente expostas pela Comissão de Trabalhadores da RTP em sucessivos comunicados e entrevistas com entidades influentes no processo. Isso não tira minimamente o mérito de Barata Feyo, pelo contrário. Serve apenas para evidenciar que ninguém pode fingir que não tinha consciência do que se passava.

Invocar estas estratégias do PSD e o papel central do astucioso Cavaco Silva ao longo dos tempos, onde pontificam figuras tão persistentes na vida pública como Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, Proença de Carvalho* e outros, serve para lembrar que nem a estratégia nem os estrategas trazem novidades ao conflito entre a defesa e a destruição da televisão pública. Nalguns casos o despudor dos governos chega ao ponto de nomeá-los para a administração da própria empresa que combatem. Entre os inimigos externos, os internos e os infiltrados, a RTP tem sido vandalizada pelos partidos, com sacrifício dos profissionais independentes do Poder, e do serviço que é suposto prerstar à população.

Entretanto, o mais repugnate - mas não importante - é o oportunismo individual de algumas personagens deste drama que se exibem nos palcos a chorar e a sangrar porque foram vítimas dos jogos a que se prestaram.

*A minha referência a Proença de Carvalho que foi presidente da RTP em 1979, não é extraída do livro mas do meu conhecimento directo. Nota curiosa é que ele seja da mesma terra que Barata Feyo, a Soalheira, na Beira Baixa. A coincidência fica por aqui!

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A vaca do Natal

Anda meio mundo a marrar com o Papa por ele dizer que não havia vacas nem quaisquer outras bestas no presépio onde nasceu Jesus. Havia apenas a jovem Maria e o velho José que viviam juntos não se sabe porquê ou para quê, e a eles se juntaram, isso sim, mas por pouco tempo, os três reis-magos com a missão política que lhes cabia de visitar o rei dos judeus, e por não terem sido ainda inventados os ministros dos negócios estrangeiros e os diplomatas – sorte a deles!

Quem quiser saber mais só tem que comprar o livro onde isto vem tudo escarrapachado. A tiragem está em um milhão de exemplares! E a oportunidade não podia ser melhor para vendê-lo. Não é por acaso que há tantos lançamentos literários nesta época do ano… Ou julgavam que era só o padre Mário?


Papa e Padre Mário da Lixa " (composição original)

Esperamos que nas vèsperas do Natal seguinte, o escritor Ratzinger, também ele José e também ele velho e santo, aproveite a onda para desmentir a virgindade de Maria a fim de se acabar com a desconfiança sobre a virilidade do marido, e aproveite até para desmentir a ressurreição de Cristo de quem não se conhece a segunda morte que decorreria nessas circunstâncias.

Afinal, diga o Papa o que disser, só a sua Igreja pode interpretar “autenticamente a Palavra de Deus escrita e transmitida, exercendo sua autoridade em nome de Jesus” – diz ele.

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