22.1.23

Porque hoje é domingo (129)

De regresso ás minhas homilias ateias, sou trazido a comentar o tema que a Igreja Católica invoca dos evangelhos oficiais: o recrutamento de militantes para o cristianismo.

A cena passa-se numa praia da Galileia, frequentada por Jesus. Este viu dois pescadores que convidou para o apoiarem e, depois, mais dois: “eu farei de vós pescadores de homens” – terá dito o profeta auto-intitulado filho de Deus. Da pesca à linha para a pesca à rede, muitos mais homens o Senhor levou atrás dele, entre os quais Mateus que é quem nos relata mais tarde este episódio. Ele não presenciou pessoalmente este passeio de Jesus pela praia, mas a sua genuinidade é-lhe creditada pela dedicação com que se entregou à causa que abraçou, sujeitando-se à perseguição e à morte. Vamos esquecer por momentos que Mateus, antes de se dedicar à construção da Igreja, se dedicava a actividades bem mais prosaicas que lhe valeram a condecoração social de padroeiro dos banqueiros, contabilistas, funcionários da alfândega e guardas financeiros…

A Igreja Católica, nascida assim na praia, corre hoje o risco de se afogar por uma onda de escândalos sexuais e, sobretudo, pelo refrescamento das mentalidades trazido pela democratização da cultura, avessa como é a mitologias, crenças e crendices de consistência demasiado arenosa. Mas não nos precipitemos a anunciar-lhe a morte quando assistimos à sua outra formulação: o populismo hipócrita, essa religião política que recruta em águas turvas para alimentar o “peixe graúdo”.

19.1.23

Zelensky no seu palco

Quantos mais ucranianos mortos, famílias destroçadas, cidades arrasadas serão necessários para que Volodymyr Zelensky tenha "vantagens" numas conversações de paz com a Rússia? Quantas mais armas para o seu arsenal?
Os governos não são tribunais, não seguem apenas o que é justo: são orgãos políticos que decidem de acordo com o menor dos males. Os juízes decidem de acordo com as leis, mas os políticos decidem de acordo com as conveniências do seu país. Negociar não é um acto de cobardia, é uma acto de inteligência quando não se pode vencer o inimigo pelas armas.