Porque hoje é domingo (71)

De que nos fala a homilia de hoje ?


Mateus conta (Mt. cap.28) que Maria Madalena e “a outra Maria” foram ver o sepulcro e que então ocorreu um grande terramoto! Até aqui, tudo razoável, isto é, tudo compreensível.

Mas heis que “um anjo do Senhor desceu dos céus” e, chegando ao sepulcro, rolou a pedra da entrada e “assentou-se sobre ela”.

Do anjo se diz que era “como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve”. Dêmos de barato a aparência descrita e que um relâmpago se tenha sentado sobre uma pedra… Afinal, a crermos que era um anjo e como tal reconhecido, o que menos importa é o que parecia. 

Para nós que estamos dispostos a imaginar a forma de um extra-terrestre e os meios de locomoção que utiliza, temos que admitir a descrição do anjo que nos é apresentada por Mateus. E se Nossa Senhora de Fátima voava e vestia de branco, não sei porque um anjo não havia de fazer o mesmo.


O que não pode deixar de surpreender é que “os guardas tremeram de medo e ficaram como mortos”. Mas se estava a ocorrer um terramoto, não eram só os guardas que tremiam e não era só de medo, é o que acontece às pessoas no meio de um terramoto. O que parece menos provável é que “tremeram de medo e ficaram como mortos”. Os mortos tremem? E as duas Marias, no meio de um terramoto e diante de um anjo que lhes fala, aperceberam-se que os soldados… tremiam?

Tudo isto é quase tão incompreensível como o mistério da Santíssima Trindade que, apesar de ser assumidamente um mistério, é forçoso que nele acreditemos.

Eu posso acreditar que o Sol é habitado, que um pedaço de pão é o corpo de Cristo e que Cavaco Silva é o presidente de todos os portugueses - são ideias misteriosas mas concretas sobre as quais se pode formular uma opinião. O que não posso acreditar é num… mistério indefinido. Não por ser mistério mas por ser indefinido.

Imagens recolhidas em Google.com

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Padre Mário de Oliveira

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É preciso engravidar a Esquerda

Em jeito de resposta a Varoufakis
Nos três últimos posts citei algumas ideias que Yanis Varoufakis apresentou numa entrevista de 2013, quando ainda não era ministro. Parecem-me ser teoricamente tão respeitáveis quanto criticáveis. 

Suspender o avanço para carregar as armas e retemperar forças, não constitui um recuo – digo eu. Mas o que leio naquela entrevista não é uma trégua temporária, é uma mudança de inimigo, é um abandono da guerra que se apresenta, em nome de uma que ameaça. E é perder o objectivo, em nome da estratégia.

Que estratégia é esta que Varoufakis defende? “Estabilizar a Europa” como ela se apresenta agora, comprometermos-nos com “um cartel fundamentalmente antidemocrático e irracional, que meteu os povos europeus numa trilha de misantropia, conflito e recessão permanente”.

Em nome de quê? De evitar um mal maior – a extrema direita. Como se esse perigo maior não viesse pelos caminhos desta Europa!

Mais aconselhável é mudar esses caminhos, é esvaziar a extrema direita do argumento que a União Europeia lhe oferece: o carácter “antidemocrático e irracional”. É mudar “a trilha” ultra-liberal e não percorrê-la ao lado dos seus mentores.

Que a extrema-direita prossiga essa estratégia de se confundir com a direita europeia, faz sentido para aquela – afinal a direita europeia está a fazer a sua política de recessão social; ambas caminham no mesmo sentido e apenas é suposto existirem  diferentes limites no percurso. Mas o que se espera da Esquerda é uma mudança de sentido.

Se a crise europeia “não vem grávida de alternativas progressistas”, é preciso engravidá-la! E se Varoufakis se sente impotente para fazê-lo, é talvez porque se convenceu de que a capacidade da Esquerda para vencer, depende apenas da estratégia dos teóricos e não na determinação dos povos. 

Ao invés, o que me parece é que, enquanto a Esquerda se dilui na Direita a fim de ganhar "o tempo de que precisamos para formular a alternativa", as bases vão lhe perdendo o respeito e a confiança (vide França). A determinação popular acabará por fazer fogueiras dos tratados europeus e dos acordos de regime, e devolverá Yanis Varoufakis ao seu lugar na universidade mas não na História.

O que mais precisamos para formular a alternativa, é tempo ou é iniciativa? Na resposta a esta questão há que ter presente que as lutas sociais justas são, elas próprias, grávidas de respostas.

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Assim falava Varoufakis (3)



AUTO-CRÍTICA

… Por mais que me satisfaça defender como atitude genuinamente radical a implantação de uma modesta agenda para estabilizar um sistema que desprezo, não fingirei que a coisa me entusiasme. Acho que aí está o que temos de fazer, sob as circunstâncias atuais, mas muito me entristece pensar que provavelmente não viverei para assistir à adoção racional de agenda muito mais radical.

Por fim, uma confissão de natureza muito altamente pessoal: sei que corro o risco de, sub-repticiamente, encobrir a tristeza por estar enterrando qualquer esperança de substituir o capitalismo, no tempo de vida que me resta, deixando-me arrastar pelo sentimento de satisfação por ter-me tornado "palatável" nos círculos da "sociedade polida". A sensação de auto-satisfação, ao ver-me festejado por ricos e poderosos, até começou, sim, uma vez, a implantar-se em mim. E que sensação feia, corrompida, não radical foi aquela!



O meu fundo do poço pessoal aconteceu
num aeroporto.




Um grupo endinheirado havia-me convidado para uma conferência sobre a crise europeia e consumira a quantia escandalosa de dinheiro necessária para enviar-me uma passagem de primeira classe. De volta para casa, cansado e já com muitas horas de voo na bagagem, eu ia andando do lado da longa fila dos passageiros da classe econômica, para chegar à porta de acesso dos ricos. Foi quando, de repente, com considerável horror, dei-me conta de como eu me deixara facilmente infectar pela sensação de que eu "tinha direito" de passar à frente dos hoi polloi [grego no orig., "a plebe"].

Percebi o quão rapidamente eu esquecera o que minha mente de esquerda sempre soubera: que nada se reproduz mais perfeitamente nem mais rapidamente, que um falso senso de "ter direito" a algo.

Forjar alianças com forças reacionárias, como entendo que devamos fazer para estabilizar a Europa hoje, põe-nos sob o risco de sermos cooptados, de deixar nosso radicalismo morrer sufocado sob o calor acintoso da sensação de ter afinal "chegado" aos corredores do poder.

Confissões radicais, como a que tentei escrever aqui, são talvez o único antídoto programático contra deslizes ideológicos que ameaçam nos converter em engrenagens da máquina. Se temos de forjar alianças com o diabo (e.g. com o FMI, com neoliberais os quais, contudo, também têm objeções ao que chamo de bancorruptocracia", etc.), temos de evitar nos converter em socialistas que fracassaram na luta para melhorar o mundo, mas... melhoraram, sim, muito, a própria vida privada.

O truque é evitar o maximalismo revolucionário que, no fim, só ajuda os neoliberais a superarem a oposição à imundície medíocre e autoderrotista deles; e conservar ante nossos olhos a feiúra inerente do capitalismo, quando tentamos salvá-lo, para objetivos estratégicos, dele mesmo. Confissões radicais podem ser úteis para alcançar esse difícil equilíbrio. O humanismo marxista, afinal, ensina a nunca parar de lutar contra isso em que nos estamos convertendo.

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Assim falava Varoufakis (2)


PIOR QUE MAU

(Na Inglaterra da s.ra Thatcher), com a vida cada vez mais miserável, mais brutal e, para muitos, cada vez mais curta (…) as coisas podem piorar perpetuamente, sem jamais melhorarem. A esperança de que a deterioração dos bens públicos, a diminuição da vida da maioria da população, as privações que já chegavam a cada esquina da terra, levariam automaticamente ao renascimento de alguma esquerda, era o que era, nada além do que era: só esperança!

A noção de que a deterioração das "condições objetivas" (a realidade material) dariam de algum modo origem a "condições subjetivas" (o desejo popular de mudança) das quais emergiria uma nova revolução política, não passava, completamente, de engodo. A única coisa que emergiu do thatcherismo foi gente que vive de especulação, a financialização extrema, o triunfo do shopping mall sobre as lojas da esquina, a fetichização da casa própria e... Tony Blair.

É a razão pela qual estou feliz de confessar o pecado que me tem sido imputado pelos críticos radicais de minha posição "menchevique" sobre a Eurozona: o pecado de escolher NÃO propor programas políticos radicais que visem a explorar a eurocrise como oportunidade para derrubar o capitalismo europeu, para desmantelar toda a Eurozona e para minar a União Europeia dos cartéis e dos banqueiros corruptos.

Ah, sim, eu adoraria poder apresentar aqui aquela agenda mais radical. Mas, não, não estou disposto a cometer o mesmo erro pela segunda vez. O que obtivemos de bom na Grã-Bretanha no inícios dos anos 1980s, promovendo uma agenda de mudança socialista da qual a sociedade britânica zombava, ao mesmo tempo em que afundava, de cabeça, na armadilha neoliberal da Sra. Thatcher? Precisamente nada. 

Que bem nos faria hoje clamar pelo desmonte da Eurozona, da própria União Europeia, se o capitalismo europeu está também ele fazendo de tudo para pôr fim à Eurozona, até à própria União Europeia? Uma saída de Grécia ou de Portugal ou Itália, da eurozona, logo se desenvolverá numa fragmentação do capitalismo europeu, o que gerará uma região a mais de grave superávit recessivo no leste do Reno e norte dos Alpes, enquanto o resto da Europa vê-se nas garras de uma viciosa "estagflação". 

Quem vocês imaginam que se beneficiaria desse desenvolvimento? Alguma Esquerda progressista, que nasceria feito fênix das cinzas das instituições públicas europeias? Ou os nazistas da Alvorada Dourada, os neofascistas de várias origens, os xenófobos, ou especuladores? Não tenho absolutamente dúvida alguma sobre qual desses dois grupos se beneficiaria da desintegração da Eurozona. Eu, de minha parte, não estou interessado em soprar ventos novos nas velas dessa versão pós-moderna dos anos 1930s.

Se tudo isso significa que seremos nós, os adequadamente errantes marxistas, que teremos a tarefa de salvar o capitalismo europeu dele mesmo, que seja! Não por amor a eles, ou de tanto que apreciamos o capitalismo europeu, a Eurozona, Bruxelas ou o Banco Central Europeu , mas só porque queremos minimizar o sofrimento humano desnecessário que essa crise cobrará; as incontáveis vidas que serão ainda mais profundamente esmagadas sem qualquer tipo de benefício, nenhum, para as futuras gerações de europeus.

Cada vez que os lacaios da troika visitam Atenas, Dublin, Lisboa, Madrid; a cada pronunciamento do Banco Central Europeu ou da Comissão Europeia sobre o próximo arrocho no parafuso da austeridade que terá de acontecer em Paris ou Roma, vêm à cabeça as palavras de Bertholt Brecht: Força bruta está fora de moda. Para quê mandar assassinos contratados, se lacaios fazem o mesmo serviço?

Fim de transcrição

"Assim falava Varoufakis (3)" irá transcrever uma auto-crítica do autor aqui invocado, retirada da mesma entrevista de 2013 - quando não era ainda ministro.

As citações aqui transcritas são excertos das declarações de Varoufakis no artigo Confissões de um Marxista Errante, nas Sombras de uma Revoltante Crise Europeia, publicadas no seu próprio blog em 2013, na tradução de Vila Vudu para o blog A Comuna (UDP).


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Assim falava Varoufakis (1)

DE SI MESMO

Marxista, hegeliano, keynesiano, humano, tenho tendência natural a dizer que não sou nada disso; que consumi meus dias tentando tornar-me a abelha de Francis Bacon: uma criatura que prova o néctar de um milhão de flores e converte a coisa, nas próprias entranhas, em algo novo, que deve muito a todas as florações, mas não se define por nenhuma única flor.

… Sim, partilho a ideia de que essa União Europeia não passa de um cartel fundamentalmente antidemocrático e irracional, que meteu os povos europeus numa trilha de misantropia, conflito e recessão permanente.

… A actual crise europeia (…) ameaça toda a civilização como a conhecemos.

DA ALTERNATIVA

… (mas) temos de deter a queda livre do capitalismo europeu, para conseguir o tempo de que precisamos para formular a alternativa.

A crise da Europa, como a vejo, não vem grávida de alternativas  progressistas, mas só de forças radicalmente atrasistas, regressivas, que têm capacidade para provocar renovados banhos de sangue "humanitários", ao mesmo tempo em que vão matando qualquer esperança de qualquer movimento progressista para as futuras gerações.

… Com as elites europeias em pleno surto de negar evidências, desconcertadas, e com as cabeças enfiadas no buraco, feitos avestruzes, a Esquerda tem de admitir que simplesmente não estamos prontos para remendar os buracos que um capitalismo europeu em colapso abrirá, usando, nós, algum sistema socialista operante, capaz de gerar prosperidade partilhada para as massas.

Nossa tarefa deve ser, pois, dupla: Oferecer uma análise do actual estado para o qual foram empurrados europeus não marxistas bem intencionados, pelas sereias do neoliberalismo, e fazer seguirem-se a essa análise sólida, propostas para estabilizar a Europa – que ponham fim à espiral descendente que, no fim, só reforça os perversos e incuba o ovo da serpente. 

Ironicamente, os que mais amaldiçoamos a Eurozona, temos uma obrigação moral de salvá-la!

Eis precisamente o que tentamos fazer com nossa Modest Proposal. Ao nos dirigir a públicos diversos, que vão de ativistas radicais a gerentes de hedge funds, a ideia é forjar alianças estratégicas mesmo com gente da direita, com os quais partilhamos um simples interesse: um interesse em pôr fim ao circuito de realimentação negativa entre "austeridade" [arrocho] e crise, entre estados falidos e apoiantes falidos; um efeito de realimentação negativa que mina o capitalismo, como mina qualquer programa progressista que o substitua. 

Fim de citações

"Assim falava Varoufakis (2)" tratará da experiência britânica como indicador de que, depois do fundo, há mais poço...

As citações aqui transcritas são excertos das declarações de Varoufakis no artigo Confissões de um Marxista Errante, nas Sombras de uma Revoltante Crise Europeia, publicadas no seu próprio blog em 2013, na tradução de Vila Vudu para o blog A Comuna (UDP).

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Portugal é a Grécia?

Num encontro de jovens comunistas em que participei há muitos anos, alguém menos jovem mas não menos comunista, digamos, salientava  a necessidade de ler os jornais. Entre os participantes alguém comentou que não lia o jornal "X" por considerá-lo muito reaccionário. O mais velho, indignado, comentou:
- Se não lês, és ignorante!

Por maioria de razão leio publicações de esquerda, mesmo as mais sectárias, entendendo por sectário aquilo que valoriza e defende tudo o que se faz no "seu" partido, sem nunca criticar os erros ou discordar das opções centrais. No confronto das diferentes versões e com algum sentido crítico próprio, sinto-me mais próximo da verdade.

Aqui fica, por essas razões - e com a maior estima pelo autor, aliás - um artigo do Miguel Urbano Rodrigues no seu indispensável resistir.org


O MÍTICO FIM DA CRISE 



Eles dizem que Portugal já está a sair da crise. Mas, revela-se agora, o número de penhoras duplicou em apenas dois anos . As cobranças coercivas do fisco passaram de 927mil euros em 2013 para mais de dois milhões em 2014. A voracidade fiscal é tamanha que até clientes de restaurantes e lojas são notificados para penhora dos estabelecimentos onde pedem a e-factura com número de contribuinte (o que é uma razão de peso para nunca informar o número quando se faz uma compra). 

Haverá tanta diferença assim entre Portugal e Grécia, como apregoa este governo? Aparentemente a diferença é só de dois anos: Portugal está hoje na mesma situação em que estava a Grécia dois anos atrás.

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Jornalismo de conspiração

A jornalista-pivot convidou o historiador e activista político Fernando Rosas, para comentar a celebração da Rússia pela vitória na Segunda Guerra Mundial.

A menina deve ter pensado que o dirigente do Bloco de Esquerda, crítico determinado e qualificado, do regime soviético, iria aproveitar para bater na Rússia, em Putin e no comunismo de uma assentada, juntar a sua voz ao coro dos hipócritas europeus e norte-americanos, apoiar a NATO na reposição em curso da "guerra-fria"...

A parvinha confundiu o professor Fernando Rosas com os companheiros desmiolados e corruptos que a rodeiam,  profissionais da conspiração sorridente contra tudo o que mexe em nome do progresso ou do patriotismo.

A "flaca" viu apagarem-se as canas, uma a uma, com que esperava fazer o foguetório provinciano e rasteiro que se habituou a ver brilhar no céu, naquele bocado de céu a que tem acesso e que julga ser o céu todo.

A coitada teve que ouvir, em resposta às suas perguntas envenenadas, que a Rússia tem todas as razões para estar orgulhosa do papel heróico que desempenhou no combate ao nazismo, que não faz qualquer sentido a ausência dos países europeus e norte-americanos naquelas comemorações, que a situação da Ucrânia tem origem num golpe-de-estado contra o presidente legítimo, Viktor Yanukovich, com assumida participação norte-americana, etc., etc, etc.

A ingénua não se dará ao trabalho de verificar se o Fernando Rosas tem razão, como tem, mas que já o arquivou no seu index de convidados a evitar, disso não tenho dúvidas. 

Aqui lhe deixo um conselho: não volte a convidar historiadores - são uns desmancha-prazeres!

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Cavaco visita o Alentejo


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