31/07/2008

Almerindos há muitos

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Almerindo Marques só tem interesse aqui porque exprime o paradigma do “socialismo liberal”, uma versão “moderna” de engenharia política a que seria forçado chamar ... “capitalismo de rosto humano”.

Diz-se socialista. Leu uma frase de Lenine “quando era miúdo”. Sobre a necessidade das pessoas se empenharem no trabalho e sobre a falta que fazem os gestores. Terá sido tudo o que leu de Lenine, e mal, a avaliar pelo seus critérios. Vender, vender, vender tudo e todos não é um slogan de Lenine, é o socialismo de Almerindo Marques.

Claro que há “critérios de avaliação de mérito” nas empresas. É mesmo para isso que estão lá os afilhados do PS e do PSD nos lugares de topo – para avaliar o mérito dos seus subordinados. O mérito partidário, antes de mais.

Juntam-se umas centenas de trabalhadores de cada vez e vendem-se à Segurança Social – é a receita. Desemprego sim, mas ”sem nenhuma quebra de tranquilidade social interna”. Diz ele, porque aos trabalhadores não lhe é perguntado. Depois de tratados como lixo é-lhes perguntado então se querem continuar assim ou se preferem ir para o desemprego...

Há frases de empresários e de quem lhes empresta a voz, que já enjoam. Por exemplo: «Uma das minhas opções de vida é servir» - e lá se vão servindo. Outra é «sempre me preocupou muito mais quem ganha pouco do que quem ganha muito». Outra do mesmo calibre é «O que se devia evitar era a saída de Portugal, de quadros. Quando se fala do que ganham os gestores, devia-se ver a responsabilidade, os efeitos fiscais, o número de horas que um quadro dedica ao trabalho». E um gajo tem que ouvir estas coisas sem vomitar.

«Eu sou socialista. Tal como eu o concebo, o socialismo é o melhor para a Humanidade» - é o manifesto de Almerindo Marques. Por outras palavras, o socialismo é o que um homem quiser. E Almerindo Marques quer muito dinheiro e muitos aplausos para ele, muitos despedimentos e contenção salarial para os outros. Quem assim concebe o socialismo, não é parvo e vai muito bem com este governo...

«Liberdade e mercado para produzir riqueza, ética e solidariedade para distribuir». Em matéria de produção de riqueza, ele sabe do que fala; quanto a solidariedade para distribuir – há que esperar. Ao menos os Castros que leram e ainda lêem Lenine, viram a coisa ao contrário: solidariedade para já, liberdades para depois.

Donde se prova que, socialismos, há muitos.
O que se espera é que haja ainda mais !

30/07/2008

Guerra e mal-entendidos(2)

A vila de Quimbele, que me recorde, era uma rua, um quartel e um posto de correio, um café, um mercado (na foto, ao fundo) e algumas casas alinhadas de um e outro lado da rua de terra batida. Se era mais que isto, me perdoem os seus habitantes, decerto orgulhosos como eu da terra onde nasceram.
Foi de lá que partimos para o destacamento do Cuango onde me era destinado viver ou fazer pela vida durante ano e meio, se bem me recordo. Era lá que iamos depois buscar os mantimentos, as rações de combate e a correspondência que chegava “da metrópole”.

Anoitecia em Quimbele. O furriel C. já devia ter alinhado pela milésima vez as botas de forma milimetricamente paralela, e já teria assobiado uma dezenas de vezes, uma por cada folha que avançava na leitura de um livro qualquer. Eu aguardava o sono à porta da caserna. Junto de mim estava pelo menos o soldado cozinheiro, que sem ele não seria possível esta história que vos trago.

Não sei a que propósito, e não vou inventar para enriquecer a trama, falou-se de um tempo anterior, da instrução militar, dos quarteis da metrópole. E foi assim que ele me surpreendeu ao dizer que fui eu que lhe dei instrução. Para falar verdade eu não me lembrava de nenhum dos soldados a quem dei instrução em Portugal. De um modo geral, tudo o que era militar era uma mancha verde plasmada no horizonte.

- Não se lembra? Uma vez até esteve a falar connosco assim dumas coisas de moral...

Aqui desconfiei que era ele e não eu quem trocava as personagens da história. Alguém me imagina a ter conversas de moral naquela idade e naquelas circunstâncias? Mas que moral podia eu tratar?

- Até nos falou em a gente comprar uns livros...

Como é costume, os livros trazem luz e o que me parecia uma imagem obscura da memória do soldado, de repente ganha forma e tudo se esclarece. Agora sim, lembrava-me de ter utilizado um tempo que seria destinado a acção psicológica ou outro disparate desse género, para falar de alguma coisa que tivesse interesse para todos, para a vida interior que não para rastejar em lamaçais imaginários ou saltar valas onde se podem fazer pontes. Em todo o caso, como vamos ver, eu estava a fazer “acção psicológica” – isso não nego.

Aquilo de que eu falei com os soldados e que ele invocava agora em Quimbele, era de se criar uma biblioteca para o pelotão: cada um daria uma pequena quantia com que comprariamos alguns livros, e uma vez que eles circulavam por todos, isso oferecia muitas possibilidades de leitura.


E para que a proposta encontrasse apoio entre os circunstantes, falei sobre a vantagem de ler livros e fui ao ponto de dar um exemplo... impensável para aquelas circunstâncias. Nada mais, nada menos, do que A Mãe, de Máximo Gorki ! A história de uma mãe que, por amor ao filho, o ajuda nas suas actividades revolucionárias e se torna, como ele, comunista. Só isso!!!

Já se vê donde vinha a ideia do soldado: na aldeia onde vivia, certamente, nunca ouviu alguém falar de amor e livros que não fosse o pároco local. O raciocínio é compreensível e aceitável. O equívoco seria inevitável. Mas ainda me pergunto se foi um mal-entendido ou se, em última análise, não se tratava mesmo duma questão de moral.

Creio que só depois de regressar de Angola é que encontrei e li um livro que se chama “A superioridade moral dos comunistas”. Mas confesso que não fui eu que o escrevi.

P.s.: Escusado será dizer que fui aconselhado por um oficial a não levar avante aquela ideia, o que eu acolhi até porque não tive “feed-back” da proposta – pudera!

27/07/2008

Trauma pós-guerra

Acabada a guerra colonial e durante anos, não foram raros os antigos combatentes com perturbações mentais, exibindo na rua a farda militar e outros acessórios mais ou menos ridículos com que expressavam a recusa em aceitar a paz, moldados como foram para a guerra.

Foi o que se passou com o sargento Getúlio – este aqui, personagem de ficção na obra do escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro agora agraciado com o Prémio Camões.

Informado de que a guerra havia terminado e que devia, portanto, abandonar a missão a que se dedicara com total empenho, na selva, recusa a ordem e prossegue o seu combate delirante.

Tive o privilégio de ver o filme há bastantes anos no festival de Cinema de Troia, à margem do circuito comercial que nunca conheceu em Portugal, segundo creio. O autor do livro também participou na feitura do guião – do roteiro, como se diz no Brasil.

Abolida a polícia política e as suas prisões, abandonada a clandestinidade, também a democracia portuguesa manifesta por vezes sintomas desses traumas. E mais não digo sobre combates delirantes, para não ofender quem travou no tempo certo lutas heroicas contra o fascismo português, sofrendo privações, prisões, torturas.

Felismente foram poucos os que perderam o bom-senso. Infelismente estão acantonados onde não deviam, e disparam contra tudo o que mexe.

26/07/2008

Dia do Senhor...

Miguel Ângelo, Expulsão do Paraíso

Naquele tempo,
Deus criou o mundo...
E ao sétimo dia parou para descansar.

Foi despedido!


Código Laboral, Êxodo 34:
«Seis dias trabalharás, mas, ao sétimo dia, descansarás, quer na aradura, quer na sega».

25/07/2008

Guerra e mal-entendidos

Há sempre mais histórias do que História. Por isso ninguém tem que admirar-se por haver ainda quem venha acrescentar ao que se publicou sobre a guerra colonial.
É o meu caso.

Destacamento de Cabaca (Angola)

Há mais de trinta anos que deixei de comer as rações de combate e o pó das picadas, e de beber a água infecta dos rios, as bebidas brancas que me levaram a uma doença crónica, as bebidas negras, isto é, feitas pelas mulheres negras das aldeias. Há mais de trinta anos que visto calças e camisas de cores diferentes, que escolho o que visto e o que calço. E o que digo.

Digo-vos isto porque há mais de trinta anos, e só agora me deu para contar.

Por onde começar? Bem, ele há um episódio de que não vou falar. Não sei mesmo se posso. Mas logo se verá, à medida que outros vão puxando a vontade de falar.

Você era da PIDE, não era? – pergunta-me um ex-soldado, trinta anos depois, num daqueles almoços de confraternização e exorcismo que as companhias organizam ainda, a fim de reunir os ex-camaradas da guerra.

Se eu era da PIDE? – repito, estupefacto.

Era, não era? – insiste, encorajado pelo álcool e pela necessidade de se libertar de uma dúvida obsessiva. Mas não me parecia que tivesse dúvidas; apenas a necessidade de ouvir da minha boca a confissão que sempre quisera arrancar-me.

Porque dizes isso? – Limitei-me a perguntar, acentuando assim a opinião que ele havia formado enquanto convivemos durante dois anos, fosse no mato agreste e ameaçador, plantio de minas, esconderijo de atiradores, fosse nas casernas de madeira semi-apodrecida. No nosso caso, apesar do isolamento, tinhamos por adquirido que ali não éramos atacados, o que fazia daquele espaço desolado..., a nossa casa. Ás vezes até correio chegava, vindo dos pais, da namorada, da madrinha-de-guerra, para quem tinha. E não raro me calhou ser quem distribuia essa correspondência, emprestando as minhas mãos às mãos de Deus que era, em última análise, quem podia mandar coisas tão sagradas.

É que você ficava sempre com um jornal da JOC, que eu recebia, e só me entregava mais tarde.

Cabe aqui explicar que o jornal Juventude Operária que possivelmente ainda existirá, pertencia a uma organização católica de jovens leigos (JOC) e passava alguma crítica indirecta ao regime, a coberto do caracter religioso da publicação. E é verdade que eu lia o jornal e só mais tarde o entregava ao destinatário.

Como se esta minha atitude “censória” não fosse suficiente para revelar a minha ligação à polícia política de Salazar, acresce um episódio passado no mato que o ex-soldado me recordou.

Uma vez eu estava a ouvir música no rádiotransistor – contou ele – e deu o Zeca Afonso a cantar “Os Vampiros”. E então você, muito intrigado, disse: - Acho que essa música não vai voltar a passar. E o certo é que não passou mesmo.

Nesta altura, e antes de perder todos os amigos que tenho, e o respeito de toda a gente que me conhece como antifascista, activista e militante da esquerda mais combativa, devo esclarecer como na altura esclareci o meu interlocutor, que os factos estavam todos rigorosamente descritos, mas a explicação era rigorosamente a oposta. Isto é: eu retinha o jornal porque, tendo sido eu próprio membro da JOC e colaborador do jornal, era inevitável o meu interesse em lê-lo. Mas para bebê-lo e não para vomitá-lo. E quanto à minha sentença sobre Os Vampiros, já se vê que era uma previsão fácil de quem sabia o sentido do poema e a acção repressiva e censória do regime em que viviamos.

Coluna onde seguia o correio para o Cuango

Dispenso-me de extrair desta história a lição que ela encerra sobre mal-entendidos e juizos precipitados. Uma lição que os nossos medos e os nossos preconceitos nunca permitirão que seja suficientemente aprendida.

Mas voltarei ao tema de guerra e mal-entendidos mesmo que acabe por não contar aquele que não devo.

2008-07-24
As fotos aqui publicadas são de Ivo Morgado e de Henrique J C Oliveira cuja Companhia nos substituiu. Recortei-as em:

http://www.prof2000.pt/users/secjeste/Arkidigi/AZaza001.htm

20/07/2008

A sagrada família

Assisto na televisão actual às conversas de Marcelo Rebelo de Sousa, de António Vitorino, de Pacheco Pereira... Enfim, a sagrada família social-democrata. E vem-me à memória...

Marcelo Caetano, último ditador português, sucessor de Salazar, defensor da polícia política e da censura, tinha um programa na RTP que se chamava "Conversas em Família". Dizia ele com a pose familiar, simpática, quiçá sedutora dos bons comunicadores:

«Há por aí frequentes queixumes de que não temos por cá informação completa. Nada, porém, do que de verdadeiro se passa e que ao público interesse deixa de ser trazido ao conhecimento dele».

Isto é: o ditador coloca a premissa de que ao regime compete determinar "o que ao público interessa” e, a partir daí, não há falta de informação...

Hoje temos outro regime, este saído do 25... de Novembro de 75. E com ele o poder dominante deixou de escolher os assuntos; escolhe as pessoas que escolhem os assuntos.

18/07/2008

As artes da Nação

Deve o artista representar a realidade como é, ou criticá-la? Ou transformá-la, recriá-la? Ou libertar-se dela? A diferença entre pintura figurativa e pintura abstracta é uma questão de gosto? E a diferença entre neo-realismo e surrealismo ?


E a importância das artes, para a sociedade, merece discussão?

A resposta das Televisões é... «Não! Isso não interessa».


Quem quer ouvir o António Vitorino de Almeida, se pode ouvir o António Vitorino do PS? Quem quer saber o que escreve Agustina Bessa Luis, se pode ler o Luis Delgado? Quem quer ver Olga Roriz se pode ver João Jardim? Quem quer saber o que faz Júlio Pomar, se pode ver o que faz Júlia Pinheiro? Quem quer saber dos Cus de Judas se a Televisão já mostra tantos cus e tantos judas? Televisão que se preze, pensa assim.

E o que pensam “os políticos” - nesta questão mais indiferenciados do que noutras - da importância da Arte e da Cultura na avaliação do Estado da Nação?


Os museus, os monumentos, os auditórios, as companhias de dança e de teatro, as orquestras e os filmes portugueses..., o ensino das artes, as belas e as malas-artes, têm alguma coisa a ver com a Nação cujo estado se discute? Nada. Zero.

Felismente há Ana Gomes

Felismente há Ana Gomes. No PS e no blogue Causa Nossa - um espaço de produção colectiva onde participa assiduamente Vital Moreira, infelismente, mas onde é possível encontrar às vezes, textos de Ana Gomes, felismente.

Recomendo a leitura dos seus posts de 16 e 17 de Julho.

11/07/2008

Futuro em queda

A aviação é um dos sectores visivelmente afectados pela crise económica mundial em desenvolvimento. Em alguns países fazem-se esforços políticos para resistir a ameaças de encerramento das respectivas companhias aéreas.

«Até agora já foram à falência mais de uma dúzia de companhias de aviação internacionais, só nos primeiros 6 meses de 2008, incluindo:

A Airblue (Paquistão), a City Star Airways (UK), a Frontier Airlines (EUA), a Nationwide Airlines (África do Sul), a Palestinian Airlines (Egipto), a Tavrey Airlines (Ucrânia), a Jet4you (Marrocos), a Euromanx (Ilha de Man), a Aeropostal (Venezuela) e a Silverjet (UK), entre outras».


«Os grandes silos que são hoje os edifícios dos aeroportos, dentro de cinco anos podem estar transformados em museus da arte da tecnologia».

Quem fala assim é Nicolas van der Leek, a partir de Thomas L. Friedman, no livro The World Is Flat. Recolho esta análise catastrófica de Leek, com tradução de Margarida Ferreira, em resistir.info

E eu penso no novo aeroporto de Lisboa... Isto é, nos milhões...

Se este desastre se confirmar, eu não quero estar no PS nessa altura. Se não se confirmar..., também não quero.

09/07/2008

sem palavras


Se falo apenas do que há de feio,
é porque o que há de belo
me deixa sem palavras.

03/07/2008

A outra face


Como se Uribe e as FARC estivessem suspensas das suas sentenças, Ingrid Betancourt proclamou:
“A primeira coisa que devemos fazer é lançar um apelo ao presidente Chávez e ao presidente Correa para que nos ajudem a restabelecer vínculos de amizade, fraternidade e confiança com o presidente Uribe. Esta é uma etapa essencial para que possamos vislumbrar novas libertações unilaterais”.

A outra face desta moeda é que as FARC não nasceram para festejar o Natal, têm razões e prazos mais dilatados. E não combatem moinhos de vento, combatem um regime opressivo, autoritário, liderado por Uribe que mantém aprisionados nas suas masmorras muitos guerrilheiros das FARC, de quem ninguém quer saber o nome e por cujas vidas ninguém parece preocupado. E tão pouco inocentes são uns como outros – o que só os honra a todos.

Assim como não se podem ignorar os guerrilheiros presos, também não se pode ignorar que o presidente equatoriano, Rafael Correa, mantém as relações diplomáticas com Bogotá suspensas desde março, depois de um comando militar colombiano ter entrado numa região de selva do seu país e matado o líder das Farc Raúl Reyes e 24 outras pessoas. Também eram pessoas. Também tinham família.

Uma coisa é ser pacífico ou pacifista, outra coisa é ser imparcial ou justo. E se à família de Ingrid não se exige este esforço de imparcialidade, a Íngrid, que fez o discurso político que fez a seguir à libertação, exige-se que assuma a responsabilidade pelas palavras que escolhe.

odiario.info :
«Observadores suecos falam da similitude da operação com o sanguinário ataque do exército colombiano a um acampamento das FARC no Equador, onde assassinaram Raul Reyes. Este ataque aconteceu quando as negociações para a libertação de reféns estavam bastante avançadas.No caso actual, suspeita-se que também havia negociações avançadas com esses enviados.O El Tiempo informou em 1 de Julho, um dia antes da operação, que as FARC tinham aceite libertar 40 reféns, entre eles Ingrid Betancourt e os mercenários estadunidenses. Nesse caso, o narcogoverno colombiano pode ter interferido na operação de entrega para não dar esse trunfo à guerrilha. ... O governo dos Estados Unidos colaborou na operação (...). Assim o reconheceu esta quarta-feira Gordon Johndroe, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional em Washington».
«» ABP / YVKE Mundial / La Haine - Tradução de José Paulo Gascão

Sendo assim, Íngrid deverá também incluir os EUA nas tais conversações pacifistas.

Finalmente, e para que não haja dúvidas, fica a minha declaração humanitária: que sejam todos livres e felizes! Apesar de todos os crimes... Se possível.


( Meu artigo anterior sobre o papel de Uribe, AQUI !
e um artigo para não-cegos-voluntários sobre o mesmo assunto, AQUI.)