Elegemos com o coração

À hora a que escrevo este texto, o primeiro-ministro português, republicano, oferece um jantar de boas-vindas aos monárquicos reis de Espanha. A diferença ideológica entre um e outros é tão irrelevante para o convívio político, quanto a ementa.

Como já se viu, a população está mais interessada (exclusivamente interessada?) na beleza do casal Filipe e Letícia e nos seus sorrisos do que nas suas ideias. E não é uma simples questão de “alienação de massas”, é porque eles são a representação viva de um mito alimentado ao longo de milénios: de que os reis e raínhas são deuses humanos.

Mas esta relativização da importância das ideias em relação ao fascínio das pessoas em si mesmas, está presente em circunstâncias mais comuns. Ela pesa também nos critérios com que os cidadãos elegem os seus “ídolos” políticos.

Será que elegemos com o coração?

Foi impróprio mas não foi destituído de verdade o que disse Jerónimo de Sousa acerca da primeira volta das eleições presidenciais: que o Partido Comunista teria melhores resultados se tivesse “arranjado uma candidata mais engraçadinha”. Referia-se à candidata Marisa Matias do Bloco de Esquerda. Mas o fenómeno Mariana Mortágua, do mesmo partido e por maioria de razão, é outro exemplo indisfarçável, embora involuntário, deste efeito de sedução na política.

Bom proveito, magestades! Bom proveito, Portugal!

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Fidel visto por Daniel

Não aprecio a postura pessoal de Daniel Oliveira - a falta de respeito democrático com que participa nos debates, para já não invocar snobismos menos públicos. Mas assim como "Deus escreve direito por linhas tortas", o Daniel Oliveira escreveu um "ensaio" no Expresso que diz tudo o que eu diria sobre Fidel Castro, se eu tivesse as suas capacidades - do Daniel, entenda-se.

Seja como for, para aquilo que me pagam, já não é mau que me dê ao trabalho de sugerir a leitura do seu feliz artigo que se lê AQUI.

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Porque hoje é domingo (80)

Jesus, Passos Coelho e o diabo

Quando Passos Coelho anunciou que vinha aí o diabo, isto é, o cataclismo económico, não fez mais do que aplicar à política o método que Jesus aplicou à religião quando este ameaçou com a vinda de um novo dilúvio "numa hora em que vocês menos esperam", que traria o “Filho do homem” para o trágico juízo final.

Nas palavras aterradoras de Jesus, “Dois homens estarão no campo: um será levado e o outro deixado. Duas mulheres estarão trabalhando num moinho: uma será levada e a outra deixada” (Mateus 24:43-44).

Esta ameaça de que se aproxima o dia em que 50% dos trabalhadores irão morrer ou, metaforicamente, cairão no desemprego, seria sintoma de sadismo apenas, se não fosse acompanhado da receita para evitar o terrível acontecimento. E a receita é servir o senhor que ameaça, obedecer à sua vontade por via da fé - já que a razão é uma maçã envenenada.

No fim desta missa ouve-se o cântico seguinte:


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É só fumaça

Donde se prova que aquilo que Bruno de Carvalho expelia pela boca em frente ao presidente do Arouca, era só fumaça:

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Porque hoje é domingo (79)

A Igreja Católica invoca neste domingo uma troca de palavras entre alguns cidadãos presentes na crucificação de Jesus e de outros condenados, bem como os comentários dos próprios crucificados que o rodeavam.

O que mais indignava alguns populares, era que Jesus fosse identificado numa tabuleta como sendo “rei dos judeus” e, mais ainda, que se apresentasse como o enviado de Deus anunciado no Antigo Testamento. Se ele é quem diz que é, que se salve a si mesmo – proclamavam os seus detractores.

As opiniões dividiam-se nesta matéria, e até os dois condenados que ao seu lado sofriam a mesma pena, exprimiam opiniões diferentes em tom coloquial como se estivessem à mesa de um bar.

Dois mil anos passados sobre aquela história mal contada, o que pensamos nós? O que pensamos nós, distraídos e entediados, fazendo zapping nos 300 canais de televisão que nos oferecem crimes variados, chacinas, atentados, crianças a morrer sem saberem porquê…

O que tem a história de Jesus de mais trágico e apelativo do que a via-sacra dos refugiados da guerra ou da miséria, naufragando aos milhares e milhares no abismo infernal dos nossos mares, eles que não ambicionam outro paraíso que não seja… a Alemanha?!

Já é tempo de perguntarmos aos porta-vozes de Deus-todo-misericordioso, porque não salva ele estas criaturas já que não quiz salvar-se ele próprio.



Foto da ONU.br

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As 7 diferenças

Tenho para mim que Donald Trump não é pato. Nem pato Donald. É mais Tio Patinhas.

Com quem não se parece é com Obama, como este acaba de dizer na oportunidade da visita à Grécia. Isso desafia-nos para o tradicional passatempo de descobrir "as 7 diferenças" mais relevantes.

Imagem composta para este blogue

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Por uma Web Summit política

Assim como um polícia que leva um criminoso algemado, está, ele próprio, preso ao criminoso, também os EUA, libertando-se da Europa deixariam a europa mais livre.

Quanto do envolvimento europeu em conflitos não resulta exactamente da dependência política em relação à América do Norte? A autonomia geopolítica europeia permitiria ficar de fora da estratégia imperialista dos EUA e assim do seu campo de batalha permanentemente activo. E permitiria uma política de alianças mais conforme aos nossos próprios interesses.

Eu sei que uma tal autonomia europeia seria mais complexa do que uma “simples” redução de verbas atribuídas pelos norte-americanos à NATO, mas se “o mundo mudou” realmente, talvez se torne pertinente pensar sobre o assunto. Mais tarde ou mais cedo, o impossível torna-se inevitável – veja-se o eurocepticismo! – e quem vai à frente vê melhor.

O pior de tudo, convenhamos, é esta cobardia intelectual que nos mantém presos a ideias dominantes. Para quando uma "Web Summit" dedicada ao progresso político?

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Trump contra Trump

A expulsão dos imigrantes nos Estados Unidos da América mais parece uma falsa questão, por muito respeitáveis que sejam as preocupações dos próprios e de quem por eles se atravessa no caminho de Donald Trump.

Este tem duas razões para levar à prática o seu “compromisso” eleitoral, e outras duas, pelo menos, para não o fazer.

Ter-se comprometido tão enfaticamente com esta medida e ser normal (em qualquer país) expulsar imigrantes ilegais, são dois argumentos a favor da sua promessa. Mas, por outro lado, a vantagem das empresas norte-americanas em explorar mão-de-obra tão barata e tão servil, pode voltar-se contra os aliados económicos de Trump. Além de que, expulsar mais de dois milhões de pessoas ou mesmo deter a continuação de entradas, teria tanto sucesso, provavelmente, como tem o combate à entrada na Europa de refugiados da Síria e da região.

Eu imagino que seria mais eficaz um plano de desenvolvimento do México com ajuda dos EUA, de modo que os mexicanos não tivessem tanta necessidade de emigrar, mas isto não cabe certamente na cabeça de um “republicano” norte-americano. Duvido até que caiba na cabeça de um “democrata” liberal.

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A razão irracional dos americanos


Quando todos tentam descobrir a "razão irracional" da vitória eleitoral de Trump nas eleições dos EUA, ocorrem-me algumas ideias menos abordadas, porventura.

Antes de mais é preciso lembrarmo-nos que Trump beneficia do eleitorado do Partido Republicano, o mesmo que elegeu George Bush filho antes de Obama Se é verdade que o discurso de Trump incomoda muita gente até no seu partido, o eleitorado fecha os olhos aos seus defeitos em nome das supostas qualidades e não vê em Hillary Clinton uma figura convincente ou mobilizadora.

O espectáculo esteve longe de apresentar A Bela e o Monstro. Por outro lado, ele aparece como o candidato de protesto contra a classe política, o marginal contra a profissional de carreira.

O sistema eleitoral não oferece aos cidadãos uma oportunidade real de escolher o seu presidente - isto explica a vitória de Trump apesar de ser menos votado do que Hillary, mas também o facto de ser esta e não outro o candidato do Partido Democrata.

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Televisão por dentro (1)

Aviso prévio: “televisão” não é televisor; é do fenómeno e não do equipamento que aqui se trata. É da produção, realização, emissão e recepção.

Quando muito atrever-me-hei a ultrapassar estes limites para fazer comentários sociológicos aos conteúdos.

Não terei preocupações com a sistematização ou estruturação dos assuntos. Muito menos serei exaustivo no tratamento de cada assunto. Deixo isso para os compêndios.

Não há que estranhar, portanto, que traga aqui a questão da Cenografia, isto é, uma questão sobre cenografia em televisão.

Observe-se o cenário antigo do programa "Governo Sombra"


Que diferença faz neste cenário que o programa seja de humor ou de debate político ou desportivo? Nenhuma. Trata-se de uma sala discutivelmente bonitinha que melhor serviria para bar ou escritório moderno. Retirando a mesa serviria até para exibição musical. Para o programa em causa é que não faz qualquer sentido.

Heis senão quando… somos surpreendidos com um “novo” cenário!


Agora é criada, entre a mesa e a parede, uma bancada com gente… Que gente e o que faz ali, não interessa. Alguém achou que os comentadores do programa não tinham interesse e acrescentou-se um novo elemento de animação: um público indiferenciado e adormecido, umas vezes só pernas e outras vezes cabeças a espreitar para o espelho (o monitor onde vêem… a emissão).

Uma vez mais a imaginação não deu para mais do que copiar as manhãs da treta, de todos os canais nacionais e estrangeiros, iguaizinhos na sua parvulez.

Pensava eu que um governo-sombra se reunisse numa cave esconça – e porque não numa caverna, numa gruta? – com um ou dois pontos de luz discretos ao fundo, e uns caixotes toscos cheios de papeis e livros e algumas garrafas vazias. E, em vez daqueles “candeeiros” de filtro cinematográfico, uma sugestão de candeeiros a petróleo ou de velas ou de tochas…

Para falar a verdade toda, eu preferia mesmo uma espécie de cave abandonada, do tipo "occupied house". Mas algum trabalho terei que deixar para o cenografista da TVI24 (com os meus cumprimentos).

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