Porque hoje é domingo (11)

A passagem do Evangelho invocado neste dia pela Igreja Católica (Marcos 13, 33-37) apela à vigilância: «Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento».

Manifestamente, estas palavras são dirigidas aos banqueiros e capitalistas em geral, no sentido de preveni-los para o juízo final em que terão de responder por todas as malfeitorias que fizeram ou mandaram os governantes de direita fazer.

Mas também há quem interprete de outra maneira. A mensagem seria dirigida aos espoliados para que estejam atentos à oportunidade que tanto desejam de “mudar de paradigma” e não se deixem adormecer pelos comentadores nem se deixem embriagar pelos políticos no poder.

Mas é o próprio Jesus que esclarece:
- O que vos digo, digo a todos: Vigiai!

Que as razões de uns e outros sejam diferentes, não é preciso que Deus perca tempo a dizê-lo. Que a oportunidade seja aquela ”em que estejam reunidas as condições objectivas e subjectivas necessárias”, já esclareceu Karl Marx.

Mas porque nem um nem outro sobreviveram à “esperança de vida” do seu tempo, não tenho que ser eu a completar a tese. As condições objectivas estão aí todos os dias nas páginas dos jornais, nos noticiários da rádio e da televisão.

As condições subjectivas, isto é, o grau de descontentamento e a vontade de arrasar o muro, a gota de água que fará transbordar a taça dos sacrifícios, aquele grau de calor que fará a água em vapor, há-de resultar da força de cada um de nós em gestos consequentes.


Voluntários, precisa-se! Para encher a taça, para aquecer a água... e para iluminar o caminho. É preciso gente de coragem porque “o espírito está pronto, mas a carne é fraca”, como se lê neste domingo (Mc 14,17). Isto é, porque a razão pede acção mas o medo impede.

Este é o primeiro Domingo do Advento – diz a Igreja cristã. Tempo de expectativa com a vinda do “Salvador”. Que Deus a ouça!

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FMI segundo Mário Branco

Para "consolidar" umas ideias trazidas agora sob a forma de notícia vamos ao que dizia (ena, há tanto tempo!) José Mário Branco. É por causa da crise, tás a ver? Os juros. E tal. Afinal, se acaba a dívida, acaba a mama....

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Mais greve e menos conversa

Se a situação política e social em que nos encontramos não é sufuciente para convencer alguém da necessidade da Greve Geral que se realiza neste dia 24 de Novembro em Portugal, não há situação alguma que convença. Por isso, e depois de ter abordado o tema noutro artigo, a única coisa que vale a pena trazer aqui é informação prática:

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Comadres e verdades

Paulo Morais, antigo vereador do Urbanismo na Câmara do Porto, apareceu na TVI24 * a denunciar extensa e intensamente a corrupção que mina o país e que assenta muito na promiscuidade entre os deputados dos maiores partidos, autarcas dos mesmos e empresários privados, sendo muitas vezes as mesmas pessoas a assumir os dois papeis.

Paulo Morais já tem feito denúncias neste sentido, noutras oportunidades. A título de exemplo, dizia em Julho deste ano, segundo recorte em LUSA/JN:

«Cerca de um terço dos deputados que exerceram mandato na última legislatura pertencia, simultaneamente, a empresas que mantinham negócios com o Estado. Dos 230 deputados que integravam o anterior Parlamento, cerca de sete dezenas eram também administradores, gestores ou consultores de empresas que tinham directamente negócios com o Estado (...)»

Como também já dissera noutra oportunidade, insistiu que "a margem de lucro do urbanismo em Portugal só é equivalente à do tráfico de droga".

Manifestamente, a jornalista Judite de Sousa que conduz o programa, não estava a gostar da conversa e no final rematou com este comentário esclarecedor do seu incómodo:«Dr. Paulo Morais, o senhor é um desiludido da política. Foi o que eu registei destes 50 minutos de entrevista».


E eu pergunto: quem é Judite de Sousa? E a pergunta leva-me até ao marido, Fernando Seara, cuja biografia vale a pena consultar AQUI ou AQUI.

Enfim, o que eu registei desta entrevista foi que Judite de Sousa não se desiludiu ainda da política.

* Programa "Olhos nos Olhos" de 21/Nov./2011

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Televisões públicas e vícios privados

Muitas vezes me deparei com a dificuldade de pesquisa, sobretudo na produção de documentários, devida à insuficiência de registos e ao tempo de processamento do material pesquisado, visto que o filme antigo precisa de um tratamento prévio de limpeza em laboratório, antes de ser transcrito para vídeo.

Mesa de montagem de filme e áudio (moviola)

Muitos anos depois da Televisão abandonar definitivamente o suporte “filme” nos registos de imagem (acompanhado do registo magnético autónomo do som em “klang”), os serviços de arquivo da RTP continuavam a debater-se com a dificuldade de transcrever todo aquele material para vídeo a fim de ser utilizado pelos novos meios tecnológicos.

Claro que não é impossível proceder a essa conversão, e disponibilização pública, “tal como” fazem as bibliotecas que disponibilizam jornais antigos microfilmados, mas os custos em pessoal, laboratório e suportes, envolvidos nessa tarefa, foram avaliados? E quem os suportaria?

E em relação ao material arquivado que teve já a produção original em vídeo e não em filme, o que imaginam eles que permanece registado? Lembro-me de material importante das cassetes vídeo - já nem falo dos registos em bobines -, que era apagado num abrir e fechar de olhos para gravar uma treta qualquer porque não havia cassetes novas nem orçamento para comprá-las! Lembro-me também do que alguns de nós sofríamos com o apagamento definitivo desses registos de que sabiamos os custos envolvidos na sua produção ou o seu valor histórico. Mas a reutilização das cassetes vídeo era e ainda continua a ser em grande parte, imposta por razões económicas.

Desenganem-se pois acerca da recuperação de grande parte do material exibido, os comissários nomeados pelo Governo para definir o conceito de serviço público de comunicação social. E não se iludam com a viabilidade de passar a convertê-lo genericamente para suporte informático e publicado na internet.

Eu sei que não se iludem; querem iludir-nos, isso sim, para esconder a sua estratégia de destruição dessa outra “gordura do Estado” que é a Televisão Pública, a bem dos interesses pessoais e políticos dos seus próximos. Mas isso não é Televisão, é a sua visão! É o seu vício.

Parece que alguns tomaram a decisão elegante... de se demitir da “sábia” comissão. É que há gente que tem vergonha.

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Sobre tempos inúteis

“Cheira-me” a truque esta medida anunciada pelo Governo, de aumentar em meia-hora por dia a duração dos horários de trabalho do sector privado.

Não é só pelos aspectos negativos que comporta, como o caracter duvidoso da legalidade, o aumento do desemprego e a irrelevância económica. É porque, renunciar a esta medida, não é o que pode “pôr em causa nem em risco a meta de 4,5% para o défice” nem o “esforço de consolidação entre receitas e despesas».

Isto é, renunciar a esta medida no âmbito das negociações com o PS, serviria ao PSD para dar uma imagem de “abertura às sugestões da Oposição”, mantendo os compromissos declarados, e serviria ao PS para dar a impressão de que teve um papel importante no desagravamento das medidas anti-sociais da proposta governamental.


A propósito: não poderiam as centrais sindicais promover uma greve anual com duração equivalente ao somatório dessas meias-horas acrescentadas ao período laboral? Em que base horária é que seria descontado esse período de greve, uma vez que os trabalhadores tinham cumprido o tempo legal completo?

Eu sei que esta minha pergunta é sobretudo especulativa, mas como ponto de partida para uma reflexão sindical criativa, talvez não seja despicienda.

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As greves, que chatice

Nos dias de greve não faltam “comentadores” dispostos a substituir o protesto geral pelas suas opiniões “especiais”, para desvalorizarem a dimensão da adesão dos trabalhadores e para realçarem os inconvenientes que trazem aos utilizadores dos serviços, esses dias de paralisação. Os inconvenientes da supressão definitiva de serviços a título de reestruturações, e dos aumentos dos preços que os utilizadores pagam, é-lhe menos caro.

Não se apercebem da figura que fazem, lá no refúgio das suas cadeiras de onde não saem para o mundo real, assustados com a possibilidade de verem os assentos ocupados, no regresso. O medo geral, o terrorismo económico afecta os contestatários das greves como aos outros, só que àqueles de um forma patética.

Pois, as greves, que chatice!... Mas afinal não “são os empresários que fazem andar a Economia”? Que importância têm as greves?

Quando a indústria prospera, os capitalistas obtêm grandes lucros e não pensam em reparti-los com os trabalhadores, mas durante a crise tratam de despejar os prejuízos sobre os ombros dos cidadãos.

Quando o tesouro público suporta os desmandos dos governantes, é um fartote de lugares e privilégios para a família política, mas quando a dimensão dos gastos e da corrupção se torna insuportável, não são os amigos que pagam, são os outros e os serviços públicos prestados à população.


O fortalecimento da economia não é feito pelos investidores na bolsa; é feito pelos braços e os cérebros dos trabalhadores. É feito pelos que cultivam as terras, extraem os minerais, produzem mercadorias, embalam, transportam, constroem...

Os investidores – na verdade devedores à banca – o que fazem é apropriar-se das máquinas para exigirem o rendimento do trabalho e impor as condições – os horários, os salários... O medo de perderem este privilégio de controlar os meios e condições de produção é o que os move contra o Estado e em especial os estados mais interventivos.

Quando os trabalhadores se negam a trabalhar, todo esse mecanismo ameaça paralisar-se. Cada greve lembra aos capitalistas e aos seus representantes políticos, que os verdadeiros actores do desenvolvimento económico não são eles, e sim os trabalhadores. E os trabalhadores estão dispostos a pagar os custos pessoais da greve quando percebem que já nada mais faz parar a ganância dos agiotas.

Nota para alguns espíritos mais sensíveis:
Claro que há greves injustas, greves injustificadas e trabalhadores egoistas e "calaceiros" assim como há camelos capazes de passar pelo buraco de uma agulha, mas eu falo dos conceitos normais. Além disso, a própria greve serve para questionar os seus actores e a população em geral, sobre todas estas questões, trazê-las para o espaço de participação que lhes compete.

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Paradoxos do capitalismo

Os banqueiros portugueses estão em pé de guerra com o Governo, devido às regras para o acesso à linha de capitalização do sector, prevista no acordo da ‘troika'. A Associação Portuguesa de Bancos enviou mesmo uma carta à Comissão Europeia a acusar o Governo de pretender nacionalizar o sector financeiro. Os banqueiros chegam ao ponto de comparar a política do Executivo às nacionalizações do PREC, em 1975.

Recortado em Diário Económico (on line).

Seria também disto que Karl Marx falava quando dizia que o capitalismo transporta no seu seio os germes da sua própria destruição? Ou estamos perante uma outra contradição, entre capitalismo e democracia? Ou as duas teses são equivalentes?

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Cobradores de impostos

De Sócrates para Passos Coelho, de Zapatero para Rajoy, de Papandreou para Samaras ou de Berlusconi para Bersani a Europa não substitui as políticas desastrosas que prossegue, substitui os cobradores de impostos.

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Testamento de Berlusconi

«È terribile – afirmou Silvio Berlusconi - assistere impotenti alla televisione al dramma di Genova.
Vediamo se ci sarà il modo di intervenire per evitare che quello che è successo non possa succedere più in futuro».

Parece uma metáfora, o primeiro-ministro italiano a assistir, impotente, à tragédia que se abate sobre o seu país. «Impotente», porém, fica fora da metáfora, para que não se tome por inocente.

A Itália é nada menos que a oitava economia do mundo e a terceira da zona euro. A sua dívida pública representa 120% do PIB.

Os juros da dívida italiana já chegaram aos 6,4% nos prazos de cinco e dez anos, e as acções dos bancos italianos caíram a pique.  O país só resiste à pressão especulativa graças ao Banco Central Europeu, que, por sua vez, exige a aplicação de medidas de austeridade.

As autoridades europeias anunciaram a intenção de reduzir em 2 ou 3 pontos as taxas de juro que exigem à Grécia, à Irlanda e a Portugal, e que a duração dos empréstimos da Troika ia ser alongada. É o reconhecimento de que as condições do acordo de 21 de Julho são impraticáveis e que o risco de contágio a outros países, da insolvência, seria desastroso para toda a Europa.

Por outro lado, a função dos estados ricos e do FMI na gestão das taxas de juro agrava todas as dificuldades dos países endividados: estados como a Alemanha, a França e a Áustria pedem emprestado a 2% nos mercados e emprestam à Grécia a 5% ou 5,5%, à Irlanda a 6%. Assim como o FMI empresta aos seus membros a baixas taxas de juro e empresta à Grécia, à Irlanda e a Portugal a taxas nitidamente superiores.

As medidas sociais e políticas não são conhecidas inteiramente e em detalhe mas sabe-se que incluem o aumento da idade da reforma para 67 anos e a facilitação dos despedimentos. A imprensa avança ainda outro tipo de medidas, nomeadamente a liberalização das profissões regulamentadas, o relançamento de infra-estruturas e a simplificação dos procedimentos administrativos.

Vai ser lançado também um plano de venda de activos públicos, de pelo menos cinco mil milhões de euros por ano, durante um período de três anos, e as regiões deverão definir um programa de privatizações das empresas que controlam.

Durão Barroso já manifestou a satisfação da Comissão Europeia com estas medidas mas o presidente francês Nicolas Sarkozy disse recentemente que, embora tivessem tomado conhecimento, com interesse, das medidas tomadas pelo governo italiano “a questão não é o conteúdo do pacote, mas saber se ele será aplicado”. Como dizia Merkel “o que conta são os actos”.

Supervisão e subversão

O Fundo Monetário Internacional vai participar, junto com a Comissão Europeia, na supervisão dos planos de austeridade da Itália. A decisão foi tomada durante a cimeira do G20, em Cannes, França. Uma fonte da Comissão afirma que “temos de assegurar-nos que os objectivos da Itália são credíveis e que vai conseguir atingi-los. No clima actual, cada pequeno problema amplifica-se e os mercados perdem a confiança”.

O governo italiano já aceitou a supervisão do FMI. Mas será que este governo ainda estará lá quando essa subversão de competências se cumprir, ou isto não é senão o testamento político de Silvio Berlusconi?

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Resgatemos a Democracia

A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou por esmagadora maioria a entrada da Palestina como membro pleno da UNESCO – agência da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura. Poucas horas depois, o governo dos Estados Unidos anunciou a imediata suspensão de suas obrigações financeiras com a Unesco.

Papandreou propôs um referendo destinado a saber se os gregos concordam ou não com o  segundo pacote do plano de resgate financeiro, conhecidas e vividas que são as exigências que acompanham os empréstimos da “troica”. A União Europeia insurgiu-se contra esta consulta ao povo grego e ameaça bloquear o empréstimo de oito mil milhões de euros ao país, que estava previsto.

Vale a pena invocar quantos mais exemplos de conflito entre as instituições “democráticas” e a Democracia, que revelam a fraude em que assentam essas instituições? Lembram-se da forma como foi “aprovado” o Tratado de Lisboa... depois de rejeitado?

Se as instituições não confiam nos métodos democráticos e nos cidadãos, como se pode esperar que os cidadãos confiem nas instituições?

Não é a Palestina, a Grécia ou a União Europeia que estão em causa, é a Democracia. Porque não faltarão alternativas quando esta perder a credibilidade que ainda lhe reste. E não faltarão os apoiantes de uma “nova ordem” baseada no autoritarismo, entre desiludidos ingénuos e oportunistas perigosos.

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