Sub-missão

Das notícias:
«Manal al-Charif esteve nove dias detida, no leste do país, por ter conduzido o seu automóvel na cidade de Khobar. A Arábia Saudita é o único país que proíbe as mulheres de conduzir». Diário Digital / Lusa

Do livro auto-biográfico “Sultana”, publicado em 1991:


«A minha mãe não estava preparada para fazer outra coisa na vida que não fosse servir o meu pai»

«A autoridade de um homem saudita (sobre as mulheres) não conhece limites...»

«Nem o meu nascimento nem o meu falecimento fica lavrado em qualquer registo oficial»

«Em 1962, quando o nosso governo libertou os escravos, a família sudanesa que trabalhava para nós implorou ao meu pai que a deixasse continuar a servi-lo. Ainda hoje (1991) vive em sua casa».


Estas estórias fazem-me pensar como a direita política portuguesa, associada, confunde missão com submissão, ajuda, com impos(i)tura. Será esta associação (de ideias!) aceitável?

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As revoltas dos jovens

Os jovens revoltosos não-organizados que tiveram particular expressão nos anos 60, manifestavam-se então por dois fenómenos: o aparecimento de novas designações (incluindo neologismos) e de “fogachos”, isto é, ocorrências desordenadas.
As designações originais respondem a características da juventude: inadaptação ao sistema socio-político, necessidade de identificação e comunicação próprias de grupo, de bando.

No final dos anos 50 e princípios dos anos 60 do século 20, a Suécia, a França a Inglaterra, a Índia assistiram a violentas acções de massas de jovens, por vezes grupos com menos de 20 anos de idade, no seio das quais se integram vadios mas também sectores desfavorecidos do meio laboral, em todo o caso rebeldes sem causas instituídas, sem organização prévia e sem lideranças.

Uma existência angustiada e uma força vital impetuosa, parecendo contraditórias embora, coincidem num sentimento estimulante para a luta e para a luta desorganizada: o desespero!
Lá onde as revoltas se identificam com motivações socio-políticas mais concretas do que a contestação da ordem e da autoridade, como seja a recusa da guerra (como na Argélia e no Vietname) e a recusa da repressão política (fascismos e estalinismos), as lutas dos jovens encontram por vezes eco noutras camadas etárias e organizadas.

O meio universitário é particularmente combustível para acções de contestação e reivindicação colectiva de autonomia e de reformas. Do Líbano a Paris, da Itália à Inglaterra, da Checoslováquia comunista à Espanha franquista, os estudantes exigem, combatem e contagiam. E por exigência natural das próprias acções que desencadeiam, organizam–se.

Da contestação abstracta à identificação de objectivos, dos confrontos anárquicos à luta organizada, as revoltas dos jovens não-organizados ganham em eficiência o que perdem em tempo? Talvez haja espaço para as duas formas de intervenção, certos que haverá algumas colisões entre as duas correntes. Mas isso é outro tema que talvez venha a tomar a pretexto do "Maio de 68".

NOTA: O título deste artigo reproduz o título da obra onde recorto a maior parte da informação aqui produzida. O autor do livro de 1969 é J. Joussellin. Uma sugestão para a Feira do Livro em curso.

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Porque hoje é domingo (5)

Senhor, não Vos entendo. Para mim, pobre ovelha desorientada, é mais fácil perceber o António Lobo Antunes do que o apóstolo João, co-autor do Evangelho, santo e pescador.

Narra ele, o S. João (capítulo 14, versículos 15 a 21):


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
(15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos,(16) e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor,para que permaneça sempre convosco:
(17) o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece.
Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós.
(18) Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós.
(19) Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis.
(20) Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós.
(21) Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai,e eu o amarei e me manifestarei a ele.



Vamos então por partes:

«15) eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor» - Como é que sabe se o Pai dará ou não se ainda nem rogou? pode, quem roga, estar assim tão certo de obter o que pretende?

« ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco» - Mas então Deus não estava já sempre connosco? Outro para quê? Não será um desperdício de deuses?

18 a 20 – para quê tantas viagens de ida e vinda a nenhures? E o que quer dizer (20) « eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós»?

« Quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele»
- dando de barato que isto faça algum sentido, ainda assim pergunto: e quem não “me ama”? A Humanidade está dividida em classes, os que amam a Deus e os que não amam? Não somos todos irmãos e tal?

Espero que da próxima vez que passes pela Terra tenhas tempo de explicar melhor a tua ideia. Pelo menos a mim que devo ser o único que dou importância às cousas que dizem que disseste.


NOTA: Os versículos aqui citados são a leitura do Evangelho adoptada pela Igreja Católica paea este domingo 29.
NA FOTO: O da direita é o santo! - o evangelista S. João, segundo escultura de Donatello

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Exortação aos movimentos emergentes

São massas invisíveis e instáveis que, em momentos críticos, abalam, imprevisíveis e incontroláveis, a crusta suave e firme em que se desenrola a vida superficial.

Na Natureza tem um nome estranho, “tectónica de placas”; na Sociedade, mais prosaicamente chama-se “revolta”. Bem-vistas as coisas são designações equivalentes com que se exprime a desconstrução de um edifício ou, por extensão, de um sistema.

A questão política é esta: não se trata de "apoiar" um partido - em última análise, ninguém representa ninguém, ninguém merece a confiança total de ninguém. Do que se trata é de tomar “posição”, de mudar o caminho aos acontecimentos, de atrever-se por mares não navegados. É de comparar sistemas, inútil como é esta cacofonia social-democrata em busca de diferenças in-significantes.

E aqui não se trata, uma vez mais, de escolher os programas à venda – trata-se de agir, de abrir sulcos no caminho dos consensos paralizantes, de remover escolhos formais, destruir os alicerces da exploração, furar a crusta da corrupção, estremecer a Terra e libertar o Homem da asfixia a que chegou neste momento histórico. Cientes – e daí? – que a História não acaba aqui. Os políticos, os partidos, saberão "como" mudar o rumo, mas aos cidadãos comuns compete saber "para onde" querem ir.


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A importância do protesto

Era noite em Angola, no Cuango. Ou foi na Cabaca? No isolado destacamento apareceram vultos agitados; no silêncio da floresta que nos rodeava, rompiam vozes atormentadas – era um pelotão que regressava de uma operação no mato e trazia um morto e vários feridos. Eles e nós, os que tinhamos ficado no aquartelamento, tentávamos organizar o socorro, acorrer aos mais necessitados. A certa altura o médico, alferes-miliciano, alertou para darmos atenção aos que não gritavam nem gemiam de dor. Afinal, era entre esses que estavam os doentes mais graves – os que nem força tinham para falar.

Por isso, quando vejo as manifestações que decorrem no Médio-Oriente e no Magreb, penso naqueles e naquelas que na mesma região se sentem impotentes para protestar, e quando assisto ás grandes concentrações em Madrid, penso em Cuba onde a repressão contra os direitos mais elementares dos cidadãos continua diariamente.

Ganha pois uma dupla importância o grito dos que têm capacidade para fazê-lo: exprimem as suas dores e chamam a atenção para as dores daqueles que nem gemer podem.

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La juventud tiene razón

La juventud tiene razón
hay que seguir luchando
por un mundo mejor
donde se grite la verdad...


Cantautor: Manolo Diaz

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Luz ao fundo

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Manuel António Pina

Conheço-o apenas das crónicas do JN e costumo pensar que elas, por si sós, justificam o jornal. Na modéstia de um canto da última página, quão modesto é o autor, a mim se me afigura que está bem assim, preservado da poeira que faz as primeiras páginas. Só está menos bem porque pode passar despercebido a alguns leitores encandeados pelos destaques liderantes (delirantes?).

Agora, Manuel António Pina acaba de receber o Prémio Camões 2011, pelo conjunto da sua obra, um galardão que ele acolhe com surpresa e modesta satisfação. Mas também com aquela consciência nem sempre presente entre os consagrados, de que “os prémios não tornam as obras literárias melhores nem piores”. É neste jeito quase involuntário, despretensioso, que as suas crónicas vão semeando ideias. Pena é que as vozes do céu não cheguem aos burros, neste que voltou a ser “País de Pessoas Tristes” – para usar uma expressão sua.


Por motivo de avaria geral no "bloguer",
este artigo sai com algum atraso.

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Troicas e baldroicas

Eu sei que a gaja não obriga ninguém a aceitar os seus serviços. Eu sei que são os dirigentes políticos que decidem, soberanamente, se querem ou não querem o empréstimo da “troica”. Mas há neste processo qualquer coisa de perverso que me faz lembrar um criminoso que depois de ter esfaqueado a vítima lhe aparece de bata branca a oferecer serviços de saúde.

Quem foi que receitou a eliminação do aparelho produtivo? Quem foi que promoveu o endividamento geral? Quem foi que levou o sistema financeiro à falência técnica? Quem foi que colocou Portugal entre a espada económica e a parede política?

Estou a conhecer estas “caras” de qualquer lado!...

Quem tinha razão era a Cândida Branca Flor:
«São Tro(i)cas baldrocas
tantas engenhocas
que eles sabem inventar.
São palavras ocas,
faz orelhas moucas,
não te deixes enganar!»


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Chegou e disse...


Disse o Presidente da República - não "presidente dos portugueses" :

«... é o início de um longo caminho que "os portugueses" terão de percorrer num espírito patriótico e de "coesão e unidade"».
«Importa que os cidadão compreendam que o Acordo corresponde a um compromisso necessário para que Portugal obtenha um empréstimo»...
«Cabe-nos demonstrar que somos capazes de aproveitar este tempo difícil e fazer dos compromissos agora assumidos "uma oportunidade" para mudar de vida e construir uma economia saudável»...
«Não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades, a gastar mais do que aquilo que produzimos...»


Os portugueses, as famílias, os cidadãos, o Estado...

PERGUNTO:
E as empresas que fornecem bens essenciais a preços de luxo para dar fortunas cada vez maiores aos vampiros da Nação? “Os tempos de crise são tempos de oportunidade”? Os agiotas nacionais e internacionais que o digam! Não seria melhor pedir a esses que "mudem de vida"?

Então agora que vem dar raspanetes é que se lembra “dos cidadãos”? Mas não são os empresários que criam riqueza , que dão emprego, blá, blá? Que se sentam à mesa do Poder com as receitas para salvar “o país”? Os banqueiros e os grandes empresários!, não se esqueça deles.

“Só há um caminho: trabalhar melhor e poupar mais!” – diz Sua Excelência, o presidente-de-um-país-falido. E a gente, cá por dentro, a pensar que há um caminho, sim, o que não há ainda são as “condições subjectivas” para prossegui-lo. Talvez.

Por enquanto a abstenção é um manguito para a demagogia - uma denúncia contra a ineficácia das eleições. Mas isso não parece ser suficiente.

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A riqueza somos nós!

Na esperança de que o exemplo pegue
e os psicopatas do economicismo se calem...

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O episódio bin-Laden

Até agora o episódio parece muito mal contado: as provas da morte, um vídeo a fingir que mostra, os corpos de cujo destino se não fala, a forma como se conheceu – e sobretudo como não se conheceu – o paradeiro do fugitivo... Nada que tenha a importância que parece, apesar de tudo, que o que importa é saber se o terrorismo, esse, sobrevive e porquê.

Quanto às explicações da “Casa Branca”- lá onde se promovem atentados civilizados - admito que digam, vá lá, meia-verdade. Afinal o Presidente dos Estados Unidos não é José Sócrates.

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Porque hoje é domingo (4)

No domingo passado, Domingo de Páscoa, celebraram os cristãos a ressurreição e aparecimento de Jesus aos discípulos depois de ter sido morto e enterrado na sexta-feira anterior. No domingo seguinte, que é este, celebra-se o segundo aparecimento, desta vez com a presença do incrédulo Tomé.

Nste ano de 2011, esta segunda aparição coincide com o Dia do Trabalhador, isto é, aquele dia de 1886 em que milhares de trabalhadores de Chicago (EUA) se juntaram nas ruas para protestar contra as deploráveis condições de trabalho.
Não posso deixar de lamentar que os trabalhadores mortos em resultado da repressão policial que se abateu sobre os manifestantes, tenham sido menos bafejados pela graça de Deus do que Jesus, e tenham permanecido mortos até aos dias de hoje pelo menos.

Confesso! Confesso que sempre me fez confusão o critério de Deus para fazer milagres. Eu sei que é louvável pôr cegos a ver, mudos a falar, paralíticos a andar e até mortos a ressuscitar. Mas que diabo – passe a expressão -, porquê escolher só meia dúzia quando há milhões a precisar desses cuidados? E mais me interrogo, se não for pecado, porque há-de o Omnipotente consentir que tais deficiências ocorram e até catástrofes e guerras? Não seria mais económico – melhor “governança”, como agora se diz – serem todas as criaturas minimamente saudáveis, pacíficas e solidárias?

Agora consta que João Paulo II também faz milagres. Apesar de todas as perplexidades já aqui manifestadas, um resto de fé me leva a rezar-lhe para que, depois do sucesso com que combateu o comunismo, se dedique agora a combater o capitalismo.Acredito que o faça. Ou eu não me chame... Tomé.

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