a escrita


Não é o mundo que precisa da minha escrita.
Sou eu que preciso de falar com o mundo.

Escrevo sentimentos, emoções, a raiva e a ternura. Escrevo com os nervos - seria ocioso, falso e perverso fazê-lo de outro modo. Escrevo como mordo, como beijo...

Afinal as palavras são coisas, como riscos ou pontos ou manchas…
Só há uma diferente: a palavra amor !
A ela se referem todas as outras que estão na Literatura.



O ensaio é a ponte, é a escada, que, palavra a palavra, nos leva a todos mais à frente, mais acima. O romance serve para mostrar essa tragédia que é a vida – um processo a caminho da própria destruição. A poesia é o momento denso e incontido que busca reproduzir-se e perpetuar-se no húmus das palavras.

Mas não há expressão como o olhar…

em preparação a continuação

o teatro



O teatro põe carne nas palavras.
Põe pernas no andar, põe olhos no olhar…

O teatro dá-nos o outro que queremos confrontar – a sensação do outro. O outro Eu, decerto, incluído.

Se é verdade que a personagem me é representada e não apresentada, o actor
que invoca as suas dores e alegrias, no acto de mostrá-las é tão real como eu que com ele respiro, sinto, vivo aqueles sentimentos. Nesta cumplicidade física, real, está a grande alma do teatro. Do Teatro !

E para nos entendermos é bom dizer ainda que a comédia, a Comédia, em nada se distingue do que fica dito. Convocar os aspectos ridículos da vida é tão importante e tão dramatizável quanto é convocar os seus momentos trágicos.
E convocar o riso é sempre humano.

a televisão

Como sempre que a nossa vida toma um rumo, o acaso pesou tanto como a vontade. Respondi a meia dúzia de anúncios de jornal que pediam simplesmente empregado de escritório. Das duas entrevistas a que fui, pude escolher – nessa altura já sabia que um emprego era numa fábrica e outro na Televisão. A questão é que a fábrica pagava quase o dobro. Escolhi a Televisão e ali fiz a minha carreira, não nos serviços de escritório mas sim na Realização.

Muito do que aprendi o devo aos meus colegas. Não só os aspectos técnicos e operacionais, mas também a paciência no trabalho e o empenho, muitas vezes desinteressado, de muitos operadores de som, de câmaras, de iluminação, de mistura, de edição (chamava-se montagem desde os tempos do filme).

Sempre encontrei o maior profissionalismo nos mesmos em quem encontrava o melhor
caracter. E vice-versa.

Dos realizadores que mais estimei:
Manuel Oliveira Costa e Luis Filipe Costa.
Das chefias, uma pessoa só a quem me sinto sempre grato:
Teresa Paixão.

Como Assistente de Realização :
Morte D'Homem (1985), de Luis Filipe Costa
Só Acontece aos Outros (1985), de Luis Filipe Costa

Como Realizador :
«Fórum Musical» (série sobre música erudita)
«Conversas Vadias» com Agostinho da Silva (1990)
«O Tesouro” de Eça de Queiroz (ficção, 1990)
«Ana» (ficção infantil, 1994)
«O Autocarro) (ficção infantil, 1997)
«Desenhos Cruzados» (série/concurso infantil, 1998)
«Eu Decidi» (Documentario para a UER, 1999)
«Recordar» (Série docum.coprod. com BBC, 1999)
«As Palavras de Abril» (documentário)
«Manuel Valadares» (documentário)
(Em ambas as funções menciono apenas alguns trabalhos)

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a política


Menos de um ano depois de entrar para a RTP, dá-se a Revolução de Abril. Havia muito que eu via a Revolução «nos olhos dos pobres, nas barricadas dos livros, no ódio à palavra guilhotina», como diz o José Gomes Ferreira. E que nas minhas mãos nasciam armas como nasciam cravos... Modestamente, eu já estava na Revolução desde muito jovem, como activista da Juventude Operária e afins. Mas fiquei tão desconfiado da euforia popular, que nem quiz participar no primeiro grande comício que então se realizou na baixa do Porto. Na verdade ainda hoje desconfio da consistência de todas as euforias populares.

Esta frieza ou dureza política, se assim quizermos chamar-lhe, seria alimentada ainda mais no interior da Televisão que, como se imagina, passou a ser uma barricada dos confrontos da época. Para mim, para os meus, o confronto entre o fascismo recalcitrante e a democracia emergente. Para outros, o conflito entre a social-democracia e o "stalinismo". E há os outros, ainda - há sempre outros.



António Pedro


moral da guerra


Crianças são incentivadas a escrever mensagens nas granadas que irão matar outras crianças. As que escrevem são israelitas: cristãs, civilizadas, pró-americanas... As que morrem são libanesas...

Albert Einstein que viveu as duas guerras mundiais, terá alguma razão quando diz:
«Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta»

  • filme das guerras

  • A FABRICAÇÃO DO MEDO

    A fabricação do medo, para criar estados de espírito colectivos que justifiquem medidas repressivas, parece ter-se tornado um sistema. Agora é o Reino Unido do sr. Blair que anuncia nebulosas "ameaças terroristas" contra aviões, tentando gerar pânico. O que estarão eles a preparar?
    Nos EUA, o 11 de Setembro de 2001 serviu para fazer aprovar a toque de caixa a "Patriot Law" que estava redigida há muito e implicou uma profunda alteração no regime estadunidense. Direitos, liberdades e garantias desfrutadas pelos cidadãos americanos foram pura e simplesmente eliminadas.
    Não embarcar nas histerias colectivas promovidas na primeira página do Público e nos medias ditos "de referência" é um dever de lucidez. Não se deve esquecer que o governo do sr. Blair não merece credibilidade; que a sua polícia assassinou a sangue frio um emigrante brasileiro no ano passado; que eles pretendem deliberadamente criar um clima anti-árabe no momento em que cometem barbaridades atrozes contra os povos libanês e palestino; que a Al Qaeda é uma criação da CIA americana e é activada quando muito bem lhes apetece. (www. resistir.info)

    IRAQUE

    Almost 2,000 bodies were taken to Baghdad's morgue in July, the highest tally in five months of rising sectarian bloodshed which has forced the United States to boost troop levels in the capital to head off a civil war.


    Morgue assistant manager Doctor Abdul Razzaq al-Obaidi said on Wednesday that about 90 percent had died violently.

    "Most of the cases have gunshot wounds to the head. Some of them were strangled and others were beaten to death with clubs," he told Reuters

    (Em: http://www.turkishdailynews.com.tr/article.php?enewsid=51165)

    bandeiras


    Atrás destas bandeiras desfraldadas
    não marcha o povo heróico lusitano:
    destemido, intrépido, guerreiro,
    maior que Alexandro e que Trajano.
    Atrás destas bandeiras coloridas,
    à sua sombra, há misérias escondidas,
    há dramas de mil cores gritando ao engano.

    Atrás destas bandeiras agitadas
    não avança qualquer revolução
    que nos arranque ao fado, que nos arranque ao chão
    que nos arranque à praia, ao destino, à solidão…

    Atrás destas bandeiras inflamadas,
    redes sem peixe, sois sem madrugadas,
    há jovens sem futuro, famílias destroçadas
    na histeria do lucro-furacão.

    Atrás destas bandeiras nas janelas,
    não se acoitam heróis mas supranumerários
    - coisa que já foi gente, já foi povo,
    com direito a trabalho e a salários.



    No seu livro “Brancos Estúpidos” Michael Moore afirma a George Bush: “Não estou a pôr em causa o seu patriotismo – tenho a certeza de que amaria qualquer país que tivesse sido bom para si”. E quem sabe até que ponto os EUA foram bons para George, não duvidará de quanto patriotismo aquele homem sente!

    É por isto que eu aceito que o patriotismo dos meus conterrâneos atinja o seu climax, zénite ou orgasmo, num campeonato mundial de futebol. Muito mais autêntico porque desinteressado. E também porque tem o mérito de mostrar aos enfatuados gerentes deste país como são desprezíveis tendo em conta os resultados do seu jogo.

    Agora lindo, lindo, era se os portugueses metessem todos as bandeiras na lixívia e as pusessem nas antenas dos carros, nas janelas das casas, num estrondoso apêlo pela paz no mundo.

    AS DORES QUE NÃO PARAM O MUNDO

    " (...) O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (...)

    Mia Couto, em «O fio das missangas»
    Editorial Caminho, Lisboa, 2004, 148 pgs., ISBN: 972-21-1611-8