30/08/2012

Públicos ou privados (actualizado em 2/Set.)

Sim, sr. António Borges, há sempre "interesses estabelecidos". Por vezes são interesses nacionais.

Sim, os senhores estão "a combater os interesses estabelecidos”...  pela Constituição da Repúlica - que estorva tanto os vossos interesses como a Democracia estorva.

Sim, extinguir a RTP dava-lhes muito jeito para que toda a rádio e televisão ficasse apenas nas mãos de grande "empreendedores" que, obviamente são da sua família... política.

Sim, «diminuir os salários não é uma política mas uma urgência» (1Jun2012) se estiver a falar dos "salários" milionários de muitos gestores que obviamente são da mesma família. E de alguns profissionais da RTP, certamente, mas pelas mesmas razões - esses (ou essas?)que escolhem convidados "convenientes" e tratam "convenientemente" os "grandes temas da actualidade".


A propósito, transcrevo um trabalho de 2007 (para não deixar o PSD sozinho)  que mostra como funcionam estas coisas dos negócios privados à custa dos Estados que se querem magrinhos.

«É suposto um privado assumir o risco do seu negócio. Em Portugal, porém, há uma classe de privados especial: assumem o risco com os dinheiros públicos. Nada que lhes macule a alma genuinamente empreendedora ou lhes desinflame o discurso em prol do mercado livre.

NÚMEROS

176 923 608,339 euros foi o total de verbas transferido pelo ME para colégios e instituições privados durante o segundo semestre de 2006.

63 203 637,54 euros foi o valor encaminhado pela tutela para as escolas da Direcção Regional de Educação de Lisboa.

157 400 euros foi o valor que a Know How, empresa da escritora Maria João Lopo de Carvalho, recebeu para o ensino de Inglês.

1 260 017,35 euros foi o valor atribuído pelo ministério às instituições sociais e escolas da região algarvia, a menos afectada pelas verbas».

Diana Ramos in "Privados recebem verba do Estado",
publicado pelo Correio da Manhã em 10 de Junho 2007
(quando outro "partido responsável" era quem mandava no Governo, por acaso).

A propósito: António Hespanha demitido por dizer coisas do género!

28/08/2012

Governantes da pior espécie

«As estratégias tortuosas do capital entregam por vezes as insígnias do poder a políticos, ostensivamente medíocres. Os EUA tiveram um George Bush filho; Salazar impôs Américo Tomás. Mas raramente, mesmo na era fascista, Portugal terá suportado um governo com tamanho ramalhete de gente perversa, ignorante ou privada de inteligência mínima.

O Primeiro-ministro reflecte a imagem do conjunto. Cultiva um discurso cantinflesco em que amontoa frases pomposas sem nexo. Mas diferentemente do mexicano Mario Moreno, sempre solidário com os oprimidos, Passos, nas suas arengas reaccionárias, presta vassalagem aos opressores.

E que dizer do seu ministro da Economia, personagem que faz lembrar compères de antigas revistas do Maria Vitória? E de um Relvas, criatura que parece arrancada de uma peça de teatro do Absurdo?».


Excerto do artigo de Miguel Urbano Rodrigues,
"As rupturas revolucionárias não são prédatadas"
(As imagens foram aqui acrescentadas)

26/08/2012

Porque hoje é domingo (22)

Há duas versões para esta história: umas vezes se diz que se passou na presença de uma multidão que seguia Jesus, outras vezes se diz que se passou numa reunião restrita dos apóstolos - a Última Ceia. Mas o que se conta é que Jesus terá convertido pão e vinho na sua própria carne e no seu próprio sangue, sem que o pão e o vinho deixassem de parecer aquilo que eram.

Terá havido até muita gente que, não querendo ser tomada por parva, lhe virou as costas e foi retomar o trabalhinho que era de onde vinha o sustento realmente (João 6, 60-69).

Mas, ao contrário do que se julga, esta técnica de nos fazer crer que aquilo que vemos e sabemos não é o que vemos e sabemos, continua a ter os seus actores e o seu público.

Basta ver, entre nós, o descaramento dos governantes e a popularidae do Governo. Com um eleitorado tão dócil, bem pode Relvas continuar a sua perversa missão, que mais tempo Salazar governou Portugal. E que Deus nos perdoe!

22/08/2012

Cabeças há muitas

Correndo o risco de desagradar a toda a gente, por mais irónica que seja esta abordagem, não resisto a glosar a sugestão de Francisco Louçã quanto à composição da direcção partidária ou, inspirado na foto acima, quanto aos caminhos do Bloco.

O modelo de Direcção que Louçã se apressa a propor para o Bloco de Esquerda, antes que ocorra uma discussão de personalidades!, sugere-me a seguinte análise das direcções partidárias:
Parece que ainda não será no século XXI que teremos o modelo de Direcção idealizado por Karl Marx para depois do Comunismo: a direcção acéfala!

A fotografia inicial é de Leonor Lapa.

19/08/2012

Porque hoje é domingo (21)

Há dias, houve notícia da "assunção" de uma nave espacial que colocaria um "robot" a trabalhar em Marte, o que se consumou conforme foi previsto e foi motivo para uma grande festa.
Mas há que reconhecer que em matéria de viagens espaciais, Maria, mãe de Jesus, foi mais longe e mais cedo. É isso que a Igreja Católica celebra neste Domingo, a “Festa da Assunção” de Nossa Senhora aos céus, narrada por S. Lucas (1, 39-5) embora com escassos detalhes.

Conta o evengelista que Maria, na sua inocência, foi ter com a prima Isabel, dar notícia da sua gravidez. A prima também estava grávida mas da forma como Deus imaginou as coisas quando quando criou os homens e as mulheres com tudo quanto se destina a que “crescessem e se multiplicassem”. Em todo o caso, confiando na versão da prima e dos anjos que informaram, Isabel aceitou a ideia de que Maria não tivera outros convívios com o próprio marido que não fosse, sei lá, as lides da casa.

Manifestamente Deus estava cansado ao 7º dia, quando criou o Homem. Logo nessa altura achou um erro ter inventado a apetência sexual e respectivos instrumentos, e proibiu o coito entre Adão e Eva - ao que consta. E depois, quando se trata de gerar o seu filho na barriga de Maria, Deus recusa uma vez mais a ideia dele nascer duma relação amorosa entre a senhora e o homem com quem habitava, como se isso fossem métodos criados pelo Mafarrico.

A apologia da virgem imaculada , tão apregoada pelos castos sacerdotes, revela uma contradição entre o Criador e aquele a quem Jesus chamaria de Pai. E isto é tanto mais grave quanto deixa Isabel em maus lençois - e com ela toda a Humanidade.


É caso para dizer, como tanto repete Jerónimo de Sousa: «Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal».

13/08/2012

Televisão na grelha

Seja a propósito do desmantelamento em curso da RTP, razão pela qual nasceu um homem chamado Miguel Relvas, seja porque não tarda que os programadores, chegados de férias, se reunam em aconchegados hoteis a preparar a grelha com que vão cozinhar a programação da próxima época, puxa-me hoje o mau feitio para falar de Televisão.

Na sua esclarecida e lúcida avaliação do mundo em que nos removemos, Umberto Eco disse que «a característica principal da "Neo-TV" é que ela fala cada vez menos do mundo exterior. Ela fala de si própria e do contacto que está estabelecendo com o seu público».

Por falta de tempo não insiro aqui fotos de Mário Crespo, Manuela Moura Guedes, Alberta Qualquer Coisa, Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino, Pacheco Pereira, o Polvo, a Enguia e o Cavalo-Marinho.

Acresce ao que Humberto Eco já podia analisar, esta oportuna crise de que tanto se fala. Nos dias que escorrem, a receita da austeridade fará sentir cada vez mais a contenção de produção nacional de qualidade e a ausência de informação internacional – fica o sistema bem servido com “debates” (poupa-se em actores e autores incontornáveis) e com directos (poupa-se em edição).

Quanto aos conteúdos da programação que oferecem as diferentes estações, parecem fazer eco de Umberto, à posteriori, as críticas, embora interessadas, da Associação de Produtores Independentes de Televisão de 2009 como poderia ser de qualquer outro ano da geração das privadas. Constatavam eles a "total falta de diversidade de conteúdos, apresentando grelhas muito idênticas e sem grande margem de escolha para o espectador". Mas quantas grelhas queria, se o Poder é um só, reunido no arco da governação? Não se queixe da televisão – a avaria é do emissor!


NOTA: Claro que há excepções na oferta de conteúdos e na qualidade dos intervenientes, mas isso é, sobretudo, mérito dos próprios.

09/08/2012

Liberdades em conflito

Ao concluir a prova de luta greco-romana que lhe valeu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2012, o cubano Mijain López Núñez levantou a mão direita e com ela não desenhou um V de vitória mas sim o L de liberdade...

O gesto pode ser interpretado como involuntário... mas não parece nada! É que se assemelha demasiado ao mesmo desenho das mãos que é usado por dissidentes cubanos nas suas escassas, restritas e perigosas manifestações públicas.

Não sei como vai o severo regime do seu país lidar com o caso, mas entre nós há um processo em que detecto pontos de contacto curiosos.

Aconteceu que o editor do guia de restaurantes, cafés e bares da cidade “Porto Menu”, fez publicar na capa da nona edição uma fotografia duma zona central da cidade, em que aparece esta inscrição na fachada de um edifício: NÃO RIO, ÉS UM FDP.

A frase, em si mesma, é ilegível. Embora se preste a uma interpretação obvia facilitada pelo contexto em que se insere - palavra chave que está associada a um espaço e um tempo - ela carece de ser interpretada subjectivamente. Oferece uma leitura ambígua, enfim. Mas Rui "Rio", o presidente da Câmara Municipal do Porto, indignado, moveu uma acção judicial, tanto mais que a inscrição que aparenta ser um "graffiti" não existe realmente no local - foi inserida graficamente na fotografia, como o próprio autor terá feito questão de confirmar.

Mutatis mutandis, que nem Manuel Leitão é campeão olímpico, nem López Núñez é pequeno empresário – nem pequeno, nem empresário – há uma proximidade curiosa entre os dois, além da forma que usaram para se expressar: é que ambos combatem contra o exercício abusivo do Poder, nos seus países, ... apesar de Cuba e Portugal terem sistemas e regimes opostos.

07/08/2012

Era assim o "Estado Novo"

Independentemente dos pretextos invocados, o regime de Salazar exprimia-se assim no âmbito da Exposição do Mundo Português de 1940.
É de ir às lágrimas...


Mas o que representaria melhor o Portugal do Estado Novo em construção, seria este incidente retratado "poeticamente" por Leitão de Barros.
É de partir o côco.

05/08/2012

Porque hoje é domingo (20)

Se eu fosse um deus, desses que transformam cinco pães em cinco mil, desses que caminham sobre as águas dos rios, desses que curam os enfermos e ressuscitam mortos, não me indignava como ele, só porque os famintos me seguiam à míngua de pão.

“Estais me procurando não porque vistes sinais (milagres), mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos”. Com todo o respeito, isto não são coisas que se digam a uma multidão ingénua de famintos, sabendo eles e tendo comprovado que esse milagre o faz Jesus com uma perna às costas, por assim dizer.

Tu disseste: “Eu sou o pão da vida; eu sou uma água viva, e quem bebe desta água nunca mais terá sede”. Vai daí, a pobre samaritana que não estava acostumada a metáforas, hipérboles e outras figuras de estilo literário, na sua inocência te pediu humildemente: “Senhor, dá-me dessa, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir aqui tirar água” (Jo 4,15).

Mas tu que respondeste? Deste-lhe uma descasca... do diabo, dizendo que eles te seguiam por interesse e não por amor.

Francamente! Que falta de sensibilidade social! Não devias ser tu a quem não falta pão e peixe e carne de ovelha; quem devia exprimir solidariedade,que já nem falo de amor ou compaixão, dando-lhes do que precisavam em vez de santidade? Que pecados cometeram esses filhos de Deus, que mereçam ser sacrificados mais do que já são?


Tem razão numa coisa um certo padre na sua homilia: as pessoas não querem ser cristãs, querem ter Cristo como um mago para suprir as suas necessidades. Mas alguma vez a Igreja onde o padre exerce a sua profissão, se importou com isso? Pelo contrário: vai resolvendo as suas próprias necessidades materiais a troco de... paraísos futuros. Nada que os governos mais perversos não façam também, profetizando milagres económicos.


Senhor: morrem de fome, anualmente, pelo menos 5 milhões de crianças no mundo. De fome! E tu que concebeste o Homem e a sua natureza - boca, esófago, estomago, sangue e coração - deixas que isto aconteça porque o que te interessa é a salvação das almas. Pois não teria sido muito mais razoável, nesse caso, ter criado os homens sem corpo?

Nota: A foto do meio (original) é de uma pista criada no santuário de Fátima, para cumprimento de promessas, de joelhos!

03/08/2012

Elogios fúnebres

No elogio fúnebre, aos políticos burgueses se atribui «longo percurso dedicado à causa pública»; aos políticos progressistas se atribui «grande coerência»; aos autores destas declarações se há-de atribuir grande falsidade, cinismo, hipocrisia.

Dedicados à causa pública foram, por excelência, aqueles que sacrificaram as suas comodidades mais elementares, a sua segurança pessoal, a sua vida, não poucas vezes, na luta contra um regime que oprimia o seu povo, e sobretudo aqueles que o fizeram sistematicamente e toda a vida.

Só para falar dos que tive a honra de conhecer pessoalmente, desde operários a intelectuais, de activistas anónimos até dirigentes políticos e sindicais, falta-me o tempo. Mas aqui fica, em sua representação, uma referência simbólica.

Dela me ficou para sempre na memória o discurso mais eloquente que eu ouvi. Foi proferido no primeiro ou num dos primeiros dias da Revolução Portuguesa de 1974.

Uma turba juntava-se a um pequeno estrado improvisado à frente do Quartel General do Porto e eu perdia-me entre todos no intuito de perceber o que se passava. Alguém disse umas palavras que, julgo agora, seriam para anunciar a presença de Virgínia Moura.


Pequena, magra, muito morena, dificilmente emerge da multidão apesar do palanque, e eu que mal a vi e que posso estar a trocar o dia e o local, não tenho dúvidas de lhe ouvir gritar, numa voz que arranhava as membranas da garganta com a violência da revolta:
«Morte à PIDE! Morte à PIDE! Morte à PIDE!».
Mais nada.


Essa voz, esse discurso, nunca mais me saiu da memória. Ele carregava uma vida de luta e de sofrimento às mãos dos carrascos salazaristas que são tão acarinhados nos nossos dias em alguns orgãos de informação. Essa voz sofrida e justa, ainda hoje reclama contra os abusos do Poder, nomeadamente o abuso da palavra e o abuso da repressão económica.

Foto original de busto de Virgínia Moura tendo o antigo edifício da PIDE/Porto, em fundo. As restantes fotos são também de Virgínia Moura.

01/08/2012

Os méritos das ditaduras

Não me lembro que alguma vez o PCP tivesse condenado o MPLA por receber ajuda da União Soviética. Mas condenava-se a UPA/FNLA pela sua ligação aos EUA e sobretudo pela sua ligação oculta com as próprias autoridades coloniais portuguesas.

Eu que estive na guerra colonial, em Angola - sem honra nem glória nem vontade, entenda-se – sempre achei e acho que esta posição do PCP era acertada. O que nunca entendi nem entendo é porque se “encaniçam” tanto os líderes do Partido Comunista Português, contra os apoios internacionais que recebem os rebeldes da Síria quando combatem a ditadura da família Assad. Em armas, claro, que só no Brasil se chamam “balas” aos rebuçados.


Não sou pacifista; sou pela paz enquanto um povo não é agredido violentamente do seu exterior ou do seu interior, e não parece que a posição do PCP seja diferente. Em coerência com isto, o critério para avaliar a justeza duma revolta armada não é a composição do apoio exterior mas sim os abusos de poder e a violência do seu exercício contra os interesses e desejos da população.

A hipocrisia dos EUA, de Israel ou da Arábia Saudita neste conflito, para não falar no ridículo papel de Paulo Portas, não são razão suficiente para justificar o empenho de correntes progressistas na defesa de uma ditadura. Mas não posso esquecer que esta atitude não é uma inovação na política internacional do PCP para quem a ditadura é boa desde que seja “do proletariado”, isto é, usurpando essa legitimidade.

Pela mesma ordem das razões anteriores, não é defensável apoiar um regime porque “durante décadas desconheceu conflitos étnicos ou sectários”, o regime de um “país em que xiitas, sunitas, alauitas, druzos, curdos e cristãos conviveram pacificamente; o país em que as religiões islâmica e cristã coexistiram pacificamente num dos poucos estados árabes laicos do Mundo". Pois não se poderia dizer o mesmo da União Soviética no seu período mais reprovável? As ditaduras têm realmente o mérito de eliminar todas as divergências... e não apenas os conflitos de classes.

NOTAS:
Hafez al-Assad, pai do actual presidente, tomou o poder num golpe de estado, liderando o país por 30 anos e proibindo a criação de partidos de oposição e a participação de qualquer candidato de oposição em uma eleição. Quando faleceu, o seu filho... sucedeu-lhe !

A Síria participou da Primeira Guerra do Golfo ao lado dos Estados Unidos, e  colaborou diretamente com a CIA recebendo presos ilegalmente sequestrados que eram torturados antes de irem para Guantánamo, como foi o caso de Maher Arar, cidadão canadiano-sírio. Segundo um ex-agente da CIA citado pela Counterpunch, “se quiser um interrogatório sério, mande o preso para a Jordânia. Se quer que ele seja torturado, mande-o para a Síria”.

(2ª nota foi recortada em esquerda .net)