Herman José e as bombas

De mal-entendidos se fazem muitos conflitos. Na vida pública e na privada. Colette Portelance explica isso muito bem em “La Communication authentique”. Aqui se poderia tratar o queixume de Cavaco Silva acerca dos seus honorários mas é de outra personagem que me ocupo.

Custa-me criticar Herman José com quem trabalhei durante anos e de quem me ficou a melhor impressão profissional e pessoal. Mas quem anda à chuva, molha-se. E as declarações de uma figura com o seu merecido prestígio não podem passar sem um reparo quando fazem opinião em matéria tão grave.

Refiro-me às ideias que defendeu no programa Moeda de Troica, sobre o Irão, justificando o assassinato, a mando externo, de cientistas iranianos que trabalhavam no programa nuclear daquele país. O Herman sabe tanto ou tão pouco acerca dos verdadeiros objectivos do plano, como eu sei – lê os jornais. Mas isso não o impede de subscrever a versão norte-americana. Nem o caso do Iraque lhe recomenda alguma prudência.

Palavra puxa palavra, bomba puxa bomba, e logo “intrinca” aqui a questão da bomba de Hiroshima. Eu sei que se “limitou” a repetir a versão norte-americana da História quando “justificou” aquela atrocidade, dizendo que era a forma de acabar com a guerra. Mutatis mutandis faz lembrar Passos Coelho a promover a facilitação dos despedimentos para defender o emprego, e a promover o empobrecimento para melhorar o futuro dos portugueses. Só que até as crueldades fazem diferença entre si.

Sinceramente, faz-me muita pena este vício de raciocínio num homem com a inteligência, a informação e o bom carácter que atribuo ao Herman José.

Até porque a brilhante Ana Mesquita não merecia ser "intrincada" nesse discurso.


É a desvantagem, Herman, de não ser político, coisa que Cavaco Silva não pode invocar como desculpa para as suas gafes – passe o “intrincamento” do bolo rei nos pasteis de nata.

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AUSTERIDADE MATA

«Las cifras facilitadas por Gobierno (de Grecia) registran un incremento (dos suicídios) del 40% entre enero y mayo (de 2011) en relación al mismo período de 2010. Nadie duda de que la causa de este fenómeno sean las dolorosas medidas de austeridad presupuestaria.

Los griegos, individual y colectivamente, se sienten más pobres, más solos, más acobardados y más desvalidos que en ningún otro momento de su reciente historia.

(...) antes de ser golpeado por la crisis, Grecia tenía el porcentaje de suicidios más bajo de Europa, (...) ahora (tiene el porcentaje) más alto de Europa. » - em El Pais 2011Dez20.

Nada que afecte as contas públicas...

A perda de soberania formal que Merkel vem agora "propor", a rendição da Democracia em que já não seria o voto dos eleitores que julgaria o Governo, mas sim um comissário estrangeiro, esta nova versão da eliminação dos fracos pelos fortes, revela o grau de loucura que domina a política da União Europeia. Mas ainda ninguém quer reconhecer, na governança europeia. Quando é que já vimos isto?

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Retrato da crise

Tá tudo aí:

«Anestesiados pelo mantra da inevitabilidade do empobrecimento, aliás muito bem orquestrado pelos canais de televisão no horário nobre, os portugueses estão a viver estoicamente o seu papel de cobaias de uma política económica comprovadamente errada, no essencial inspirada pela teoria económica dominante no período anterior à Grande Depressão do século passado. Governados por uma elite política comprada por interesses privados de diferente natureza, ou representados por uma oposição incapaz de produzir uma alternativa mobilizadora, os portugueses parecem cordeiros a caminho do matadouro. É enorme a responsabilidade daqueles que percebem o que está em causa».

Jorge Bateira no Jornal "I" e em "Ladrões de Bicicletas"

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Adivinha

Quem disse:
“Quando me apercebi de que o navio estava inclinado, fui-me” ?

A. Guterres, primeiro-ministro português, em 2001?
Durão Barroso, primeiro-ministro português, em 2004?
José Sócrates, primeiro-ministro português, em 2011?
Francesco Schettino, comandante do navio Concordia, em 2012?

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Quem paga as sanções

Na sequência de acusações dos Estados Unidos da América, de que o Irão está a preparar o fabrico de armas nucleares – parece que aquela das armas de destruição massiva já não cai bem na opinião pública – a União Europeia, mostrando para o que serve, anunciou esta segunda-feira o embargo a novos contratos de importação de petróleo e seus derivados, vindos daquele país persa. Fiam-se na Arábia Saudita mas parece que esta não fia, vende a pronto, embora esteja interessada no negócio.

O Irão respondeu com a promessa de fechar definitivamente o estreito de Ormuz por onde o Ocidente se abastece de grande parte do petróleo que consome, e alertaram os EUA a não tentarem nenhuma "aventura militar".

Aventuras militares à parte – que Alá me ouça! – incluindo atentados contra cientistas iranianos…, a coisa faz lembrar aquele episódio dos anos oitenta em que o Irão estava sujeito a um embargo internacional de armamento mas… agentes da CIA facilitavam secretamente, como seria revelado pela Imprensa no final de 1986, o tráfico de armas para aquele país a pretexto da libertação de seis norte-americanos detidos no Irão e, além disto, para financiar os Contras da Nicarágua que combatiam pelos privilégios dos latifundiários.


O ministro russo das Relações Exteriores, lembrou que a União Europeia estuda as nova sanções justamente no momento em que o Irão planeia retomar as negociações sobre seu programa nuclear com os EUA, Reino Unido, China, França, Rússia e Alemanha, e afirmou ainda que uma acção militar ocidental contra o Irão seria uma “catástrofe”.

Ao que se sabe, a China também seria afectada indirectamente com as sanções europeias, e já manifestou grande oposição com relação a sanções que serão impostas contra a empresa estatal chinesa Zhuhai Zhenrong por vender gasolina ao Irão.


Enfim, há “tiros” que saem pela culatra que é onde se situa o atirador e não o alvo – passe a explicação, não vá alguém pensar que me refiro a uma ilha portuguesa situada no Algarve.

No caso de tiros económicos, o efeito são os prejuízos, a subida dos preços do petróleo que irá repercutir-se nos consumidores. O costume.

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Contra Barreto

António Barreto em “Contra-corrente” regozija-se que tenha havido acordo, qualquer que fosse o acordo!

E eu regozijei-me particularmente ao ver como o ex-ministro ficou a gaguejar quando a Ana Lourenço lembou que até Torres Couto, fundador da UGT, disse ter vergonha do papel que João Proença desempenhou neste processso - neste acordo da Direita com a Direita, digo eu.


E eu proponho (à SIC) outro acordo: que o Barreto troque de lugar com a Ana. Ele faz perguntas e ela responde. Ganharíamos todos, e ele mais que ninguém.

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Recuo anunciado

A notícia de hoje diz:
Governo abandona proposta para aumento da meia hora de trabalho
Para completar a minha previsão em 13 de Novembro, só falta ouvir o comentário de António José Seguro, o tal da "abstenção violenta"!

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Porque hoje é domingo (12)

Não conheço maior maçonaria, em dimensões e influência social, do que a Igreja Católica. Comparativamente, o que são cinco milhões de maçons em todo o mundo? Mas tanto bastaria para despertar rivalidades.
Diferem supostamente no estatuto hierárquico em que a primeira, ao que suponho, é mais horizontal, e a Igreja se assemelha mais, deste ponto de vista, à organização dos partidos políticos – funcionamento vertical e centralizado. De tudo o que caracteriza uns e outros, o que menos importa para os objectivos que prosseguem, já se vê, são os elementos simbólicos: seja a cruz dos cristãos, régua, esquadro e transferidor dos maçónicos, foice e martelo dos comunistas, punhos, setas, bonecos decepados…
Tal como nos estados e nos partidos, ao que parece, há tendências para todos os gostos e comportamentos éticos, para todas as “necessidades” individuais.

Os discursos mais radicais invocam o conflito entre Deus e o Diabo; os mais leves invocam o direito de cada um ao livre pensamento – coisa que até Salazar reconhecia não ser do foro das doutrinas mas sim da Psicologia.

Afinal, que importância têm “os pecados do mundo”, digo a deterioração da vida no planeta, os desacordos sobre a bomba atómica, os desarranjos geo-estratégicos, a ingerência política, a invasão militar, o progresso dos povos sul-americanos na luta pela autonomia, quando comparados com uns farrapos pintados em forma de aventais ou de bandeiras? Entre ladaínhas mais repetitivas e inconsistentes do que as Reflexiones de Fidel Castro, os órgãos de informação vão entretendo as massas, não vá a gente ter tempo para pensar, para se informar, para se revoltar.

A Igreja Católica, rodeada de t(r)alha dourada e paramentos, invoca neste Domingo aquela passagem do Evangelho onde se lê que “Deus julgará os fornicadores e os adúlteros” (Hb. 13,4). Adúlteros são aqueles que se comprometem com o Povo e acabam servindo os seus inimigos; fornicadores são aqueles que oprimem o Povo com impostos e aumento de trabalho e lhes roubam o salário e as poupanças. Mas isto os sacerdotes não explicam; preferem falar da “pureza” – lá está, os aventais.

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Compromissos políticos

(antes e depois)

ANTES DA POSSE:

O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra o desemprego.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais
para alcançar os nossos ideais.
Mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar contra a população.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os “lobby for the boys”.
Não permitiremos de nenhum modo que
os trabalhadores e os reformados fiquem na miséria.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a grande mudança.

DEPOIS DA POSSE:
Ler o mesmo texto, DE BAIXO PARA CIMA

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A China e os outros

Já chateia tanta conversa fácil sobre os negócios chineses. Os militantes envergonhados do capitalismo ou dos capitalismos, sentem-se mal com o princípio de "um país, dois sistemas" que a China prossegue; não é tanto com as desigualdades e a pobreza.

A coisa troca-lhes as voltas. No entanto, o que o Partido Comunista da China descobriu e assumiu ter descoberto, foi que a Economia tem leis como a Física que não dependem de um Comité Central ou de um parlamento. Outra coisa é a política de propriedade, de emprego e de distribuição da riqueza produzida.

Quanto à importação de produtos chineses, por alguma razão eu nunca ouvi o mesmo alarido acerca dos produtos italianos, franceses, alemães, norte-americanos... Pois, pois, Fiat. Pois, pois, Peugeot. Pois,pois, Mercedes-Benz. Pois, pois, Toyota... Uns sapatinhos Nike? Vai Fuji ou Kodak? Land Rover ou BMW? Ericsson? Macintosh? Giorgio Armani, Pierre Cardin ou Hugo Boss? Frigorífico ou aquecedor? Televisão ou computador?

De um total de 350,4 mil milhões de euros somados pelas 10 mais valiosas marcas do mundo, as oito marcas norte-americanas representadas neste top (Coca-Cola, Microsoft, IBM, General Electric, Intel, Disney, McDonald\’s e Marlboro) são responsáveis por 304,4 milhões de euros, ou seja, cerca de 87%.

A China sabe e reconhece, enfim, que na Economia como na Física o desenvolvimento obedece a leis objectivas. Falta-lhe aprender apenas a Democracia e os Direitos Humanos para merecerem o respeito e a admiração do mundo. Se essa evolução vier pelo convívio com países democráticos, venham daí os produtos e os capitais.

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"Viver sempre também cansa"

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."

José Gomes Ferreira (1900-1985)

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