A Democracia segundo Saramago



em jeito de provocação

« A Democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada; está aí como se fosse uma espécie de santa de altar de quem já não se esperam milagres. Porque o poder de cada um de nós limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez se venha a gostar. Nada mais.

As grandes decisões são tomadas numa outra esfera. E todos sabemos qual é.

As grandes organizações financeiras internacionais: os “FMI’s”, as “organizações mundiais de comércio”, os “bancos mundiais”, a OCDE, tudo isso! Nenhum desses organismos é democrático. Como é que se pode falar de Democracia se aqueles que efectivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países nessas organizações? Os respectivos povos? Não! Onde está então a Democracia? »


José Saramago em conferência de Abril de 2008
(data não confirmada)

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Discursos redundantes

Enquanto eu varria um dilúvio doméstico e combatia algumas consequências graves que ainda não estão completamente sanadas nem sequer avaliadas, António Barreto aproveitava a tribuna do “10 de Junho” para varrer a Pátria com um discurso provocador, tanto quanto posso avaliar agora pelas “ondas de choque” que agitam a difusão social, blogues incluídos.

O Arrastão, fazendo jus ao nome, conseguiu com o assunto quase tantos comentários como "Generación Y" sobre o dia a dia cubano.

O senhor Daniel Oliveira intitula o artigo como “Os ex-combatentes”, mas o que provocou foi uma mobilização inaudita de novos e entusiásticos combatentes, completamente contrastante com a indignação dos "ex" que, como eu, foram arrastados para aquele exílio dourado – dourado pelo sol, entenda-se.

Nem eu seria digno da Pátria em que nasci se não trouxesse à liça uma história porventura engraçada daqueles dias – daqueles anos! – de terrorismo salazarista.

Tinha chegado nessa noite do Cuango, quilómetros de picada intransitável que seria moroso descrever, e gozava a relativa tranquilidade de Quimbele, sede da Companhia a que viera buscar mantimentos. Alguns camaradas de farda já estariam a dormir, talvez, e outros a discutir com as botas a posição exacta em que deviam ficar enquanto o dono dormisse – não por disciplina mas por superstição.

Então o furriel não se lembra de mim? O furriel deu instrução ao meu pelotão em Abrantes (julgo que foi ali). Eu que passara por vários quartéis antes de ir para África e fizera tanta coisa que não queria fazer, tinha a vantagem de esquecer o que fizera e nesse processo se apagavam as próprias pessoas que comigo se cruzavam por mero imperativo militar. Daí, não me lembrava.

Num generoso esforço para me recordar o que Deus me ajudava a esquecer, o soldado acrescentou: «Não se lembra que até nos falava de levarmos uns livros para a instrução, assim umas coisas de moral…». Como é próprio dos livros, fez-se luz no meu espírito!

Nos tempos mortos da instrução teórica eu aproveitei para sugerir que nos quotizássemos para comprar livros – coisa que no espírito simples daquele soldado arrancado à terra, era coisa de moral porque só o padre, lá na aldeia, fazia uso de tais instrumentos.

Que eu lhes tivesse falado de “A Mãe” de Gorki, como foi o caso na minha ingénua imprudência, ou de “A Virgem Mãe” (se tal livro existe) não fazia qualquer diferença para o grau de informação a que tinha acesso. Pobre de mim que falava de livros e não tinha a sabedoria de me fazer entender. Pobre António Barreto em quem ninguém mais acredita mesmo que fale do que todos entendem.

P.S.:
E para que não fiquem dúvidas de como sou esquecido, quando fui à procura de uma fotografia para este artigo descobri AQUI , que já tinha contado esta história! Valha-me A Mãe de Máximo Gorki. Nem os excessos de vinho me puseram neste estado a que cheguei por excesso de água.

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A mentira é uma arma

Em Lisboa, eu frequentara com assiduidade o restaurante R., no Bairro Alto. Daí que o meu amigo A. com quem me encontrava ali muitas vezes, perguntasse ao dono, por mim. Vim a saber que o dono lhe respondera que eu deixara de frequentar o restaurante porque me tinha mudado para o Porto. Era mentira, mas ao comerciante não interessava revelar que eu me havia zangado por causa de uma factura inflaccionada e outros problemas do género.

Pela mesma altura, um camarada meu perguntava por mim no Centro de Trabalho do PCP, estranhando que eu não tivesse actividade política, havia meses. Acontece que a explicação do “responsável” foi exactamente a mesma do comerciante: que eu me tinha mudado para o Porto. Escondia assim o meu conflito com o partido e as razões do mesmo – não fosse o assunto merecer alguma reflexão.

Na verdade, ambos sabiam que eu projectava ir viver para o Porto mas também sabiam que eu não tinha mudado ainda, nem estava certo de o concretizar e de quando o faria. Isso veio a realizar-se anos mais tarde! Ambos mentiam, portanto, e ambos inventaram a mesma explicação convincente para salvar as aparências.

Quem passou por isto não devia estranhar que há poucas semanas um indefectível militante do PCP, representativo da sensibilidade vigente, atacasse um artigo meu com esta argumentação: “E como sei que agora anda pelos braços do ps...”. Como o acusador não diz quem lhe fez uma tal “revelação”, posso depreender que foi ele que a inventou. Mas para o caso isso é o que menos importa. O que conta é que isto não é apenas uma canalhice, é uma tactica que a minha militância de muitos anos no PCP não foi capaz de detectar - ou não vigorava nesses tempos.

Não devo admirar-me que tantos como eu sejam traídos pelas costas com infâmias de todo o género. Espantoso é que ex-dirigentes de grande dimensão política e humana que defendem com dignidade a sua independência política, continuem a ser referidos pelos ocupantes da instituição partidária com o desprezo e a injúria mais abjectas. São aqueles os guardiões da “sociedade fraterna”. É com este hálito de ódios fraticidas que pronunciam a palavra “camarada”.

Álvaro Cunhal pode ter cometido muitos erros, pode ter feito demasiadas cedências à estratégia externa e interna, mas não o vejo a partilhar destas mentalidades. Tenho até razões para julgá-lo vítima delas, no silêncio das “paredes de vidro”.

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Estes é que gozam

A comissão coordenadora do movimento Pró-Partido do Norte anunciou no Porto, que quer concorrer já nas próximas legislativas, visando a criação de um grupo parlamentar e a eleição de deputados.

E eu pergunto se a ideia de um Partido do Norte é concorrer com o Partido do Sul ou é só gozar c'a gente. E se os interesses do Norte são os interesses de Luís Reis, administrador da Sonae, e de António Mexia, Presidente do Conselho de Administração da EDP... ou os interesses daqueles a quem eles impõem as condições e os salários e ainda os preços da electricidade e dos outros produtos.

Para já, são conhecidos alguns aspectos do seu programa, pela voz de um outro mentor, presidente da Cotec Portgaul. Na sua opinião, "o IRC (imposto sobre os lucros) devia acabar".

Sendo eu do Norte, ainda não decidi aderir ao tal partido mas desde já declaro a minha disponibilidade para fazer parte da administração de uma das suas empresas. Como diz Sérgio Godinho...


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O mito da tecnologia

Naquele tempo em que a esquerda combatia os fantasmas do regresso ao fascismo e a direita combatia os fantasmas do ingresso no comunismo – digo “fantasmas” para aligeirar – estavam muito activas as comissões de trabalhadores e eu nelas.
Como nas empresas de outro ramo qualquer, a preocupação dos revolucionários – os que defendiam a revolução em curso – era valorizar o trabalho e a produção, ameaçadas que estavam pelo boicote dos sectores reaccionários que promovem sempre a destruição das economias nacionais em tempos de socialização. Daí que a reunião com a Administração tivesse na agenda as questões de produção.

Numa empresa de Televisão, os meios de produção contam com câmaras e gravadores, projectores e equipamentos de montagem mas também, entre outras coisas, estúdios e cenários.
E a questão que nós punhamos era que havia equipamentos e equipas desocupadas. «Isso é por falta de estúdios disponíveis», dizia a Direcção. Falta de estúdios? – questionei como se tivesse ouvido um grande disparate. – Mas o país todo é um imenso estúdio; as ruas e as casas, os campos e os rios são imensos cenários...!

Ainda hoje não sei se o silêncio que se fez a seguir e com que a conversa terminou, foi o reconhecimento da minha razão inquestionável ou se foi a percepção geral de que estavam a falar com um louco. O certo é que ainda hoje penso da mesma forma.
Pois foi este episódio que me ocorreu quando ouvi dizer que Portugal gastava mais do que aquilo que produzia. Isto é, não estaremos nós demasiado condicionados pelo mito da tecnologia como se os legumes e as frutas que importamos precisassem de mais que terra e água e sol e como se a carne que compramos ao outro lado do mundo não se criasse e reproduzisse aqui com a tecnologia que Deus deu aos animais de todas as espécies?

Mas é tal o silêncio que se segue à “defesa do tecido produtivo” que o mais certo é que “eu” seja mesmo louco.

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