A mentira é uma arma

Em Lisboa, eu frequentara com assiduidade o restaurante R., no Bairro Alto. Daí que o meu amigo A. com quem me encontrava ali muitas vezes, perguntasse ao dono, por mim. Vim a saber que o dono lhe respondera que eu deixara de frequentar o restaurante porque me tinha mudado para o Porto. Era mentira, mas ao comerciante não interessava revelar que eu me havia zangado por causa de uma factura inflaccionada e outros problemas do género.

Pela mesma altura, um camarada meu perguntava por mim no Centro de Trabalho do PCP, estranhando que eu não tivesse actividade política, havia meses. Acontece que a explicação do “responsável” foi exactamente a mesma do comerciante: que eu me tinha mudado para o Porto. Escondia assim o meu conflito com o partido e as razões do mesmo – não fosse o assunto merecer alguma reflexão.

Na verdade, ambos sabiam que eu projectava ir viver para o Porto mas também sabiam que eu não tinha mudado ainda, nem estava certo de o concretizar e de quando o faria. Isso veio a realizar-se anos mais tarde! Ambos mentiam, portanto, e ambos inventaram a mesma explicação convincente para salvar as aparências.

Quem passou por isto não devia estranhar que há poucas semanas um indefectível militante do PCP, representativo da sensibilidade vigente, atacasse um artigo meu com esta argumentação: “E como sei que agora anda pelos braços do ps...”. Como o acusador não diz quem lhe fez uma tal “revelação”, posso depreender que foi ele que a inventou. Mas para o caso isso é o que menos importa. O que conta é que isto não é apenas uma canalhice, é uma tactica que a minha militância de muitos anos no PCP não foi capaz de detectar - ou não vigorava nesses tempos.

Não devo admirar-me que tantos como eu sejam traídos pelas costas com infâmias de todo o género. Espantoso é que ex-dirigentes de grande dimensão política e humana que defendem com dignidade a sua independência política, continuem a ser referidos pelos ocupantes da instituição partidária com o desprezo e a injúria mais abjectas. São aqueles os guardiões da “sociedade fraterna”. É com este hálito de ódios fraticidas que pronunciam a palavra “camarada”.

Álvaro Cunhal pode ter cometido muitos erros, pode ter feito demasiadas cedências à estratégia externa e interna, mas não o vejo a partilhar destas mentalidades. Tenho até razões para julgá-lo vítima delas, no silêncio das “paredes de vidro”.

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