Violência de baixo e de cima


Se formas diretas de protesto infra-político, através da ruptura popular da ordem pública, da tomada direta de bens e da destruição de propriedades, espalharam-se nos distritos urbanos pobres da sociedade avançada, isso significa também que os meios formais de pressão sobre o Estado declinaram, juntamente com a decomposição dos mecanismos tradicionais de representação política dos pobres.
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É tentador encarar explosões de violência coletiva "vinda de baixo" como sintomas de crise moral, de patologias das classes baixas, ou tantos outros indícios de iminente ruptura societal da "lei e da ordem". Assim, a resposta típica das autoridades britânicas à onda de incidentes violentos que varreu as cidades dos Midlands no verão de 1992, foi queixar-se do comportamento desviante e da amoralidade dos elementos inferiores da classe trabalhadora.

Depois dos distúrbios de Bristol, elas se esforçaram por culpar o "hoolliganismo insensato", alimentado pelo álcool, ainda que os moradores de Hartcliffe concordassem em que a hostilidade entre os jovens e a polícia estivesse em gestação por meses e apesar do fato de jamais ter sido apresentada nenhuma prova de envolvimento dos "hooligans", ou de que o consumo de álcool nas noites da desordem tenha sido acima do normal. Da mesma forma, nos Estados Unidos a odiosa (e fictícia) história da "subclasse" forneceu um discurso barato e pronto para dar conta da ascensão da violência no gueto e em seus arredores.


Entretanto, a análise comparada atenta de seu tempo, contexto e desenrolar mostra que, longe de expressões irracionais e atávicas de incivilidade, a recente inquietação pública por parte dos pobres urbanos da Europa e da América do Norte constitui uma resposta (socio)lógica à compacta violência estrutural liberada sobre eles por uma série de transformações econômicas e sócio-políticas que se reforçam mutuamente. Tais mudanças resultaram em uma polarização de classes que, combinada com a segregação racial e étnica, está produzindo uma dualização da metrópole, que ameaça não apenas marginalizar os pobres como condená-los à redundância social e econômica direta.


Essa violência "vinda de cima" tem três componentes principais:

(1) desemprego em massa, persistente e crônico, representando, para segmentos inteiros da classe trabalhadora, a desproletarização que trazem seu rastro aguda privação material;

(2) o exílio em bairros decadentes, onde escasseiam os recursos públicos e privados, à medida em que a competição por eles aumenta, devido à imigração;

(3) crescente estigmatização na vida cotidiana e no discurso público, tudo isso ainda mais terrível por ocorrer contra o pano de fundo de uma escalada geral da desigualdade.

Longe de representar um subproduto periférico da terceiro-mundização ou reversões a formas sóciopolíticas pré-modernas de conflitos, essa volta das realidades reprimidas de pobreza, violência e divisões etno-raciais, ligadas a seu passado colonial, no coração da cidade do Primeiro Mundo, deve ser entendida como resultado da transformação desigual e desarticuladora dos setores mais avançados das sociedades ocidentais e, portanto, suas manifestações não parecem passíveis de amainar tão cedo.


Excerto de «O RETORNO DO RECALCADO Violência urbana, "raça" e dualização em três sociedades avançadas». De: Loïc J. D. Wacquant. [TEXTO INTEGRAL]

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2 Comments:

Blogger Álvaro Lins said...

Muito a propósito e também as palavras de Bertolt Brecht "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem."
Tive muito cuidado ao "entrar" por causa das palavras!
Abraço

18 agosto, 2011  
Blogger antónio m p said...

Caro Álvaro:
Vai havendo quem chame violentas às "margens que os comprimem". O que parece é que as palavras podem menos do que nós gostariamos, talvez.
Em todo o caso continuo a pensar que convém ter cuidado com elas.
Obrigado pela contribuição.

18 agosto, 2011  

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