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2024/07/09

IA - O futuro já chegou

Estamos destinados a falar com “pessoas” que não existem, a fazer negócios com pessoas que não existem, a consultar médicos que não existem, a discutir política com interlocutores inumanos.
O fenómeno da inteligência artificial (IA) não é uma ideia do futuro, é já uma realidade no presente. O que se discute não é a sua existência, é saber quem e como domina a sua actividade e desenvolvimento, sendo que isto é uma parte importante das tensões entre as grandes economias mundiais.
Nada para que não estejamos já treinados, nomeadamente quando viajamos em automóveis sem condutor ou em aviões sem pilotos, mas também quando perguntamos, na internet, como tratar uma doença, ou quando movimentamos dinheiro no “balcão” multibanco.
Das notícias (The Guardian):
A decisão das empresas americanas, face às tensões entre Pequim e Washington, provoca corrida para atrair consumidores para modelos domésticos de inteligência artificial (IA).

2013/03/25

Classe média, não.

Um grupo social com enorme percentagem de desempregados permanentes, trabalhadores precários e sobrecarga horária, com dificuldades de alojamento e alimentação, com uma protecção social insegura e serviços sociais em deterioração, sem capacidade económica para aceder ao ensino universitário, à cultura e ao lazer, só pode continuar a chamar-se “classe média” porque se situa entre os mendigos maltrapilhos e os que vivem da exploração e da corrupção.

Porém, sociologicamente, teremos que arranjar outro nome para a classe “média” – um nome em que talvez se possam aproveitar quase todas as letras por razões de austeridade!

2011/08/18

Violência de baixo e de cima


Se formas diretas de protesto infra-político, através da ruptura popular da ordem pública, da tomada direta de bens e da destruição de propriedades, espalharam-se nos distritos urbanos pobres da sociedade avançada, isso significa também que os meios formais de pressão sobre o Estado declinaram, juntamente com a decomposição dos mecanismos tradicionais de representação política dos pobres.
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É tentador encarar explosões de violência coletiva "vinda de baixo" como sintomas de crise moral, de patologias das classes baixas, ou tantos outros indícios de iminente ruptura societal da "lei e da ordem". Assim, a resposta típica das autoridades britânicas à onda de incidentes violentos que varreu as cidades dos Midlands no verão de 1992, foi queixar-se do comportamento desviante e da amoralidade dos elementos inferiores da classe trabalhadora.

Depois dos distúrbios de Bristol, elas se esforçaram por culpar o "hoolliganismo insensato", alimentado pelo álcool, ainda que os moradores de Hartcliffe concordassem em que a hostilidade entre os jovens e a polícia estivesse em gestação por meses e apesar do fato de jamais ter sido apresentada nenhuma prova de envolvimento dos "hooligans", ou de que o consumo de álcool nas noites da desordem tenha sido acima do normal. Da mesma forma, nos Estados Unidos a odiosa (e fictícia) história da "subclasse" forneceu um discurso barato e pronto para dar conta da ascensão da violência no gueto e em seus arredores.


Entretanto, a análise comparada atenta de seu tempo, contexto e desenrolar mostra que, longe de expressões irracionais e atávicas de incivilidade, a recente inquietação pública por parte dos pobres urbanos da Europa e da América do Norte constitui uma resposta (socio)lógica à compacta violência estrutural liberada sobre eles por uma série de transformações econômicas e sócio-políticas que se reforçam mutuamente. Tais mudanças resultaram em uma polarização de classes que, combinada com a segregação racial e étnica, está produzindo uma dualização da metrópole, que ameaça não apenas marginalizar os pobres como condená-los à redundância social e econômica direta.


Essa violência "vinda de cima" tem três componentes principais:

(1) desemprego em massa, persistente e crônico, representando, para segmentos inteiros da classe trabalhadora, a desproletarização que trazem seu rastro aguda privação material;

(2) o exílio em bairros decadentes, onde escasseiam os recursos públicos e privados, à medida em que a competição por eles aumenta, devido à imigração;

(3) crescente estigmatização na vida cotidiana e no discurso público, tudo isso ainda mais terrível por ocorrer contra o pano de fundo de uma escalada geral da desigualdade.

Longe de representar um subproduto periférico da terceiro-mundização ou reversões a formas sóciopolíticas pré-modernas de conflitos, essa volta das realidades reprimidas de pobreza, violência e divisões etno-raciais, ligadas a seu passado colonial, no coração da cidade do Primeiro Mundo, deve ser entendida como resultado da transformação desigual e desarticuladora dos setores mais avançados das sociedades ocidentais e, portanto, suas manifestações não parecem passíveis de amainar tão cedo.


Excerto de «O RETORNO DO RECALCADO Violência urbana, "raça" e dualização em três sociedades avançadas». De: Loïc J. D. Wacquant. [TEXTO INTEGRAL]

2011/08/17

Nós, eles e o inferno

De Hitler a Pinochet, de Bush a Ratko Mladic, e muitos antes e depois e entretanto, a História está cheia de genocidas-lobos para quem a Justiça, quando bate à porta, já as chamas do inferno se apagaram. Eu desta vez venho falar apenas dos cães rafeiros.



Ninguém está mais habilitado a falar do Inferno do que um preso vulgar. Logo a condenação o retira da vida, o retira à vida. Com as roupas e tudo o que deixa à entrada na prisão, ele despe a personalidade, deixa de ser pessoa. Daqui em diante deixará de ter direitos e vontade, passará a ter regras para cumprir, será obediente como um cão – desejará ser cão para não saber que é um homem desumanizado. É a estratégia do camaleão: adaptar-se ao meio para se proteger.

Na melhor das hipóteses, para ele, nasceu e foi criado na lixeira da sociedade – no espaço da cidade onde os homens sobrevivem da esmola e do crime, são considerados e se consideram marginais, não usam a palavra dignidade porque não tem sentido em suas vidas, não respeitam ninguém porque ninguém os respeita... Na melhor das hipóteses, para eles, a violência nas prisões que tanto nos comove, a nós que somos cidadãos de plenos direitos, é o clima a que estão “habituados”. Afinal sempre deve custar menos viver no inferno quando se é diabo.

O que os prende e reprime, a eles que nasceram e cresceram no inferno, é a própria cidade que nós dominamos, isto é, a forma como estão estruturadas e como funcionam as sociedades modernas – organizadas pelos e para os privilegiados que somos nós neste contexto. Mais do que condená-los, os tribunais acusam-nos, a nós, de desumanidade para com os que nascem na miséria. Na miséria de tudo, entenda-se.

Não quero comover-me e comover-vos com descrições de violência habitual ou excepcional, com os abusos e com os desesperos, os suicídios, as autoflagelações mais escabrosas – fica assim apenas esta referência abstracta.

Na melhor das hipóteses, para eles, praticaram crimes. Porque isso lhes dá uma razão para estar preso e para tudo o que daqui decorre. O pior de tudo é sofrer sem razão.

Talvez por absurdo se possa inferir que o genocida motivado por “razões” supostamente ideológicas, as tenha em tão grande consideração que a prisão lhe seja facilmente suportável – é a sublimação do sofrimento. Talvez não haja nada de absurdo nesta tese, afinal. E sendo assim, só a desconstrução da "sua razão" o poderia castigar realmente com o merecido sofrimento associado à culpa – e não tanto por causa do criminoso quanto para exorcismo das vítimas sobreviventes, familiares incluídos.

Tudo isto conduz - pretendo eu - a uma filosofia sobre a repressão do crime violento que sugere métodos de castigo e regeneração de novo tipo: independentemente da privação da liberdade, o criminoso deve ser conduzido a perceber que a sua própria razão o condena pelo crime que praticou. Isto obriga o agente da Justiça a conhecer as motivações e a desmontá-las ou a confrontar a sociedade com elas.

2011/05/30

As revoltas dos jovens

Os jovens revoltosos não-organizados que tiveram particular expressão nos anos 60, manifestavam-se então por dois fenómenos: o aparecimento de novas designações (incluindo neologismos) e de “fogachos”, isto é, ocorrências desordenadas.
As designações originais respondem a características da juventude: inadaptação ao sistema socio-político, necessidade de identificação e comunicação próprias de grupo, de bando.

No final dos anos 50 e princípios dos anos 60 do século 20, a Suécia, a França a Inglaterra, a Índia assistiram a violentas acções de massas de jovens, por vezes grupos com menos de 20 anos de idade, no seio das quais se integram vadios mas também sectores desfavorecidos do meio laboral, em todo o caso rebeldes sem causas instituídas, sem organização prévia e sem lideranças.

Uma existência angustiada e uma força vital impetuosa, parecendo contraditórias embora, coincidem num sentimento estimulante para a luta e para a luta desorganizada: o desespero!
Lá onde as revoltas se identificam com motivações socio-políticas mais concretas do que a contestação da ordem e da autoridade, como seja a recusa da guerra (como na Argélia e no Vietname) e a recusa da repressão política (fascismos e estalinismos), as lutas dos jovens encontram por vezes eco noutras camadas etárias e organizadas.

O meio universitário é particularmente combustível para acções de contestação e reivindicação colectiva de autonomia e de reformas. Do Líbano a Paris, da Itália à Inglaterra, da Checoslováquia comunista à Espanha franquista, os estudantes exigem, combatem e contagiam. E por exigência natural das próprias acções que desencadeiam, organizam–se.

Da contestação abstracta à identificação de objectivos, dos confrontos anárquicos à luta organizada, as revoltas dos jovens não-organizados ganham em eficiência o que perdem em tempo? Talvez haja espaço para as duas formas de intervenção, certos que haverá algumas colisões entre as duas correntes. Mas isso é outro tema que talvez venha a tomar a pretexto do "Maio de 68".

NOTA: O título deste artigo reproduz o título da obra onde recorto a maior parte da informação aqui produzida. O autor do livro de 1969 é J. Joussellin. Uma sugestão para a Feira do Livro em curso.

2011/03/09

A força da cultura

«A autoridade de um homem saudita (sobre a mulher) não conhece limites».

«A minha mãe não estava preparada para fazer outra coisa na vida, que não fosse servir o meu pai».

«As minhas irmãs mais velhas não receberam outra aprendizagem que não fosse o estudo do Corão, com uma professora particular, egípcia, que ia a nossa casa».


Estas passagens de “Sultana”*, expressam em resumo os mecanismos geradores do totalitarismo: concentração de poder e controlo da informação. Isto é, do ponto de vista da vítima, dependência física (incluindo alimentação) e cultural. “Pago-te para que me obedeças – quer queiras quer não!» - esta é a legitimidade em que assentam os regimes autoritários, desde os mais fechados até aos mais disfarçados.

Compreendemos hoje que no essencial nunca ultrapassámos o Feudalismo; apenas mudámos os nomes às coisas: o senhor, a terra e o servo, chamam-se agora capitalista, empresa e trabalhador. E não é só porque os senhores da Terra se rodeiam de uma suposta autoridade “natural”; é também porque os seus subordinados, os seus dependentes, nós, estamos toldados por uma cultura, por uma informação que nos desarma perante eles.

Estimados colegas da “Comunicação Social”, jornalistas, comentadores encomendados, activistas moderados, artistas engraçados, poetas deprimidos, génios ilustrados: se ainda não fostes totalmente fascinados pelo ouro que brilha à vossa volta e que nunca será vosso senão pela ignomínia, preparai-nos para fazermos outra coisa que não seja servir nossos senhores.

Ou então, preparai-vos para morrer connosco – que outra coisa não é viver assim sem graça nem esperança.


* SULTANA - A vida de uma princesa àrabe. Por: Jean Sasson – ASA Editores

2008/01/06

Agostinho da Silva

Uma das experiências mais ricas da minha profissão foi a realização para a RTP, de uma série de entrevistas com o professor Agostinho da Silva.



Espero voltar a este artigo ou "post" para partilhar alguns aspectos não publicados dessa experiência: da mesa a que o sentei, da sua boina que não consegui mostrar, da sua justa impaciência com os convidados atrasados... Sendo portuense e aquariano como eu, mais não precisava para ter a minha simpatia... Mas muito mais que isso, foi um homem justo e corajoso.

Cito, de http://www.geocities.com/TheTropics/4491/prof.htm as seguintes notas:

«Na qualidade de professor do ensino oficial, em 1935, é demitido por se ter recusado a assinar uma declaração onde devia declarar não pertencer a nenhuma organização secreta. Na realidade não pertencia a nenhuma organização mas aquela situação indo de tal modo contra a sua maneira de ser, levou-o realmente a não assinar semelhante papel.

Entretanto, com mais umas aventuras de permeio, uma delas conduziu à sua excomunhão por parte da Igreja, fartou-se deste país que ele tanto amava e partiu para o Brasil à procura de novos rumos.