bandeiras


Atrás destas bandeiras desfraldadas
não marcha o povo heróico lusitano:
destemido, intrépido, guerreiro,
maior que Alexandro e que Trajano.
Atrás destas bandeiras coloridas,
à sua sombra, há misérias escondidas,
há dramas de mil cores gritando ao engano.

Atrás destas bandeiras agitadas
não avança qualquer revolução
que nos arranque ao fado, que nos arranque ao chão
que nos arranque à praia, ao destino, à solidão…

Atrás destas bandeiras inflamadas,
redes sem peixe, sois sem madrugadas,
há jovens sem futuro, famílias destroçadas
na histeria do lucro-furacão.

Atrás destas bandeiras nas janelas,
não se acoitam heróis mas supranumerários
- coisa que já foi gente, já foi povo,
com direito a trabalho e a salários.



No seu livro “Brancos Estúpidos” Michael Moore afirma a George Bush: “Não estou a pôr em causa o seu patriotismo – tenho a certeza de que amaria qualquer país que tivesse sido bom para si”. E quem sabe até que ponto os EUA foram bons para George, não duvidará de quanto patriotismo aquele homem sente!

É por isto que eu aceito que o patriotismo dos meus conterrâneos atinja o seu climax, zénite ou orgasmo, num campeonato mundial de futebol. Muito mais autêntico porque desinteressado. E também porque tem o mérito de mostrar aos enfatuados gerentes deste país como são desprezíveis tendo em conta os resultados do seu jogo.

Agora lindo, lindo, era se os portugueses metessem todos as bandeiras na lixívia e as pusessem nas antenas dos carros, nas janelas das casas, num estrondoso apêlo pela paz no mundo.

AS DORES QUE NÃO PARAM O MUNDO

" (...) O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (...)

Mia Couto, em «O fio das missangas»
Editorial Caminho, Lisboa, 2004, 148 pgs., ISBN: 972-21-1611-8

1 Comments:

Anonymous Nan said...

rigorosamente de acordo com tudo. nem tenho mais palavras.
bj

10 agosto, 2006  

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home