Fidel não é Fidel

Eu tinha prometido a mim próprio que não voltaria a perder tempo com os Castros, a ditadura cubana, o uso fraudulento da palavra revolução... Mas, como ninguém soube, posso desabafar uma vez mais, nesta oportunidade do VI Congresso do PCC.

E não tanto por causa de Cuba ou dos Castros.

A revolução cubana impõe aos cidadãos uma fonte única de informação, uma única opinião política, com perseguição aos discordantes, prisão política a um nível nunca antes praticado, atraso económico gritante e um partido comunista omnipresente e omnipotente.

O PCC que impõe a autoridade dos irmãos Castro sobre tudo e sobre todos, que não se distingue do Governo e que finge representar o povo, mais, que finge emergir do povo, tem um objectivo declarado mas nunca se traduz em nada de frutuoso, “a revolução”. Também tem um inimigo de estimação ora real ora fantasmagórico, "o império". Só não tem governantes competentes, dirigentes democráticos e legitimidade assente na livre escolha popular dos seus orgãos políticos, das suas instituições e dos seus dirigentes.

O VI Congresso do P. C. de Cuba funciona nos moldes fraudulentos e muito experimentados noutros partidos comunistas, o P. C. Português incluído, em que o jogo de bastidores é tudo e o resto é uma extensa e complicada máquina de ilusões.

É um labirinto intrincado e vigiado por onde circulam os “delegados” e as “propostas” saídos e saídas – dizem – de “milhares de reuniões amplamente participadas”, que na melhor das hipóteses se debruçam sobre um extenso documento pré-elaborado pela Direcção, tudo muito bem manipulado pelo aparelho partidário profissional que assegura ele próprio todos os aspectos de funcionamento.

As reuniões decorrem em núcleos estanques, de modo que não se possa formar nunca uma corrente de opinião divergente do texto base. Tais opiniões, quando surgem, morrem silenciosamente no próprio núcleo(*1). É o que entendem por "centralismo democrático"

Assim como em Cuba as decisões são “amplamente participadas” desde que não se abra a porta aos discordantes e às discordâncias, também no PCP. Além de que a escolha dos temas e a forma como se apresentam a discussão dos participantes é já uma selecção do que “convém” e uma censura do que não convém abordar. Para isso existe uma "comissão de redacção" formada por dirigentes da máxima confiança política, não por redactores. Depois, uma maioria de funcionários nos lugares de decisão e nos congressos, filtra o resto e segura o emprego – que ser funcionário é depender economicamente de quem dirige o partido.

Regimes “apoiados” por enormes manifestações de massas... sem alternativa, enchem tragicamente as páginas da História. Um simples congresso de um partido sem poder, como o caso do PCP, não merece que se lhe compare, portanto. A não ser que em tudo o mais seja igual e que declare a torto e a direito a sua vocação para o autoritarismo, como vai acontecendo aqui e ali e no Avante.

Infelizmente, e ao contrário do que afirmou tão enfaticamente Raúl Castro no seu congresso, Fidel não é Fidel. Ensina a escola filosófica em que assenta o Movimento Comunista (*2), que Fidel é Fidel mais aquilo em que ele se transforma...
Quem diz Fidel, diz a revolução!

(*1) Pelo menos 45 propostas que se fizeram nas bases do PCC não chegaram ao congresso. O tema "emigração" que é incontornável na política e na vida cubana, não mereceu qualquer referência.
(*2)Materialismo Dialectico


Pode ver AQUIuma opinião genérica sobre o Congresso do PCC.

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2 Comments:

Blogger mfc said...

É pena que seja um mau (bom) exemplo para quem quer denegrir (e confundir) a esquerda.

22 abril, 2011  
Blogger antónio m p said...

É exactamente por isso, caro mfc, que me preocupo em denunciá-lo.

24 abril, 2011  

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