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2016/12/17

O regresso aos desenhos rupestres

Os signos que usamos hoje nos aparelhos electrónicos, nomeadamente, são um retrocesso comunicacional que se pode medir em milhares de anos. Em vez das palavras, voltamos aos desenhos para exprimir ideias, identificar objectos e pessoas. Voltamos ao analfabetismo.

Existem pinturas rupestres feitas há 17 mil anos, nas cavernas de Altamira, na Espanha, e nas cavernas de Lascaux, na França, por exemplo, que estão ao mesmo nível de evolução. Já para não falar nas que se encontram aqui em Vila Nova de Foz Coa.

Era assim quando o homem não conhecia a expressão verbal, quando se desenhava uma roda para dizer "roda", um veado para dizer "veado" e... um avião para dizer "avião". 

Será que o próximo Acordo Ortográfico vai acabar com todas as palavras, em obediência à "evolução" do uso? Sim, já é tempo de aprender com as civilizações mais evoluídas, "tipo"  o homem do Cro-Magnon. 

2016/05/01

Dia dA TrabalhadorA

Convenientemente esquecida a polémica sobre o caracter machista que o Bloco de Esquerda atribui à designação “Cartão do Cidadão”, vemos agora que este combate tem ramificações no Brasil e na ecuménica Igreja Católica, como se pode ver no recorte junto, que integra um blogue religioso brasileiro.

Mas pensando melhor, o Brasil não é ramo do Bloco, mas raiz, se tivermos em conta que esta luta remonta à designação de “Presidenta”, requerida por Dilma Rousseff para a primeira figura do Estado brasileiro,

Mais do que o conteúdo destas polémicas, ressalta, a meu ver, a prioridade que lhes é dada por entidades que se julgaria estarem mais preocupadas com os problemas práticos e imediatos, económicos e sociais das populações.

Melhor faz Marcelo Rebelo de Sousa ao rever a polémica linguística sobre o “Acordo Ortográfico”, o que mostra a diferença entre crentes e praticantes.

Os sublinhados a verde são meus.

2012/02/03

Vai uma bala, amigo?

O recém-empossado presidente do Centro Cultural de Belém (CCB), Vasco Graça Moura, fez distribuir ontem à tarde uma circular interna, na qual dá instruções aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico e para que os conversores – ferramenta informática que adapta os textos ao Acordo Ortográfico – sejam desinstalados de todos os computadores da instituição.


A propósito e em homenagem sincera à decisão de Vasco Graça Moura, conto um episódio relacionado com as diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil.

A amiga Paula Oliveira, brasileira, professora na Universidade de S. Paulo, estava em Lisboa com uma amiga para fazerem um “pós-doc”. O  trabalho da Paula era sobre Filosofia com Crianças e o trabalho da outra amiga estava relacionado com educação para crianças em espaços problemáticos.

À parte da amizade, nada me ligava a elas pelo que a minha colaboração para o pós-doutoramento se limitava a orientá-las nas ruas de Lisboa e a trocar dicas sobre as diferenças de vocabulário entre o Brasil e Portugal. Foi assim que aprendi que sumo é “suco”, chávena é “xícara”, caixa é “boceta e rebuçado é “bala”. Que cueca é “calcinha” já eu sabia das telenovelas, ?

No âmbito do seu trabalho, elas quiseram participar numa actividade que estava a ser desenvolvida com crianças no bairro da Cova da Moura, conhecido sobretudo por ser um espaço problemático onde a droga circula com mais facilidade do que as pessoas, segundo consta.

Acompanhei-as de táxi. Os motoristas não aceitam geralmente fazer serviços para ali mas nós pedimos que nos deixasse num ponto da estrada que ficava perto. Ainda assim o motorista exprimiu o seu medo, através de maus modos e interjeições ilegíveis. Interjeições e maus-modos que se foram acentuando no percurso. As relações estavam tensas e todos percebemos que o silêncio seria a melhor forma de chegar ao fim da viagem.

 Eis senão quando, saído do silêncio pacificador, a amiga da Paula abre um saquinho de rebuçados e dirige-se ao motorista com esta:
- Você quer bala?

Agora sim, um silêncio sepulcral caiu sobre aquelas quatro almas até o carro parar no ponto combinado, pagarmos e sairmos sem mais “chus nem mus”! Ou “bus”?

Nota final:
Na sequência desta notícia, a Secretaria de Estado da Cultura (SEC), a cargo de Francisco José Viegas, assegurou hoje que aplica o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em todos os seus organismos.
Suponho que o Francisco J. Viegas terá escrito: "Eu tô nem aí"

2011/09/09

Desacordo ortográfico

Acabo de ouvir Vasco da Graça Moura (na foto) dizer que os brasileiros devem escolher se querem falar português ou não. Com esta frase, ele exprime com simplicidade e com rigor, o que é não só o pensamento da esmagadora maioria dos académicos portugueses como também a esmagadora maioria se não a totalidade dos cidadãos. Nisto, como na poesia, Vasco Graça Moura é admirável. (Pena é que se perca na política).

Numa sincera homenagem, aqui invoco um excerto do seu poema "lamento para a língua portuguesa"

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
(continua)

NOTA:
De acordo com a resolução n.º 8 do Conselho de Ministros, de 25 de Janeiro de 2011, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entra em vigor no sistema educativo português no ano letivo de 2011/2012.