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2011/09/09

Desacordo ortográfico

Acabo de ouvir Vasco da Graça Moura (na foto) dizer que os brasileiros devem escolher se querem falar português ou não. Com esta frase, ele exprime com simplicidade e com rigor, o que é não só o pensamento da esmagadora maioria dos académicos portugueses como também a esmagadora maioria se não a totalidade dos cidadãos. Nisto, como na poesia, Vasco Graça Moura é admirável. (Pena é que se perca na política).

Numa sincera homenagem, aqui invoco um excerto do seu poema "lamento para a língua portuguesa"

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
(continua)

NOTA:
De acordo com a resolução n.º 8 do Conselho de Ministros, de 25 de Janeiro de 2011, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entra em vigor no sistema educativo português no ano letivo de 2011/2012.

2009/11/24

Nutissias

«Marcelo Rebelo de Sousa só concorre se não tiver concorrência»
Pergunto: Como é que se concorre se não há concorrência?

«Ahmadinejad tem desenvolvido relações com os países latino-americanos como Venezuela, Bolívia, Nicarágua, com líderes conhecidos pelas suas posições anti-americanas».
Pergunto: Os países mencionados não são americanos? Como podem ter posições anti-americanas?

«Erosão da costa portuguesa está a levar zonas do país a recuar 10 metros por ano»
Pergunto: A Espanha está preparada para receber novos territórios? Ou é só a costa e não a zona que recua?

«Livro sobre o Porto lançado em Gaia».
Pergunto: E Gaia aguenta com o Porto inteiro? Ou a ideia é outra e a crise já chegou às vírgulas? É que nem Saramago...

Estes exemplos de "boa literatura", entre outros, estão no JN de ontem, 23 de Novembro. “A não perder”, como diria o Mário Crespo. Mas se já não encontrar essa edição, pode encontrar textos semelhantes noutras edições e noutros jornais...

2009/09/09

Asfixia da gramática

A ver se nos entendemos: asfixia democrática ou democracia asfixiada? Ou tanto faz? Socialismo democrático ou democracia socialista é a mesma coisa? E grande mulher é o mesmo que mulher grande? Manuela Ferreira Leite quer a verdade acima de tudo ou tudo acima da verdade? Ou tanto lhe faz?


Poderia fazer sentido para George Bush que ele qualificasse como asfixia democrática a forma como assassinou Sadam Hussein, mas será disso que estamos todos a falar, políticos, jornalistas, doutores e gente de mais humilde condição?