Bastidores da TV

(texto não recomendável para estômagos sensíveis)
O programa apresentava e comentava eventos culturais. Era gravado semanalmente no pequeno Estúdio 4 do Lumiar. Participavam sempre os mesmos destacados homens da cultura, especializados em diferentes áreas: arte, cinema,literatura. Foi muito antes do Acontece (digo para evitar confusões).

Uma dessas gravações coincidiu, dia e hora, com a expectativa de mudança do Governo. Bem eu queria juntar os participantes no estúdio, para começarmos a gravação, mas eles não recolhiam às tábuas do cenário, deambulavam circunspectos pelo pátio exterior, fazendo jus ao nome que nós dávamos àquele espaço: o “Pátio das Malucas”.

A presunção, a arrogância intelectual destes narcisos, explicava para mim aquela birra, mas havia que rendibilizar o tempo de utilização do estúdio e eles teimavam em fazer-se surdos à minha insistência. Até que lhes ouvi, entre-dentes, comentar: “Enquanto não se souber se há mudança de Governo, não podemos continuar”.

A superioridade daqueles deuses da arte, da cultura, ruiu desamparada, então. Outro valor mais alto que a elevação intelectual, os dominava: o oportunismo político!

Eles andam aí armados em primas-donas, primos uomos, gente que não vê a realidade, por mais que ela se insinue, de tal modo está fascinada por si mesma. À mistura com gente séria, passam pelo que não são.

Nunca mais pude vê-los e ouvi-los sem que um mal-estar, um enjoo, uma ânsia de vómito se começasse a formar no meu estômago. As mais das vezes, porém, tudo o que se liberta pela minha boca é um grito: gatunos, devolvam-me a inocência!


Imagem inserida: "Eco e Narciso", de John William Waterhouse

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