(texto não recomendável para estômagos sensíveis)
O programa apresentava e comentava eventos culturais. Era gravado semanalmente no pequeno Estúdio 4 do Lumiar. Participavam sempre os mesmos destacados homens da cultura, especializados em diferentes áreas: arte, cinema,literatura. Foi muito antes do Acontece (digo para evitar confusões).
Uma dessas gravações coincidiu, dia e hora, com a expectativa de mudança do Governo. Bem eu queria juntar os participantes no estúdio, para começarmos a gravação, mas eles não recolhiam às tábuas do cenário, deambulavam circunspectos pelo pátio exterior, fazendo jus ao nome que nós dávamos àquele espaço: o “Pátio das Malucas”.
A presunção, a arrogância intelectual destes narcisos, explicava para mim aquela birra, mas havia que rendibilizar o tempo de utilização do estúdio e eles teimavam em fazer-se surdos à minha insistência. Até que lhes ouvi, entre-dentes, comentar: “Enquanto não se souber se há mudança de Governo, não podemos continuar”.
A superioridade daqueles deuses da arte, da cultura, ruiu desamparada, então. Outro valor mais alto que a elevação intelectual, os dominava: o oportunismo político!
Eles andam aí armados em primas-donas, primos uomos, gente que não vê a realidade, por mais que ela se insinue, de tal modo está fascinada por si mesma. À mistura com gente séria, passam pelo que não são.
Nunca mais pude vê-los e ouvi-los sem que um mal-estar, um enjoo, uma ânsia de vómito se começasse a formar no meu estômago. As mais das vezes, porém, tudo o que se liberta pela minha boca é um grito: gatunos, devolvam-me a inocência!
Imagem inserida: "Eco e Narciso", de John William Waterhouse
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2012/02/01
2010/02/14
(Ex)citações televisivas
1.«A característica principal da Neo-TV é que ela fala cada vez menos do mundo exterior. Ela fala de si própria e do contacto que está estabelecendo com o seu público». (Umberto Eco, “Viagem na Irrealidade Quotidiana”, Difel 1986)
Por falta de tempo não insiro aqui fotos de Mário Crespo, Manuela Moura Guedes, Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino, Pacheco Pereira, o Polvo, a Enguia e o Cavalo-Marinho.
2.
Na publicação de 1994 cuja capa se apresenta acima, é possível ler frases como estas sobre “a guerra de canais” de televisão:
- uma guerra com os seus espiões, os seus transfugas e a sua dose de intoxicação e de subterfúgios;
- uma guerra com as suas frentes, as suas vítimas, os seus decapitados e os seus heróis;
- uma guerra em que os altos protagonismos têm tendência a fazer mais estrondo do que os conflitos do planeta.
“Dinheiro, poder e audiências” são os três elementos inseparáveis desta guerra, segundo o autor, Erik Emptaz.
Por respeito às autoridades também não insiro aqui as fotos de José Sócrates e Berlusconi – além de serem já sobejamente conhecidas, a sua junção poderia sugerir inapropriadas associações de ideias.
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