Televisões públicas e vícios privados

Muitas vezes me deparei com a dificuldade de pesquisa, sobretudo na produção de documentários, devida à insuficiência de registos e ao tempo de processamento do material pesquisado, visto que o filme antigo precisa de um tratamento prévio de limpeza em laboratório, antes de ser transcrito para vídeo.

Mesa de montagem de filme e áudio (moviola)

Muitos anos depois da Televisão abandonar definitivamente o suporte “filme” nos registos de imagem (acompanhado do registo magnético autónomo do som em “klang”), os serviços de arquivo da RTP continuavam a debater-se com a dificuldade de transcrever todo aquele material para vídeo a fim de ser utilizado pelos novos meios tecnológicos.

Claro que não é impossível proceder a essa conversão, e disponibilização pública, “tal como” fazem as bibliotecas que disponibilizam jornais antigos microfilmados, mas os custos em pessoal, laboratório e suportes, envolvidos nessa tarefa, foram avaliados? E quem os suportaria?

E em relação ao material arquivado que teve já a produção original em vídeo e não em filme, o que imaginam eles que permanece registado? Lembro-me de material importante das cassetes vídeo - já nem falo dos registos em bobines -, que era apagado num abrir e fechar de olhos para gravar uma treta qualquer porque não havia cassetes novas nem orçamento para comprá-las! Lembro-me também do que alguns de nós sofríamos com o apagamento definitivo desses registos de que sabiamos os custos envolvidos na sua produção ou o seu valor histórico. Mas a reutilização das cassetes vídeo era e ainda continua a ser em grande parte, imposta por razões económicas.

Desenganem-se pois acerca da recuperação de grande parte do material exibido, os comissários nomeados pelo Governo para definir o conceito de serviço público de comunicação social. E não se iludam com a viabilidade de passar a convertê-lo genericamente para suporte informático e publicado na internet.

Eu sei que não se iludem; querem iludir-nos, isso sim, para esconder a sua estratégia de destruição dessa outra “gordura do Estado” que é a Televisão Pública, a bem dos interesses pessoais e políticos dos seus próximos. Mas isso não é Televisão, é a sua visão! É o seu vício.

Parece que alguns tomaram a decisão elegante... de se demitir da “sábia” comissão. É que há gente que tem vergonha.

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