Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo Araújo Pereira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo Araújo Pereira. Mostrar todas as mensagens

2018/10/18

Carta aberta ao Ricardo



Estimado Ricardo Araújo Pereira:

Comprei o seu livro “Estar Vivo Aleija” - que não deixa de ser seu apesar de eu o ter comprado. Não comprei para mim, foi para oferecer a alguém que não tem paciência para ler obras mais sofisticadas. Mas como os livros, ao contrário da fruta e dos robalos, podem ser consumidos antes de dá-los, fui lendo aquelas tretas com o mesmo prazer, ou quase, com que li, há muitos anos, “Esta Pressa de Agora” de António Lopes Ribeiro, também neste caso uma compilação de crónicas de jornal (ideologias à parte).

“Serve a presente” – como se escrevia no tempo deste falecido cineasta – para o informar – a si e não ao falecido – que talvez por ter sido criado por uma avó você descobriu desde muito cedo uma coisa que vulgarmente descobrimos nós, os velhos, ao fim de muitos anos de erráticas reflexões sobre o sentido da vida: que a vida não faz sentido ou, citando o nome de um filme cubano, “La vida es silbar”. 

2017/06/16

Serões de televisão

À terça-feira temos talvez o mais equilibrado programa de debate: O Outro Lado. Mas dizer, como a respectiva promoção, que se trata de um programa com uma nova geração... que não se deixou "triturar" pelas máquinas partidárias", já é entrar numa linguagem fascizante! Para Salazar, por exemplo, o verdadeiro parlamento era o Governo; para João Adelino Faria, o verdadeiro parlamento é o seu programa de televisão.


À quinta feira temos oportunidade de revisitar o velho arco da governação num programa da SIC-notícias em que participam, invariavelmente, comentadores vindos do PS, do PSD e do CDS, “malgré” alguns paradoxos desta representação como é próprio de um programa que se chama “Quadratura do Círculo”. Desde que o inimigo principal seja o grande ausente, o pensamento socialista propriamente dito, eles pagam o mal que lhes sabe Pacheco Pereira pelo bem que lhes faz o seu prestígio e popularidade.


Também às quintas-feiras, às 22h30 na TVI24, nos é dado conviver (passivamente) com três figuras da política partidária mas, desta vez, o leque abrange a extrema esquerda e não a extrema direita – passe a extrema expressão. É a “Prova dos Nove”.

Também aqui, por coincidência, a figura com maior destaque pertence ao PSD – Paulo Rangel. Mas ao contrário de Pacheco Pereira, Rangel é um radical apoiante das políticas da direita – o que torna dispensável um representante do CDS.


À sexta-feira somos transportados pelo “Expresso da Meia Noite”, título que remete para uma história de pesadelo, no cinema, mas cujo significado enquanto programa de televisão invoca propriamente o patrocinador Jornal Expresso e a hora a que o programa é transmitido.

É claro que reflecte “o sistema dominante” – disso se encarrega o omnisciente Ricardo Costa. Mas traduz-se geralmente por um serão saudável quando é apresentado por esse tal Ricardo e o Nicolau Santos.


Ainda à sexta-feira, faz-se crochet em “O Último Apaga a Luz” da RTP3. Destaca-se o moderador, pela inteligência e bom-humor, apesar da modéstia, nas suas curtas intervenções. Raquel Varela desempenha o papel da arrogante intelectual de esquerda, uma espécie de Daniel Oliveira deste sítio, e o Rodrigo Não-Sei-Quê faz de conta que é um intelectual de direita.


Nas noites de sábado estamos com o governo, digo o “Governo Sombra”. É uma transmissão directa da TVI24.

Dizer que é irónico é já dizer que é inteligente. Geralmente! Quem tiver paciência para suportar o João Miguel Tavares, ganha com o que às vezes se aprende de Pedro Mexia (descontem-lhe algum reaccionarismo) e sobretudo com o que a gente se diverte (sem histeria) “à custa” do Ricardo Araújo Pereira.


Também ao sábado, há um serão alternativo para mazoquistas. É o
“Eixo do Mal” na SIC Notícias. É sobretudo o eixo da má-língua. Melhor dizendo: das más línguas. Um exibicionismo pessoal repugnante, uma arrogância intelectual insuportável, que cobrem de poeira os mais acertados argumentos que possam defender. 

No meio daquele galinheiro, quem menos agita a crista é Luis Pedro Nunes, o único que diz menos do que tem para dizer mas que se diverte mais genuinamente.




2014/03/31

O poder do humor

Ricardo Araújo Pereira dificilmente escapa a uma entrevista ou um colóquio com perguntas do público, sem ser interrogado sobre a influência do humor na política.

Ele lá vai tentando fugir à questão para evitar uma avaliação redutora, digamos assim, do seu trabalho.

Por mais que uma vez lhe li ou ouvi esta ironia sobre o poder do humor: «Todos recordamos a piada que acabou com a escravatura, a rábula de vaudeville que deu o direito de voto às mulheres, o programa cómico que determinou o fim da Segunda Guerra Mundial...».

Da última vez que o vi responder à questão, ele disse que era como o sol, isto é, que o facto de as pessoas irem para a praia em vez de irem votar, em dias de sol, não quer dizer que o sol seja culpado pela abstenção eleitoral.

Metáfora humorística à parte, pela desproporção dos elementos em comparação, a diferença que importa, digo eu, é que o sol não pensa, não escolhe as circunstâncias e os efeitos que provoca na Terra e nos seus habitantes – é determinado por leis naturais. Já o Ricardo escolhe, incluindo o conteúdo e o efeito psicológico da sua intervenção, e sabe como esse efeito depende do contexto histórico ou local em que é usada.

Claro que ele sabe disso e sabe que nós sabemos. Trata-se apenas de evitar que o seu humor seja condicionado por preconceitos ideológicos do seu público. Quando invoca Chaplin, Groucho Marx ou Woody Allen, para identificar o humor pelo humor, o Ricardo “finge” desconhecer a opção do primeiro pelos explorados contra os exploradores e a “obsessão” de Woody Allen pela crítica ao anti-semitismo.

Goucho Marx, entenda-se, é metido ali no meio para disfarçar – passe o humor tipo ricardeano!... Mas tem pelo menos uma afinidade com Woody Allen – a condição de Judeu. E afinal quem diz "O matrimónio é uma valiosa instituição se você gostar de viver em uma instituição", não é tão indiferente como parece.

Para evitar a conotação ideológica do seu humor, mais fácil seria se o Ricardo trabalhasse em pintura ou em música, mas nunca escaparia totalmente, já que até a obra inócua, se existe, não escapa ao julgamento de “pretender distrair do que é importante” ou até de ser apropriada e assim conotada através do seu uso. Veja-se, entre nós, o percurso do fado.

Analisando a sua postura, faço uma previsão. Se algum dia lhe perguntarem por que partido aceita ser candidato numas eleições, o Ricardo Araújo Pereira não vai buscar a Karl mas a Goucho Marx a resposta: "Inclua-me fora disso."