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2017/06/16

Serões de televisão

À terça-feira temos talvez o mais equilibrado programa de debate: O Outro Lado. Mas dizer, como a respectiva promoção, que se trata de um programa com uma nova geração... que não se deixou "triturar" pelas máquinas partidárias", já é entrar numa linguagem fascizante! Para Salazar, por exemplo, o verdadeiro parlamento era o Governo; para João Adelino Faria, o verdadeiro parlamento é o seu programa de televisão.


À quinta feira temos oportunidade de revisitar o velho arco da governação num programa da SIC-notícias em que participam, invariavelmente, comentadores vindos do PS, do PSD e do CDS, “malgré” alguns paradoxos desta representação como é próprio de um programa que se chama “Quadratura do Círculo”. Desde que o inimigo principal seja o grande ausente, o pensamento socialista propriamente dito, eles pagam o mal que lhes sabe Pacheco Pereira pelo bem que lhes faz o seu prestígio e popularidade.


Também às quintas-feiras, às 22h30 na TVI24, nos é dado conviver (passivamente) com três figuras da política partidária mas, desta vez, o leque abrange a extrema esquerda e não a extrema direita – passe a extrema expressão. É a “Prova dos Nove”.

Também aqui, por coincidência, a figura com maior destaque pertence ao PSD – Paulo Rangel. Mas ao contrário de Pacheco Pereira, Rangel é um radical apoiante das políticas da direita – o que torna dispensável um representante do CDS.


À sexta-feira somos transportados pelo “Expresso da Meia Noite”, título que remete para uma história de pesadelo, no cinema, mas cujo significado enquanto programa de televisão invoca propriamente o patrocinador Jornal Expresso e a hora a que o programa é transmitido.

É claro que reflecte “o sistema dominante” – disso se encarrega o omnisciente Ricardo Costa. Mas traduz-se geralmente por um serão saudável quando é apresentado por esse tal Ricardo e o Nicolau Santos.


Ainda à sexta-feira, faz-se crochet em “O Último Apaga a Luz” da RTP3. Destaca-se o moderador, pela inteligência e bom-humor, apesar da modéstia, nas suas curtas intervenções. Raquel Varela desempenha o papel da arrogante intelectual de esquerda, uma espécie de Daniel Oliveira deste sítio, e o Rodrigo Não-Sei-Quê faz de conta que é um intelectual de direita.


Nas noites de sábado estamos com o governo, digo o “Governo Sombra”. É uma transmissão directa da TVI24.

Dizer que é irónico é já dizer que é inteligente. Geralmente! Quem tiver paciência para suportar o João Miguel Tavares, ganha com o que às vezes se aprende de Pedro Mexia (descontem-lhe algum reaccionarismo) e sobretudo com o que a gente se diverte (sem histeria) “à custa” do Ricardo Araújo Pereira.


Também ao sábado, há um serão alternativo para mazoquistas. É o
“Eixo do Mal” na SIC Notícias. É sobretudo o eixo da má-língua. Melhor dizendo: das más línguas. Um exibicionismo pessoal repugnante, uma arrogância intelectual insuportável, que cobrem de poeira os mais acertados argumentos que possam defender. 

No meio daquele galinheiro, quem menos agita a crista é Luis Pedro Nunes, o único que diz menos do que tem para dizer mas que se diverte mais genuinamente.




2017/04/16

Para Zita com ira

Sempre me ficou, e para sempre, a dúvida sobre se alguns programas e formas de os realizar, que vejo actualmente na televisão, não são inspirados ou copiados de projectos ou ideias que sugeri sem sucesso enquanto trabalhei para a RTP.

Reconheço, no entanto, que é um fenómeno frequente e histórico ocorrer a mesma ideia, por mais imprevisível que pareça, a diferentes pessoas em alturas e lugares diferentes. A investigação científica é talvez o domínio mais relevante deste fenómeno.

Mas ao assistir ao programa Governo Sombra especial de Páscoa, em que o tema é “Os sete pecados capitais" em política, não posso deixar de ver coincidência a mais com um comentário de Fevereiro de 2015 (!) publicado em Mito e Realidade a propósito de Zita Seabra, a convidada especial do programa de hoje:

Anónimo disse...
A má-fé move Zita Seabra.
A estupidez move(u) a irmã Lúcia.
A luxúria move Catherine "Portas" Deneuve.
A vaidade move Santana Lopes.
A ganância move José Sócrates.
A gula move Alberto João Jardim.
A inveja move-os a todos.
E todos nós sentimos ira ao observá-los, mas temos preguiça de os travar.
2005Fev17

Já de Zita Seabra não vale a pena dizer mais do que ela disse no programa com algum interesse e seriedade: nada! São estes maus exemplos de dissidências que alimentam a soberba do "partido com paredes de vidro", retirando força a quem sai pelas melhores razões.

NOTA: A imagem acima é uma composição deste blogue.

2016/11/08

Televisão por dentro (1)

Aviso prévio: “televisão” não é televisor; é do fenómeno e não do equipamento que aqui se trata. É da produção, realização, emissão e recepção.

Quando muito atrever-me-hei a ultrapassar estes limites para fazer comentários sociológicos aos conteúdos.

Não terei preocupações com a sistematização ou estruturação dos assuntos. Muito menos serei exaustivo no tratamento de cada assunto. Deixo isso para os compêndios.

Não há que estranhar, portanto, que traga aqui a questão da Cenografia, isto é, uma questão sobre cenografia em televisão.

Observe-se o cenário antigo do programa "Governo Sombra"


Que diferença faz neste cenário que o programa seja de humor ou de debate político ou desportivo? Nenhuma. Trata-se de uma sala discutivelmente bonitinha que melhor serviria para bar ou escritório moderno. Retirando a mesa serviria até para exibição musical. Para o programa em causa é que não faz qualquer sentido.

Heis senão quando… somos surpreendidos com um “novo” cenário!


Agora é criada, entre a mesa e a parede, uma bancada com gente… Que gente e o que faz ali, não interessa. Alguém achou que os comentadores do programa não tinham interesse e acrescentou-se um novo elemento de animação: um público indiferenciado e adormecido, umas vezes só pernas e outras vezes cabeças a espreitar para o espelho (o monitor onde vêem… a emissão).

Uma vez mais a imaginação não deu para mais do que copiar as manhãs da treta, de todos os canais nacionais e estrangeiros, iguaizinhos na sua parvulez.

Pensava eu que um governo-sombra se reunisse numa cave esconça – e porque não numa caverna, numa gruta? – com um ou dois pontos de luz discretos ao fundo, e uns caixotes toscos cheios de papeis e livros e algumas garrafas vazias. E, em vez daqueles “candeeiros” de filtro cinematográfico, uma sugestão de candeeiros a petróleo ou de velas ou de tochas…

Para falar a verdade toda, eu preferia mesmo uma espécie de cave abandonada, do tipo "occupied house". Mas algum trabalho terei que deixar para o cenografista da TVI24 (com os meus cumprimentos).

2016/05/05

Grande Desinformação

Merece o prémio Grande Desinformação, o esforço de Victor Gonçalves para pescar numa frase, numa palavra, num sinal, qualquer coisa que pudesse ser visto como fragilidade no entendimento das esquerdas que suportam o Governo de António Costa.

Durante todo o tempo da Grande Entrevista desta Quarta-feira – grande pela extenção e não pela qualidade -, o inquiridor, disparou todo o arsenal de suspeitas que a imaginação pode juntar, para ferir a confiança na durabilidade do Governo, sempre centrado num único ponto que não é o conteúdo político do entendimento, mas sim os jogos de poder.

Que importa a validade ou não, a necessidade ou não, a justiça ou não das políticas que unem os partidos de esquerda?! O que importa é arranjar uma cunha que os divida.

Continua, Victor. Sabes que não estás só. O que estás é muito mal acompanhado!

2016/02/25

Umberto Eco… e eu!


«A discussão desportiva (o espectáculo desportivo, o falar do espectáculo desportivo, o falar sobre os jornalistas que falam sobre o espectáculo desportivo) é o substituto mais fácil da discussão política». Além disso, «permite assumir posições, exprimir opiniões, auspiciar soluções sem se expor» à censura grave de terceiros e a conflitos consequentes.

Disto falava Umberto Eco em 1978 (L’Expresso, 19JUN.). Só não me lembro se também falava do “ruído” que a própria discussão política traz à comunicação quando os debates sucedem em carrocel repetindo exaustivamente os mesmos argumentos.

Felismente vão ganhando espaço público novos protagonistas, por força das contradições do sistema “representativo” de participação, sistema que não tinha problemas em ser representativo enquanto os orgãos de poder eram inteiramente dominados por correntes liberais.


Em todo o caso, a liberalidade dos orgãos de “comunicação social” está suficientemente moldada, desde a sua propriedade a tudo o resto, para que os argumentos desconfortáveis de alguns políticos, sejam imediatamente diluídos na lixívia destrutiva dos comentadores… “independentes”. Mas isto já sou eu a falar. Ou não?!

2014/02/15

Olhares míopes sobre a Venezuela

Sabe-se lá porquê…, uma estação de televisão tem feito nos últimos dias referências muito duvidosas à situação política que se vive na Venezuela. Talvez seja a dificuldade de ver o que lhe está (ideologicamente) longe.

O facto é que uma manifestação “de estudantes”, em protesto contra o Governo, desencadeou acções violentas que fizeram três mortos e dezenas de feridos. Mas a notícia é que existem milhares de opositores ao "chavismo".

O que a estação apresenta como notícia, não são os métodos violentos e criminosos de algumas organizações anti-chavistas, na sequência de acções do mesmo tipo desencadeadas noutras alturas; o que o jornalista releva é a existência de oposição como se não houvesse também manifestações a favor e com grande expressão. E faz supor que a violência é desencadeada pelo Governo.

Nem mesmo a EFE que testemunhou os acontecimentos no local, lhe modera o ímpeto, quando esta agência de notícias diz:

Várias cidades venezuelanas foram hoje palco de manifestações a favor e contra o Governo, com a oposição a pedir mudanças e o 'Chavismo' a denunciar um plano para desestabilizar o país. Um grupo que participava numa marcha da oposição separou-se do protesto, junto à Procuradoria-Geral da República, tendo ocorrido depois confrontos com a polícia.

A fotografia seguinte, da Reuters, mostra bem o caracter “pacífico” dos manifestantes que foram confrontados com a polícia!... Para quem protesta contra a falta de segurança, os métodos não poderiam ser mais "adequados"!

2013/05/15

Bom proveito (1)



A maior qualidade que pode ter um jornalista não é a simpatia nem a arrogância, é a independência do poder e a credibilidade. O mesmo se dirá de um programa de informação.

«O que fica do que passa» é um destes casos raros e passa no «Canal Q», ás 14h30 de segunda-feira, com repetição na terça-feira à noite, pelo menos, na posição 15 da Zon e do Meo.

Sem os formalismos circenses nem o ruído pseudo-democrático de alguns debates, convida quem sabe ou tem ideias bem fundamentadas, e deixa os convidados falarem. É desaconselhável para quem prefere propaganda.

Bom proveito!

2013/03/27

O debate em debate

O anúncio das entrevistas a José Sócrates que hoje se iniciam após a sua saída da governação, não ainda o conteúdo das entrevistas, note-se, mas a sua realização, criou uma carga dramática elucidativa do que é verdadeiramente a natureza da "Comunicação" Social: espectáculo!

Por detrás da preocupação com “o interesse nacional” e até com o “interesse social”, esconde-se no discurso de muitos analistas, a sua preocupação dominante: a afirmação da sua competência, da “sua” razão.

Felismente “o povo não é estúpido” e até porque é feito da mesma massa, sabe destas fragilidades da condição humana e dá algum desconto aos pareceres dos comentadores públicos.

Entretanto, quando a figura pública é identificável ideologicamente, ela representa para o espectador a sua ideologia, logo, o próprio espectador - se o representante do meu grupo ideológico vence ou perde um debate, eu ganho ou perco com ele. Isto é, o espectador não é isento e é com essa falta de isenção que ele próprio irá repercutir no espaço familiar ou social o conteúdo do comentário ou do debate público a que assistiu.

Mais, antes do espectador, os próprios jornalistas que são feitos da mesma massa que os políticos e os cidadãos comuns, interferem com os seus preconceitos neste jogo de prestígio e assim alimentam o conflito dramático.

Se juntarmos a tudo isto,que "a comunicação é mais de 90% afectiva e pouco mais de um por cento informativa", é caso para perguntar o que sobra de verdadeiro, rigoroso, credível, no fim de um debate ou de uma entrevista polémica.

Sobra apenas o espectáculo, portanto, se os intervenientes não forem excepcionais como raramente acontece. Não me parece que seja o caso de José Sócrates de quem espero apenas a desinteressante defesa da "sua" razão. Mas reconheço que eu próprio sou feito da mesma massa de que são feitos os preconceituosos.

2012/11/19

"Ainda" há homens com

«Este portal destinava-se a ajudar os alunos do segundo ano de uma licenciatura de escola pública universitária, numa disciplina com o nome de História do Presente. Acabei hoje, dia 10 de Maio, por ter que renunciar à respectiva coordenação e regência, por questões de dignidade pessoal e brio académico. Vou tentar utilizar o investimento feito noutras unidades orgânicas onde haja ideias de obra, manifestações e cumprimento das regras do Estado de Direito. E mais não digo. Porque tenho vergonha».

Quem fala assim é José Adelino Maltez, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra e com o grau de doutor em ciências sociais, na especialidade de ciência política, pela Universidade Técnica de Lisboa . Alguém que nos habituámos a ouvir com atenção na Televisão, menos vezes do que gostariamos.

E de cujo “Cosmopolis” transcrevo, quase aleatoriamente, esta referência desempoeirada e certeira, ao ano de 1991:

«O Expresso elege como homens do ano um tal sindicalista Torres Couto, um tal intelectual Mega Ferreira, um tal secretário de Estado Santana Lopes e um tal tarimbeiro da política laranja, chamado Luís Filipe Meneses. Todos ilustres homens de sucesso sem obra-prima mas com muitas promessas de obra feita e, sobretudo, detentores daquele eficaz sentido de oportunidade que lhes permite saber apostar no vencedor».

Para "não citar" este seu comentário na Televisão, ele próprio uma invocação: «Nem tudo o que é lícito é honesto!».

2012/08/13

Televisão na grelha

Seja a propósito do desmantelamento em curso da RTP, razão pela qual nasceu um homem chamado Miguel Relvas, seja porque não tarda que os programadores, chegados de férias, se reunam em aconchegados hoteis a preparar a grelha com que vão cozinhar a programação da próxima época, puxa-me hoje o mau feitio para falar de Televisão.

Na sua esclarecida e lúcida avaliação do mundo em que nos removemos, Umberto Eco disse que «a característica principal da "Neo-TV" é que ela fala cada vez menos do mundo exterior. Ela fala de si própria e do contacto que está estabelecendo com o seu público».

Por falta de tempo não insiro aqui fotos de Mário Crespo, Manuela Moura Guedes, Alberta Qualquer Coisa, Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino, Pacheco Pereira, o Polvo, a Enguia e o Cavalo-Marinho.

Acresce ao que Humberto Eco já podia analisar, esta oportuna crise de que tanto se fala. Nos dias que escorrem, a receita da austeridade fará sentir cada vez mais a contenção de produção nacional de qualidade e a ausência de informação internacional – fica o sistema bem servido com “debates” (poupa-se em actores e autores incontornáveis) e com directos (poupa-se em edição).

Quanto aos conteúdos da programação que oferecem as diferentes estações, parecem fazer eco de Umberto, à posteriori, as críticas, embora interessadas, da Associação de Produtores Independentes de Televisão de 2009 como poderia ser de qualquer outro ano da geração das privadas. Constatavam eles a "total falta de diversidade de conteúdos, apresentando grelhas muito idênticas e sem grande margem de escolha para o espectador". Mas quantas grelhas queria, se o Poder é um só, reunido no arco da governação? Não se queixe da televisão – a avaria é do emissor!


NOTA: Claro que há excepções na oferta de conteúdos e na qualidade dos intervenientes, mas isso é, sobretudo, mérito dos próprios.

2012/01/30

Herman José e as bombas

De mal-entendidos se fazem muitos conflitos. Na vida pública e na privada. Colette Portelance explica isso muito bem em “La Communication authentique”. Aqui se poderia tratar o queixume de Cavaco Silva acerca dos seus honorários mas é de outra personagem que me ocupo.

Custa-me criticar Herman José com quem trabalhei durante anos e de quem me ficou a melhor impressão profissional e pessoal. Mas quem anda à chuva, molha-se. E as declarações de uma figura com o seu merecido prestígio não podem passar sem um reparo quando fazem opinião em matéria tão grave.

Refiro-me às ideias que defendeu no programa Moeda de Troica, sobre o Irão, justificando o assassinato, a mando externo, de cientistas iranianos que trabalhavam no programa nuclear daquele país. O Herman sabe tanto ou tão pouco acerca dos verdadeiros objectivos do plano, como eu sei – lê os jornais. Mas isso não o impede de subscrever a versão norte-americana. Nem o caso do Iraque lhe recomenda alguma prudência.

Palavra puxa palavra, bomba puxa bomba, e logo “intrinca” aqui a questão da bomba de Hiroshima. Eu sei que se “limitou” a repetir a versão norte-americana da História quando “justificou” aquela atrocidade, dizendo que era a forma de acabar com a guerra. Mutatis mutandis faz lembrar Passos Coelho a promover a facilitação dos despedimentos para defender o emprego, e a promover o empobrecimento para melhorar o futuro dos portugueses. Só que até as crueldades fazem diferença entre si.

Sinceramente, faz-me muita pena este vício de raciocínio num homem com a inteligência, a informação e o bom carácter que atribuo ao Herman José.

Até porque a brilhante Ana Mesquita não merecia ser "intrincada" nesse discurso.


É a desvantagem, Herman, de não ser político, coisa que Cavaco Silva não pode invocar como desculpa para as suas gafes – passe o “intrincamento” do bolo rei nos pasteis de nata.

2012/01/27

Retrato da crise

Tá tudo aí:

«Anestesiados pelo mantra da inevitabilidade do empobrecimento, aliás muito bem orquestrado pelos canais de televisão no horário nobre, os portugueses estão a viver estoicamente o seu papel de cobaias de uma política económica comprovadamente errada, no essencial inspirada pela teoria económica dominante no período anterior à Grande Depressão do século passado. Governados por uma elite política comprada por interesses privados de diferente natureza, ou representados por uma oposição incapaz de produzir uma alternativa mobilizadora, os portugueses parecem cordeiros a caminho do matadouro. É enorme a responsabilidade daqueles que percebem o que está em causa».

Jorge Bateira no Jornal "I" e em "Ladrões de Bicicletas"

2011/06/13

Santos populares

Santo António, que não era António mas Fernando, comemora-se a 13 de Junho que não é o dia em que nasceu mas aquele em que morreu – como se a sua morte devesse ser celebrada, não a vida. Ainda por cima a sua morte ocorreu em Pádua, Itália, e não em Lisboa onde nasceu num Agosto de ano incerto.

O seu mérito não foi fazer milagres, que os faz Deus, se faz, e não os santos que podem apenas interceder junto daquele, dadas as boas relações “pessoais” existentes. No que ele era bom, era a falar.

Nem Pacheco Pereira, nem Rebelo de Sousa se lhe igualam – e muito menos em sábia humildade. António, digo Fernando, teve por isso o reconhecimento dos seus pares – mais uma diferença – e um auditório internacional, ouvido que era em Portugal, na França, em Itália... Se fosse homem de perder a cabeça, teria ido a Marrocos, como outros foram, mas foi melhor assim pois já dizia Marx nas suas tiradas pró-materialistas que não há pensamento sem cabeça!


Haveria de perdê-la S. João Baptista às ordens de Salomé – que nem se lhe conhece outra mulher por quem o santo, apesar da fama, a tivesse perdido.


Curiosamente, no caso de S. João que o Porto perfilhou sem ser da terra, comemora-se o nascimento e não a morte. Enfim, nisto de ter fama o que conta é ter sorte! E daí, voltando aos sermões de Pacheco e Marcelo, pertencer à seita adequada não será indiferente
.

2010/11/09

Acudam ao Capitalismo

Assim abria o "Prós e Contras" desta noite (8 Nov)
– quatro frases, quatro disparates:

«O modelo de economia capitalista vai ter que se humanizar para garantir a sua própria sobrevivência. Esta ideia está a ganhar cada vez mais adeptos. E já hoje é visível a multiplicação de iniciativas particulares na área social e sobretudo a aposta na chamada economia social.
Empresas que não colocam os lucros como objectivo máximo a atingir e conseguem evitar o prejuízo».
(...)
«O futuro passa pela inovação social, pelo empreendorismo, pelas redes de solidariedade social, e pelo voluntariado».
(...)
«Pretende-se que o debate desta noite seja a alavanca dessa redobrada consciência social e que se torne por sua vez numa mobilização para a acção».

Pese embora a ingenuidade aparente da apresentadora, já a escolha do “painel” e mais obviamente ainda a cândida tese do “capitalismo humanizado” deram uma imagem pungente do que é o esforço dos orgãos de informação ao serviço de uma ideologia e do que é o desespero patético dos seus funcionários mais fiéis e/ou mais convictos.

Dir-se-ia que o capitalismo está mesmo por um fio, mas receio que esse pânico seja precipitado. Para já, que eu saiba, é só uma greve geral. E é só no dia 24.

2010/03/29

De Herman a Bin Laden

Um “post” que acabo de ver em Herdeiro de Aécio , invoca Herman José na personagem “José Esteves”. Além do prazer de reinvocar o Herman com quem tive o gosto de trabalhar, pelo seu profissionalismo e pelo seu caracter, este episódio fez-me lembrar uma técnica de utilização da côr em vídeo que ajuda a completar o meu post “Assim se vê tv”.

Refiro-me ao efeito de inserir uma imagem no espaço e com o recorte de outra imagem: no caso, inserir um corpo de mulher “na camisa” do “Esteves”.

Chamamos a isto efeito “croma-key” cuja tradução para “chave de côr” diz tudo e não diz nada. Trata-se de utilizar uma côr-chave, uma das três “cores primárias” (vermelho, verde, azul) que em vídeo permitem a criação de todas as outras por combinação, suprimindo uma delas para, em seu lugar, como em transparência, deixar aparecer uma imagem de outra fonte.

O vulgar programa "paint-brush" que acompanha o software de qualquer computador, oferece efeito semelhante como exemplifico a seguir por supressão da côr de fundo da foto de Bin Laden.

FONTES (2 eixos do mal):

EFEITO :

2010/03/02

Jornalistas, precisam-se.

“Como estão a ver na imagem” é uma expressão obsessivamente “recorrente” no discurso verbal da televisão. Mas se estão a ver, só pode ser na imagem.

A menos que se trate de linguagem metafórica mas «está-se mesmo a ver» que não é o caso. Neste sentido, ver é perceber, como se... percebe. Portanto, amigos jornalistas, antes de entrarem nas nossas casas, «vejam se» limpam a gramática à porta «visto que» a não limparam na escola nem na universidade. Porque, «como vêem» neste pedaço de literatura, não lhes falta onde gastar o verbo sem dizer disparates – os que os dizem e só esses, claro, mas são muitos e muito persistentes.

Também há quem refira buscas nos escombros para encontrar «sobreviventes ainda com vida». Notícia seria encontrar sobreviventes mortos, isso é que era! Mas desde a ressureição de Jesus Cristo que não temos esse privilégio.

Como os preços dos bens de consumo estão a aumentar (e aumentar não é o mesmo que subir!) parece-me igualmente oportuno prevenir para outra ocorrência literária iminente: quando derem por isso e tiverem a coragem de denunciar que se trata de uma forma furtiva (duplamente furtiva) de reduzir o valor dos salários, não digam que a gasolina aumentou, que o pão aumentou, que o café aumentou – até porque é provável que tudo isto venha a diminuir. Digam sim que «o preço» da gasolina, do pão, do café, aumentou.

Ou então não digam nada; mostrem apenas esse belo sorriso que vos deu o emprego, como decidiu fazer a apresentadora de tv brasileira, Jackeline Petkovic (na foto).

Por falar em desemprego, não digam também «cu» desemprego está a aumentar. Guardem o dito para onde fôr chamado.

Nem comam as últimas sílabas das palavras porque uma coisa é o Papa e outra é o pá, o gajo, o bacano. Tanto stress verbal pode dar a impressão de que são pessoas importantes, sem tempo a perder. Mas perder a dignidade... profissional não é risco que se «corra».

Estou certo que os jornalistas competentes compreenderão o objectivo que «tenho em vista» e, mais que isso, comungarão do mesmo «ponto de vista».

2010/02/23

Televisão com som

Ao contrário do cinema que nasceu mudo, a televisão já nasceu a falar. E não dizia só papá, mamã, não quero sopa…
Início do cinema sonoro (1927)

Logo de início, a TV dizia tudo o que a deixassem dizer. De resto, era da rádio, da tecnologia da rádio, que lhe vinha a principal qualidade – a capacidade de se difundir pelo ar através de ondas electromagnéticas.

Mas o fascínio era, naturalmente, a transmissão de imagens, a "visão à distância" que a palavra tele-visão exprime. Daí que o som ficasse sempre com o estatuto de parente pobre da família áudio-visual. Já era assim com o cinema, em que o microfone reclamava a sua aproximação aos actores e a câmara protestava porque o dito aparelho de som se intrometia no plano quando não era simplesmente a sua sombra – e aqui a guerra com a câmara estendia-se aos projectores de luz. Operador de câmara, operador de áudio e iluminador viviam e vivem esta luta pela conquista de território, desde os primórdios deste mundo tecnológico.

Recordo um episódio… bizarro que se passou ainda no tempo em que a Televisão funcionava sem gravação (*) de imagem – ou transmitia em directo ou registava em filme. No caso, tratava-se de filmar uma conferência dada por um eminente estrangeiro que para o efeito estaria em Portugal. Coisa imperdível, portanto, em que a RTP não podia deixar de “estar presente”. E levou dois operadores de imagem, não um só, além do operador de som.

Chegados ao local, a realizadora combinou discretamente com os operadores de imagem a posição de cada um. Os restantes membros da equipa situaram-se de acordo com as funções que tinham a desempenhar e com a preocupação de não perturbar a sessão. Tudo normal, portanto.

Quando a realizadora achou por bem parar as filmagens, mandou recolher discretamente a equipa para um canto a fim de preparar a saída. Foi então que o operador de som lhe perguntou: « Já vamos embora?». Ela respondeu que sim, que já tinha a parte da conferência que interessava para o programa. Então o operador perguntou com a voz cândida de um inocente: «E não precisas de som?».

Só então nos demos conta, todos, de que ela não teve com o operador de som o mesmo cuidado que teve com “os câmaras” e que isso resultara num desastre para aquela reportagem irrepetível. Mais que isso, aprendemos todos – se o não sabíamos antes – que a obsessão pela imagem pode levar à destruição do que realmente importa.

* O registo de imagem em vídeo é gravação e não filmagem, ao contrário do que se vem dizendo em linguagem de amador.
Foto inicial: The Jazz Singer (1927) com Al Jolson

2010/02/19

Rostos da TV


A jovem apresentadora defendia em reunião de Produção, o que mais ninguém defendia. E quando sentiu que os seus argumentos não tinham o efeito que o seu estrelato devia merecer, arremessou contra tudo e contra todos:
- Mas eu é que dou a cara!


Fez-se um breve silêncio na sala que a responsável pela programação interrompeu num tom moderado:
- Hoje, é. Amanhã, vamos a ver.

Desta vez o silêncio foi total. E definitivo!

Já é diferente a reunião de Produção que trago a seguir.

Desta vez o programa é outro e o apresentador também, Um rosto muito conhecido da televisão portuguesa. Além de apresentador era também autor do programa. Às reuniões semanais com a equipa, levava habitualmente recortes da Imprensa onde se comentava o programa da semana anterior.

Lia passagens elogiosas com um despudor que só às vedetas é consentido. Mas confrontou-se a dado momento, por distracção ou não, com uma crítica desfavorável. Então, com um sorriso sarcástico, comentou:
- Há certos críticos que não deviam escrever a seguir ao jantar!

Não vou dizer quem foi. Mas para evitar equívocos deixo já esta ressalva: não é ninguém com cargo político.


1ª imagem: "Narciso" - recortado de "Echo and Narcissus" de John William Waterhouse.; 2ª imagem: "Mulher ao Espelho"

2010/02/17

Assim se vê... TV

Não posso garantir que Adão e Eva, eles só, tenham dado origem à Humanidade, tão vasta e tão diversa como ainda a conhecemos apesar das grandes guerras e outras guerras grandes e pequenas.

Mas posso garantir que todas as cores que vemos na televisão, incluindo aquelas que nos chegam do Paraíso, são filhas de três, três cores apenas.

Bem pode haver árvores castanhas que dão maçãs verdes e vermelhas, serpentes pintalgadas, ervas, tangas , chinelos e flores, laranjas, papagaios, e borboletas de todas as cores, que três latas de "tinta luminosa" são suficientes para reproduzir esse caleidoscópio que há na Natureza e na cabeça dos pintores.

Apresento-vos, pela segunda vez, mister Red, lady Green e sir Blue ! A família RGB. Daqui há só que misturar, para obter a cor da descendência. R com G dá Y (yellow, amarelo); se Green fôr com Blue vamos ter Ciano e se Blue fôr Red a coisa dá Magenta – que nada acontece por acaso!


Se juntarmos agora estes filhos com os primos, e os netos e bisnetos e por aí além, chegaremos depressa ao infinito – passe o exagero!

Esta explicação mereceu uma tremenda discussão na sala de formação de realizadores quando um colega meu, vindo da arte dos pigmentos, reclamou com justa exaltação que a mistura de cores não funciona assim. De facto, em pintura a “lógica” é outra. Mas quando se mistura luz com luz, na arte dos pixels, o efeito é o que mostra a figura anterior.

Por outras palavras: quando o António Polainas concebe o espaço cénico em que se vai sentar o José Rodrigues dos Santos, pensa em pigmentos; quando o Nicolau Tudela concebe as imagens virtuais do genérico, dos separadores ou das ilustrações específicas das notícias, pensa em pixels – e ambos pensam ao nível do que há melhor no mundo, posso acrescentar! (Saravá, amigos!).

Posto isto, torna-se mais claro por que os projectores de vídeo que encontramos nas salas de espectáculos ou no Metro, têm este aspecto.

(Se quiser saber mais e tiver muita paciência, pode consultar aí na Net,
ESTE SITE).