Nunca mais apanhei uma tosga como aquela.
Numa daquelas noites em que o militar se rende à nostalgia enquanto espera, quase indiferente, a noite derradeira, se quase todos dormem e só o arvoredo escuro em torno vela, há que puxar pelo sono que não vem.
E uma bebida forte, dessas que nos corroem a garganta, o estômago e o cérebro, é o que se aconselha para vencer esta guerra. Foi neste estado que me sentei e pedi ao soldado:
- Dá-me um café! Um café sem açúcar!
E enquanto esperava pela mistela amarga, voltei-me para trás e do púlpito tosco onde me sentava, proclamei um elogio inesperado ao amigo Álvaro que já estava deitado, talvez sonhando com a sua terra que não era aquela. Estávamos em Angola, destacamento da Cabaca, salvo erro, e do mundo onde nascemos só chegava a Lua e a saudade.
O elogio era às suas qualidades, as do Álvaro, um homem às direitas, um homem de esquerda – passe o paradoxo. Era nele que eu confiava e com quem discutia sobre este mundo e o outro, o mundo das ideias, dos valores, e da única guerra que era nossa, tão diferente daquilo a que fôramos mandados.
Firme no banco verde desbotado, voz de canhão arranhando-me a garganta, grandiloquente como qualquer borracho, eu dizia das grandes qualidades, da sabedoria, do humanismo do Nosso Furriel, e de como eu sentia o privilégio, e todos deveriamos sentir, de ter connosco o camarada Álvaro. Entretanto, Álvaro ressonava na caserna.
Quando me decidi a tomar o café, além de amargo já estava frio. E assim que o levei por onde antes passara vodka e whiski, caiu-se-me a cabeça no balcão e mais não digo ainda que me seja perguntado porque quando acordei estava já deitado, na caserna.
Passaram-se três anos, creio eu, quando falei com o Álvaro pelo telefone, eu já no Porto, ele na sua terra que a guerra para nós não foi o fim.
– Estiveste no comício do Palácio? – perguntou.
E antes que eu tivesse tempo para responder, acrescentou com uma sonora gargalhada:
- Foi uma festa. Os gajos ficaram à rasca.
Abreviando: o que é que se passou? Álvaro, grande amigo no "Ultramar", tinha participado numa provocação a um comício do Partido Comunista e disso me vinha dar notícia com grande entusiasmo como se a minha guerra ainda fosse a sua. Não sabia ele que por essa altura já eu era militante do partido que ele foi provocar – sem grande resultado, ao contrário do que ele imaginava.
Fiquei-lhe, então, a conhecer a veia esquerdista que o mato moderava para o tom em que a gente se entendia. Depois, o mêdo de expor até ao fim o pensamento de um e de outro, antes de 74, fez o resto, instalou o equívoco do nosso entendimento.
Não me lembro do seu segundo nome, mas não me esqueci do que aprendi com isto:
que o que se não diz faz muita falta.
Pintura acima: The Soldier Drinks, de Chagall
