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2016/08/12

Paris 3ª Parte

“Malgré tout”, os portugueses devem a Paris e aos franceses em geral, mais do que devem talvez a qualquer outro povo europeu.

A foto seguinte bem podia representar essa homenagem se as manifestações de vitória pessoal dos refugiados políticos e económicos fossem tão expressivas como as vitórias no futebol.


Com este reconhecimento sincero fecho o tríptico sobre a cidade.

«Finalmente!!!!! Isto pode ser o penico da Europa, mas que felicidade respirar a liberdade. Finalmente!!!!». Reproduzo de memória as primeiras palavras do Luelmo, na carta que recebi de Paris, dias depois que eu dei pela sua ausência no quartel e na casa que alugámos em Tavira. Seria 1970.

O Luelmo fugiu! O sacana pirou-se e nem me perguntou se eu queria fugir também. Já não estaria em Paris quando eu recebi a carta, que a prudência assim mandava. Creio que foi dali para Inglaterra e depois para a Suécia, aceitando vários trabalhos, mas disso não direi mais porque é falar da vida de terceiros.

Mais tarde, quando eu já “militava” num outro quartel e a mobilização para a guerra de África estaria por poucas semanas, a minha disposição para “dar o salto” já só dependia de saber como fazê-lo. Nunca o soube. Logo, o único salto que estava ao meu alcance era mesmo o que me destinava o regime: “para Angola, rapidamente e em força”!

Mas quantos Luelmos ficaram definitiva e justamente agradecidos por serem acolhidos ou poderem transitar por França para outros destinos democráticos! E quantos exilados políticos, como o professor Manuel Valadares em 1947, de quem fiz um documentário para a RTP. E quantos emigrantes clandestinos como o tio Joaquim, nomeadamente na grande vaga dos anos sessenta mas ainda hoje.


Deixo apenas referências pessoais porque não faltam fontes de informação acerca da emigração económica portuguesa para França e das mais prestigiadas figuras públicas dos nossos dias que encontraram em Paris refúgio para as perseguições salazaristas. Menos de uma semana antes do 25 de Abril de 1974, por exemplo, Álvaro Cunhal e Mário Soares, entre outros, estiveram reunidos em Paris!

Leia-se, enfim, nas expressões irónicas e sarcásticas dos meus artigos anteriores, uma homenagem à cultura de Liberdade que a França representa e apresenta.

2012/04/27

Depois de Abril

Em Abril de 1974, ocorreu o golpe militar que derrubou a ditadura que dominava o país havia mais de 40 anos.

Não só derrubou o poder político e militar mas também as suas instituições repressivas e de propaganda: a PIDE (polícia política), a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa, a Comissão de Censura e toda a administração pública formatada pelo regime persecutório e repressivo.
Foto recolhida do documentário de Ina.fr sobre a Guiné

Depois houve que pôr cobro à guerra colonial que Portugal travava em Angola, Moçambique e Guiné, dando-se então lugar à descolonização e à integração em Portugal, das famílias daqui originárias ou para aqui fugidas dos conflitos associados à descolonização.

Ao mesmo tempo e por iniciativa dos cidadãos progressistas, foram ocupados os sindicatos dependentes do regime e substituidas as respectivas direcções por novos elementos então eleitos democraticamente.

Cada uma destas operações, desde o golpe militar até à integração dos ex-colonos, passando sobretudo pela liquidação das instituições da ditadura, foi uma conquista concreta resultante da luta política de cada momento, contra resistências activas no seio da sociedade; não foi como aprovar um decreto num qualquer gabinete ou assembleia.

Desde os ataques violentos contra as sedes do Partido Comunista, até à marcha da chamada "maioria silenciosa" sobre Lisboa (ver foto de cartaz), em nome da "fidelidade ao programa do MFA", o processo revolucionário evoluiu passo a passo, combate a combate, contra as forças reaccionárias que se moviam fora e dentro das novas instituições.


Mas é na questão da guerra colonial que me quero centrar neste momento para trazer a quem não conhecer ainda, o excelente trabalho que um ex-combatente, Manuel Bastos, vem desenvolvendo sob a forma de blogue, depois na forma de livro e, finalmente, também sob a forma de leitura do livro em registo gravado de som e acessivel informaticamente.

Está AQUI e dele recorto apenas esta dedicatória inicial: «A todos os homens com coragem para lutar, a todos os homens com coragem para desertar, a todas as mulheres com coragem para perdoar a ambos» …

2011/05/21

A importância do protesto

Era noite em Angola, no Cuango. Ou foi na Cabaca? No isolado destacamento apareceram vultos agitados; no silêncio da floresta que nos rodeava, rompiam vozes atormentadas – era um pelotão que regressava de uma operação no mato e trazia um morto e vários feridos. Eles e nós, os que tinhamos ficado no aquartelamento, tentávamos organizar o socorro, acorrer aos mais necessitados. A certa altura o médico, alferes-miliciano, alertou para darmos atenção aos que não gritavam nem gemiam de dor. Afinal, era entre esses que estavam os doentes mais graves – os que nem força tinham para falar.

Por isso, quando vejo as manifestações que decorrem no Médio-Oriente e no Magreb, penso naqueles e naquelas que na mesma região se sentem impotentes para protestar, e quando assisto ás grandes concentrações em Madrid, penso em Cuba onde a repressão contra os direitos mais elementares dos cidadãos continua diariamente.

Ganha pois uma dupla importância o grito dos que têm capacidade para fazê-lo: exprimem as suas dores e chamam a atenção para as dores daqueles que nem gemer podem.

2010/06/12

Discursos redundantes

Enquanto eu varria um dilúvio doméstico e combatia algumas consequências graves que ainda não estão completamente sanadas nem sequer avaliadas, António Barreto aproveitava a tribuna do “10 de Junho” para varrer a Pátria com um discurso provocador, tanto quanto posso avaliar agora pelas “ondas de choque” que agitam a difusão social, blogues incluídos.

O Arrastão, fazendo jus ao nome, conseguiu com o assunto quase tantos comentários como "Generación Y" sobre o dia a dia cubano.

O senhor Daniel Oliveira intitula o artigo como “Os ex-combatentes”, mas o que provocou foi uma mobilização inaudita de novos e entusiásticos combatentes, completamente contrastante com a indignação dos "ex" que, como eu, foram arrastados para aquele exílio dourado – dourado pelo sol, entenda-se.

Nem eu seria digno da Pátria em que nasci se não trouxesse à liça uma história porventura engraçada daqueles dias – daqueles anos! – de terrorismo salazarista.

Tinha chegado nessa noite do Cuango, quilómetros de picada intransitável que seria moroso descrever, e gozava a relativa tranquilidade de Quimbele, sede da Companhia a que viera buscar mantimentos. Alguns camaradas de farda já estariam a dormir, talvez, e outros a discutir com as botas a posição exacta em que deviam ficar enquanto o dono dormisse – não por disciplina mas por superstição.

Então o furriel não se lembra de mim? O furriel deu instrução ao meu pelotão em Abrantes (julgo que foi ali). Eu que passara por vários quartéis antes de ir para África e fizera tanta coisa que não queria fazer, tinha a vantagem de esquecer o que fizera e nesse processo se apagavam as próprias pessoas que comigo se cruzavam por mero imperativo militar. Daí, não me lembrava.

Num generoso esforço para me recordar o que Deus me ajudava a esquecer, o soldado acrescentou: «Não se lembra que até nos falava de levarmos uns livros para a instrução, assim umas coisas de moral…». Como é próprio dos livros, fez-se luz no meu espírito!

Nos tempos mortos da instrução teórica eu aproveitei para sugerir que nos quotizássemos para comprar livros – coisa que no espírito simples daquele soldado arrancado à terra, era coisa de moral porque só o padre, lá na aldeia, fazia uso de tais instrumentos.

Que eu lhes tivesse falado de “A Mãe” de Gorki, como foi o caso na minha ingénua imprudência, ou de “A Virgem Mãe” (se tal livro existe) não fazia qualquer diferença para o grau de informação a que tinha acesso. Pobre de mim que falava de livros e não tinha a sabedoria de me fazer entender. Pobre António Barreto em quem ninguém mais acredita mesmo que fale do que todos entendem.

P.S.:
E para que não fiquem dúvidas de como sou esquecido, quando fui à procura de uma fotografia para este artigo descobri AQUI , que já tinha contado esta história! Valha-me A Mãe de Máximo Gorki. Nem os excessos de vinho me puseram neste estado a que cheguei por excesso de água.

2010/03/04

Angola é nossa irmã

Destacamento militar da Cabaca / Angola

A nossa guerra era de sobrevivência, não só às armas mas também ao tédio, ao cansaço, à aviação inimiga (os mosquitos), e às minas antipessoais mais irascíveis (que não as mais perigosas) - as malditas matacanhas e as formigas mordedoras.

Também havia as outras minas, é claro, as instantâneas e letais, e não se passou o tempo todo sem termos disso a prova e as vítimas, como se invoca nesta lápide onde inscrevi a legenda que invoca uma morte. (O militar que posa para a foto que recortei da Net, esse não conheço).*

Naqueles tempos em que a vida dos portugueses - até ao último soldado, como dizia Salazar - não valia nada em comparação com a propriedade das colónias, a rádio emitia uma espécie de hino onde se cantava "Angola é nossa". A expressão ainda hoje me causa calafrios.

Em vez de proclamar que Angola era nossa, sendo que todos os que me rodeavam - talvez todos - estariam dispostos a vender ou a dar a sua parte!, eu inscrevia muito discreta e inutilmente na pala do meu boné (o quico), a sigla A.P.A. que queria dizer "Angola Para os Angolanos". Ainda não era um posição anti-americana e menos ainda anti-soviética, era tão simplesmente anti-colonial - na minha cabeça e no meu cérebro apenas, visto que quase ninguém mais sabia o significado...!

Hoje que Angola se esforça por aumentar os níveis de exportação de petróleo que foram drasticamente reduzidos nos últimos meses, é caso para colocar-se esta questão filosófica: sendo o petróleo angolano uma componente do seu (sub)solo, importá-lo, apropriá-lo, é uma forma de colonização? Paradoxalmente, é o contrário.


No entanto, aquela era a leitura forçada que faziam os anti-comunistas acerca do apoio da União Soviética ao povo colonizado de Angola, assim como viria a acontecer com o apoio de Cuba e com o próprio apoio a Cuba por parte da URSS. A questão, portanto, não está no que se aliena mas sim na liberdade e no interesse legítimo de o fazer.

Não sei o que é que a União Soviética ou Cuba ganharam com o apoio que deram nas lutas de libertação de Angola, mas sei que foi com a sua ajuda que o hino colonial ganhou uma versão muito mais digna: «Angola é nossa, é nossa irmã»!

Pena é que esta fraternidade não beneficie da mesma maneira todos os membros da grande família angolana que é suposto ser o seu povo, mas nem os titulares das lutas de libertação escapam à moral do capitalismo quando esse é o sistema que preconizam.

Notas:
O militar que posa junto da lápide deve ser da Companhia que nos foi render. Recortei a foto na Net.
A menina que aparece na última foto é Isabel dos Santos, filha primogénita do presidente angolano.

2009/10/30

Bombons e napalm no Afeganistão

Ministre français des affaires étrangères, M. Bernard Kouchner espère toutefois «gagner les cœurs (des afghans) avec un gilet pare-balles». De son côté, le général McChrystal prétend : «Notre affaire, ce n’est pas de tuer le maximum de talibans, mais de protéger la population» . Une idée commune sous-tend de telles proclamations, au-delà du cynisme : celle que le développement social et les opérations de guerre peuvent être menés de front dans un territoire où, pourtant, il est impossible de distinguer les insurgés des civils. Au Vietnam, le journaliste américain Andrew Kopkind avait résumé d’une formule assassine ce genre de «contre-insurrection» : «Bonbons le matin, napalm l’après-midi.» SERGE HALIMI, em: Le Monde Diplomatique

Na guerra colonial que Portugal travou com os povos de África, chamávamos a isto “Acção Psicológica” e havia mesmo uma disciplina com este nome na formação dos militares. De resto, julgo que seja assim nas Forças Armadas dos outros países e desde muito antes de nós.

Na prática, e no caso da minha companhia, que me lembre, a coisa traduzia-se em dar assistência “clínica” às populações por onde passávamos em operação. Isto é, com um pouco de algodão, álcool, água destilada e mercúrio, executar actos médicos ou de enfermagem para que não estávamos geralmente habilitados – por mim falo.

O grande mentor desta táctica nas nossas forças, ao que constava, era o General Spínola. O certo é que nem os curativos nos livraram dos ataques dos guerrilheiros (a que o Governo chamava terroristas) nem Spínola "livrou" o país de perder a guerra. Se os meus curativos improvisados livraram alguma criança ou algum velho, das infecções a que estavam condenados quando os tratei, não faço ideia – que na acção psicológica pouco importa a quem a promove se as populações morrem ou sobrevivem. É o cinismo no seu máximo esplendor.

2008/11/02

As verdades do cacimbo

Quando vejo nos livros ou na Televisão os trabalhos de informação histórica sobre a guerra colonial portuguesa, fico espantado com a quantidade de coisas que eu desconheço acerca de uma guerra em que vivi durante dois anos. Mas quando leio os textos de Manuel Bastos, também ele ex-combatente, nada me parece estranho.


Eu ia lendo os seus contos no seu blogue e, de cada vez que lia, pensava: isto tem que ser publicado em livro. Cheguei a manifestar-lhe esta opinião, em comentário. Ele nunca respondeu a esta sugestão óbvia e isso fez-me pensar que já houvesse publicações que eu desconhecesse. Não sei se havia; sei que agora o Manuel Bastos vai lançar um livro onde decerto serão inseridos alguns ou todos os belos textos que foi vertendo para o seu blogue cacimbo.blogspot.com

Como homem do meu povo, como jovem dos anos 70, mais do que o "ex-combatente" que me fizeram à força - nos fizeram! -, apetece-me participar no lançamento. Será no dia 15 /Nov / 08 às 16 horas, na Casa Municipal da Cultura - R. Pedro Monteiro em Coimbra.

Entretanto, em jeito de homenagem e em forma de amostragem, recortei do seu blogue, arbitrariamente, esta passagem a meio de um post:


«Os consumidores de emoções rápidas aprendem a não penetrar na essência das coisas; entendem das coisas apenas o que o olhar apreende; fazem com toda a informação o que fazem com a comida, mastigada à pressa entre duas tarefas urgentes e inadiáveis, dado que toda a fast-food é apenas para defecar. Não poderão entender as emoções envolvidas numa frase assim, aparentemente banal, "Vai socorrer o Lemos", dita entre a vida e a morte, entre a coragem e o medo, entre o instinto primário de sobrevivência e o altruísmo, entre o cumprimento do dever e o sentido crítico. Não poderão entender que um acto que envolva risco para quem o pratica só merece ser considerado corajoso se não for gratuito ou exibicionista, e se for consciente; isto é, é preciso sentir medo para se ser corajoso».

2008/08/04

Guerra e mal-entendidos (3)

Foi de caixão-à-cova aquela bebedeira.
Nunca mais apanhei uma tosga como aquela.

Numa daquelas noites em que o militar se rende à nostalgia enquanto espera, quase indiferente, a noite derradeira, se quase todos dormem e só o arvoredo escuro em torno vela, há que puxar pelo sono que não vem.


E uma bebida forte, dessas que nos corroem a garganta, o estômago e o cérebro, é o que se aconselha para vencer esta guerra.
Foi neste estado que me sentei e pedi ao soldado:
- Dá-me um café! Um café sem açúcar!

E enquanto esperava pela mistela amarga, voltei-me para trás e do púlpito tosco onde me sentava, proclamei um elogio inesperado ao amigo Álvaro que já estava deitado, talvez sonhando com a sua terra que não era aquela. Estávamos em Angola, destacamento da Cabaca, salvo erro, e do mundo onde nascemos só chegava a Lua e a saudade.

O elogio era às suas qualidades, as do Álvaro, um homem às direitas, um homem de esquerda – passe o paradoxo. Era nele que eu confiava e com quem discutia sobre este mundo e o outro, o mundo das ideias, dos valores, e da única guerra que era nossa, tão diferente daquilo a que fôramos mandados.

Firme no banco verde desbotado, voz de canhão arranhando-me a garganta, grandiloquente como qualquer borracho, eu dizia das grandes qualidades, da sabedoria, do humanismo do Nosso Furriel, e de como eu sentia o privilégio, e todos deveriamos sentir, de ter connosco o camarada Álvaro. Entretanto, Álvaro ressonava na caserna.

Quando me decidi a tomar o café, além de amargo já estava frio. E assim que o levei por onde antes passara vodka e whiski, caiu-se-me a cabeça no balcão e mais não digo ainda que me seja perguntado porque quando acordei estava já deitado, na caserna.

Passaram-se três anos, creio eu, quando falei com o Álvaro pelo telefone, eu já no Porto, ele na sua terra que a guerra para nós não foi o fim.


– Estiveste no comício do Palácio? – perguntou.

E antes que eu tivesse tempo para responder, acrescentou com uma sonora gargalhada:
- Foi uma festa. Os gajos ficaram à rasca.

Abreviando: o que é que se passou? Álvaro, grande amigo no "Ultramar", tinha participado numa provocação a um comício do Partido Comunista e disso me vinha dar notícia com grande entusiasmo como se a minha guerra ainda fosse a sua. Não sabia ele que por essa altura já eu era militante do partido que ele foi provocar – sem grande resultado, ao contrário do que ele imaginava.

Fiquei-lhe, então, a conhecer a veia esquerdista que o mato moderava para o tom em que a gente se entendia. Depois, o mêdo de expor até ao fim o pensamento de um e de outro, antes de 74, fez o resto, instalou o equívoco do nosso entendimento.

Não me lembro do seu segundo nome, mas não me esqueci do que aprendi com isto:

que o que se não diz faz muita falta.

Pintura acima: The Soldier Drinks, de Chagall

2008/07/30

Guerra e mal-entendidos(2)

A vila de Quimbele, que me recorde, era uma rua, um quartel e um posto de correio, um café, um mercado (na foto, ao fundo) e algumas casas alinhadas de um e outro lado da rua de terra batida. Se era mais que isto, me perdoem os seus habitantes, decerto orgulhosos como eu da terra onde nasceram.
Foi de lá que partimos para o destacamento do Cuango onde me era destinado viver ou fazer pela vida durante ano e meio, se bem me recordo. Era lá que iamos depois buscar os mantimentos, as rações de combate e a correspondência que chegava “da metrópole”.

Anoitecia em Quimbele. O furriel C. já devia ter alinhado pela milésima vez as botas de forma milimetricamente paralela, e já teria assobiado uma dezenas de vezes, uma por cada folha que avançava na leitura de um livro qualquer. Eu aguardava o sono à porta da caserna. Junto de mim estava pelo menos o soldado cozinheiro, que sem ele não seria possível esta história que vos trago.

Não sei a que propósito, e não vou inventar para enriquecer a trama, falou-se de um tempo anterior, da instrução militar, dos quarteis da metrópole. E foi assim que ele me surpreendeu ao dizer que fui eu que lhe dei instrução. Para falar verdade eu não me lembrava de nenhum dos soldados a quem dei instrução em Portugal. De um modo geral, tudo o que era militar era uma mancha verde plasmada no horizonte.

- Não se lembra? Uma vez até esteve a falar connosco assim dumas coisas de moral...

Aqui desconfiei que era ele e não eu quem trocava as personagens da história. Alguém me imagina a ter conversas de moral naquela idade e naquelas circunstâncias? Mas que moral podia eu tratar?

- Até nos falou em a gente comprar uns livros...

Como é costume, os livros trazem luz e o que me parecia uma imagem obscura da memória do soldado, de repente ganha forma e tudo se esclarece. Agora sim, lembrava-me de ter utilizado um tempo que seria destinado a acção psicológica ou outro disparate desse género, para falar de alguma coisa que tivesse interesse para todos, para a vida interior que não para rastejar em lamaçais imaginários ou saltar valas onde se podem fazer pontes. Em todo o caso, como vamos ver, eu estava a fazer “acção psicológica” – isso não nego.

Aquilo de que eu falei com os soldados e que ele invocava agora em Quimbele, era de se criar uma biblioteca para o pelotão: cada um daria uma pequena quantia com que comprariamos alguns livros, e uma vez que eles circulavam por todos, isso oferecia muitas possibilidades de leitura.


E para que a proposta encontrasse apoio entre os circunstantes, falei sobre a vantagem de ler livros e fui ao ponto de dar um exemplo... impensável para aquelas circunstâncias. Nada mais, nada menos, do que A Mãe, de Máximo Gorki ! A história de uma mãe que, por amor ao filho, o ajuda nas suas actividades revolucionárias e se torna, como ele, comunista. Só isso!!!

Já se vê donde vinha a ideia do soldado: na aldeia onde vivia, certamente, nunca ouviu alguém falar de amor e livros que não fosse o pároco local. O raciocínio é compreensível e aceitável. O equívoco seria inevitável. Mas ainda me pergunto se foi um mal-entendido ou se, em última análise, não se tratava mesmo duma questão de moral.

Creio que só depois de regressar de Angola é que encontrei e li um livro que se chama “A superioridade moral dos comunistas”. Mas confesso que não fui eu que o escrevi.

P.s.: Escusado será dizer que fui aconselhado por um oficial a não levar avante aquela ideia, o que eu acolhi até porque não tive “feed-back” da proposta – pudera!

2008/07/25

Guerra e mal-entendidos

Há sempre mais histórias do que História. Por isso ninguém tem que admirar-se por haver ainda quem venha acrescentar ao que se publicou sobre a guerra colonial.
É o meu caso.

Destacamento de Cabaca (Angola)

Há mais de trinta anos que deixei de comer as rações de combate e o pó das picadas, e de beber a água infecta dos rios, as bebidas brancas que me levaram a uma doença crónica, as bebidas negras, isto é, feitas pelas mulheres negras das aldeias. Há mais de trinta anos que visto calças e camisas de cores diferentes, que escolho o que visto e o que calço. E o que digo.

Digo-vos isto porque há mais de trinta anos, e só agora me deu para contar.

Por onde começar? Bem, ele há um episódio de que não vou falar. Não sei mesmo se posso. Mas logo se verá, à medida que outros vão puxando a vontade de falar.

Você era da PIDE, não era? – pergunta-me um ex-soldado, trinta anos depois, num daqueles almoços de confraternização e exorcismo que as companhias organizam ainda, a fim de reunir os ex-camaradas da guerra.

Se eu era da PIDE? – repito, estupefacto.

Era, não era? – insiste, encorajado pelo álcool e pela necessidade de se libertar de uma dúvida obsessiva. Mas não me parecia que tivesse dúvidas; apenas a necessidade de ouvir da minha boca a confissão que sempre quisera arrancar-me.

Porque dizes isso? – Limitei-me a perguntar, acentuando assim a opinião que ele havia formado enquanto convivemos durante dois anos, fosse no mato agreste e ameaçador, plantio de minas, esconderijo de atiradores, fosse nas casernas de madeira semi-apodrecida. No nosso caso, apesar do isolamento, tinhamos por adquirido que ali não éramos atacados, o que fazia daquele espaço desolado..., a nossa casa. Ás vezes até correio chegava, vindo dos pais, da namorada, da madrinha-de-guerra, para quem tinha. E não raro me calhou ser quem distribuia essa correspondência, emprestando as minhas mãos às mãos de Deus que era, em última análise, quem podia mandar coisas tão sagradas.

É que você ficava sempre com um jornal da JOC, que eu recebia, e só me entregava mais tarde.

Cabe aqui explicar que o jornal Juventude Operária que possivelmente ainda existirá, pertencia a uma organização católica de jovens leigos (JOC) e passava alguma crítica indirecta ao regime, a coberto do caracter religioso da publicação. E é verdade que eu lia o jornal e só mais tarde o entregava ao destinatário.

Como se esta minha atitude “censória” não fosse suficiente para revelar a minha ligação à polícia política de Salazar, acresce um episódio passado no mato que o ex-soldado me recordou.

Uma vez eu estava a ouvir música no rádiotransistor – contou ele – e deu o Zeca Afonso a cantar “Os Vampiros”. E então você, muito intrigado, disse: - Acho que essa música não vai voltar a passar. E o certo é que não passou mesmo.

Nesta altura, e antes de perder todos os amigos que tenho, e o respeito de toda a gente que me conhece como antifascista, activista e militante da esquerda mais combativa, devo esclarecer como na altura esclareci o meu interlocutor, que os factos estavam todos rigorosamente descritos, mas a explicação era rigorosamente a oposta. Isto é: eu retinha o jornal porque, tendo sido eu próprio membro da JOC e colaborador do jornal, era inevitável o meu interesse em lê-lo. Mas para bebê-lo e não para vomitá-lo. E quanto à minha sentença sobre Os Vampiros, já se vê que era uma previsão fácil de quem sabia o sentido do poema e a acção repressiva e censória do regime em que viviamos.

Coluna onde seguia o correio para o Cuango

Dispenso-me de extrair desta história a lição que ela encerra sobre mal-entendidos e juizos precipitados. Uma lição que os nossos medos e os nossos preconceitos nunca permitirão que seja suficientemente aprendida.

Mas voltarei ao tema de guerra e mal-entendidos mesmo que acabe por não contar aquele que não devo.

2008-07-24
As fotos aqui publicadas são de Ivo Morgado e de Henrique J C Oliveira cuja Companhia nos substituiu. Recortei-as em:

http://www.prof2000.pt/users/secjeste/Arkidigi/AZaza001.htm