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2008/07/30

Guerra e mal-entendidos(2)

A vila de Quimbele, que me recorde, era uma rua, um quartel e um posto de correio, um café, um mercado (na foto, ao fundo) e algumas casas alinhadas de um e outro lado da rua de terra batida. Se era mais que isto, me perdoem os seus habitantes, decerto orgulhosos como eu da terra onde nasceram.
Foi de lá que partimos para o destacamento do Cuango onde me era destinado viver ou fazer pela vida durante ano e meio, se bem me recordo. Era lá que iamos depois buscar os mantimentos, as rações de combate e a correspondência que chegava “da metrópole”.

Anoitecia em Quimbele. O furriel C. já devia ter alinhado pela milésima vez as botas de forma milimetricamente paralela, e já teria assobiado uma dezenas de vezes, uma por cada folha que avançava na leitura de um livro qualquer. Eu aguardava o sono à porta da caserna. Junto de mim estava pelo menos o soldado cozinheiro, que sem ele não seria possível esta história que vos trago.

Não sei a que propósito, e não vou inventar para enriquecer a trama, falou-se de um tempo anterior, da instrução militar, dos quarteis da metrópole. E foi assim que ele me surpreendeu ao dizer que fui eu que lhe dei instrução. Para falar verdade eu não me lembrava de nenhum dos soldados a quem dei instrução em Portugal. De um modo geral, tudo o que era militar era uma mancha verde plasmada no horizonte.

- Não se lembra? Uma vez até esteve a falar connosco assim dumas coisas de moral...

Aqui desconfiei que era ele e não eu quem trocava as personagens da história. Alguém me imagina a ter conversas de moral naquela idade e naquelas circunstâncias? Mas que moral podia eu tratar?

- Até nos falou em a gente comprar uns livros...

Como é costume, os livros trazem luz e o que me parecia uma imagem obscura da memória do soldado, de repente ganha forma e tudo se esclarece. Agora sim, lembrava-me de ter utilizado um tempo que seria destinado a acção psicológica ou outro disparate desse género, para falar de alguma coisa que tivesse interesse para todos, para a vida interior que não para rastejar em lamaçais imaginários ou saltar valas onde se podem fazer pontes. Em todo o caso, como vamos ver, eu estava a fazer “acção psicológica” – isso não nego.

Aquilo de que eu falei com os soldados e que ele invocava agora em Quimbele, era de se criar uma biblioteca para o pelotão: cada um daria uma pequena quantia com que comprariamos alguns livros, e uma vez que eles circulavam por todos, isso oferecia muitas possibilidades de leitura.


E para que a proposta encontrasse apoio entre os circunstantes, falei sobre a vantagem de ler livros e fui ao ponto de dar um exemplo... impensável para aquelas circunstâncias. Nada mais, nada menos, do que A Mãe, de Máximo Gorki ! A história de uma mãe que, por amor ao filho, o ajuda nas suas actividades revolucionárias e se torna, como ele, comunista. Só isso!!!

Já se vê donde vinha a ideia do soldado: na aldeia onde vivia, certamente, nunca ouviu alguém falar de amor e livros que não fosse o pároco local. O raciocínio é compreensível e aceitável. O equívoco seria inevitável. Mas ainda me pergunto se foi um mal-entendido ou se, em última análise, não se tratava mesmo duma questão de moral.

Creio que só depois de regressar de Angola é que encontrei e li um livro que se chama “A superioridade moral dos comunistas”. Mas confesso que não fui eu que o escrevi.

P.s.: Escusado será dizer que fui aconselhado por um oficial a não levar avante aquela ideia, o que eu acolhi até porque não tive “feed-back” da proposta – pudera!

2008/07/25

Guerra e mal-entendidos

Há sempre mais histórias do que História. Por isso ninguém tem que admirar-se por haver ainda quem venha acrescentar ao que se publicou sobre a guerra colonial.
É o meu caso.

Destacamento de Cabaca (Angola)

Há mais de trinta anos que deixei de comer as rações de combate e o pó das picadas, e de beber a água infecta dos rios, as bebidas brancas que me levaram a uma doença crónica, as bebidas negras, isto é, feitas pelas mulheres negras das aldeias. Há mais de trinta anos que visto calças e camisas de cores diferentes, que escolho o que visto e o que calço. E o que digo.

Digo-vos isto porque há mais de trinta anos, e só agora me deu para contar.

Por onde começar? Bem, ele há um episódio de que não vou falar. Não sei mesmo se posso. Mas logo se verá, à medida que outros vão puxando a vontade de falar.

Você era da PIDE, não era? – pergunta-me um ex-soldado, trinta anos depois, num daqueles almoços de confraternização e exorcismo que as companhias organizam ainda, a fim de reunir os ex-camaradas da guerra.

Se eu era da PIDE? – repito, estupefacto.

Era, não era? – insiste, encorajado pelo álcool e pela necessidade de se libertar de uma dúvida obsessiva. Mas não me parecia que tivesse dúvidas; apenas a necessidade de ouvir da minha boca a confissão que sempre quisera arrancar-me.

Porque dizes isso? – Limitei-me a perguntar, acentuando assim a opinião que ele havia formado enquanto convivemos durante dois anos, fosse no mato agreste e ameaçador, plantio de minas, esconderijo de atiradores, fosse nas casernas de madeira semi-apodrecida. No nosso caso, apesar do isolamento, tinhamos por adquirido que ali não éramos atacados, o que fazia daquele espaço desolado..., a nossa casa. Ás vezes até correio chegava, vindo dos pais, da namorada, da madrinha-de-guerra, para quem tinha. E não raro me calhou ser quem distribuia essa correspondência, emprestando as minhas mãos às mãos de Deus que era, em última análise, quem podia mandar coisas tão sagradas.

É que você ficava sempre com um jornal da JOC, que eu recebia, e só me entregava mais tarde.

Cabe aqui explicar que o jornal Juventude Operária que possivelmente ainda existirá, pertencia a uma organização católica de jovens leigos (JOC) e passava alguma crítica indirecta ao regime, a coberto do caracter religioso da publicação. E é verdade que eu lia o jornal e só mais tarde o entregava ao destinatário.

Como se esta minha atitude “censória” não fosse suficiente para revelar a minha ligação à polícia política de Salazar, acresce um episódio passado no mato que o ex-soldado me recordou.

Uma vez eu estava a ouvir música no rádiotransistor – contou ele – e deu o Zeca Afonso a cantar “Os Vampiros”. E então você, muito intrigado, disse: - Acho que essa música não vai voltar a passar. E o certo é que não passou mesmo.

Nesta altura, e antes de perder todos os amigos que tenho, e o respeito de toda a gente que me conhece como antifascista, activista e militante da esquerda mais combativa, devo esclarecer como na altura esclareci o meu interlocutor, que os factos estavam todos rigorosamente descritos, mas a explicação era rigorosamente a oposta. Isto é: eu retinha o jornal porque, tendo sido eu próprio membro da JOC e colaborador do jornal, era inevitável o meu interesse em lê-lo. Mas para bebê-lo e não para vomitá-lo. E quanto à minha sentença sobre Os Vampiros, já se vê que era uma previsão fácil de quem sabia o sentido do poema e a acção repressiva e censória do regime em que viviamos.

Coluna onde seguia o correio para o Cuango

Dispenso-me de extrair desta história a lição que ela encerra sobre mal-entendidos e juizos precipitados. Uma lição que os nossos medos e os nossos preconceitos nunca permitirão que seja suficientemente aprendida.

Mas voltarei ao tema de guerra e mal-entendidos mesmo que acabe por não contar aquele que não devo.

2008-07-24
As fotos aqui publicadas são de Ivo Morgado e de Henrique J C Oliveira cuja Companhia nos substituiu. Recortei-as em:

http://www.prof2000.pt/users/secjeste/Arkidigi/AZaza001.htm