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2017/05/24

Perguntar não ofende

Sobre as reacções ao terrorismo do "Estado Islâmico":

Que aproveitamento está a ser feito pelos governos ocidentais no sentido de tolerar a sua política nacional em nome do combate ao inimigo comum?
Quanto custaria aos estados uma boa campanha de integração social e esclarecimento anti-terrorista, em comparação com os custos das medidas excepcionais de segurança necessariamente ineficazes?
Onde estão os discursos de autoridades religiosas islâmicas de repúdio pelos ataques terroristas e fazendo a pedagogia da paz? (Excepção feita ao imã da mesquita de Lisboa, David Munir, e à tomada de posição no primeiro congresso de Autoridades Religiosas Muçulmanas em Amã… em 2005 e de alcance ambíguo.)

2016/08/10

Paris não está a arder

Chovia em Paris enquanto Portugal, esse sim, estava a arder. O autocarro que me levou do aeroporto de Orly, terminou a sua viagem e a minha no Arco do Triunfo, um enorme calhau perfurado que parece ter caído de outro planeta, meteorito que aterrou no princípio do século XIX, sepultando muitos soldados desconhecidos de Napoleão e devastando uma larga área em seu redor.

Quase cem anos mais tarde, os franceses mandaram construir um brinquedo gigantesco que viria a inspirar as torres de lançamento de foguetões - digo eu. A isto deram o nome do seu projectista, o senhor Eiffel. Tivessem os franceses menos arrogância e mais imaginação e fariam como os portugueses que deram o nome de D. Luís à ponte projectada pelo mesmo engenheiro na cidade do Porto – apesar de tudo…

Quem fala assim dos grandes monumentos europeus, como eu falo, o que aprecia mesmo é gastronomia, já se vê. Mas que desilusão. À saída camioneta, descendo do "meteorito", pelos Campos Elísios, valha-nos Alá: tudo é caro e quase nada presta.

Aproveita-se o espectáculo que se oferece, por exótico, das muitas muçulmanas que por ali passeiam, mil rostos lindíssimos e olhos bem cuidados que espreitam pelos únicos rompimentos das vestes que usam e que mais me parecem orgulhosos sinais de identidade e apelos à curiosidade, do que imposição religiosa.

Serve esta referência para ligar o post, digo artigo, ao anterior, está-se mesmo a ver.


A foto-montagem foi criada para este blogue.

2015/01/15

Liberdade não é tudo

No dia seguinte aos recentes atentados em Paris, o Ministro do Interior francês condenou "com a maior firmeza, a violência e a profanação" ocorridas em alguns locais de culto muçulmano em França”.

Alguém faz o favor de explicar num francês melhor que o meu, que as suas palavras condenam… as caricaturas de Maomé feitas no Charlie Hebdon ? “Profanação é “o acto de retirar a algo o seu carácter sagrado, ou o tratamento desrespeitoso a algo que é considerado sagrado por um indivíduo ou grupo de indivíduos”. Quem o profanasse!

Na mesma linha de “coerência”, o “polemista” Dieudonné foi surpreendido às sete da manhã de quarta-feira, 14, na sua residência , por uma dezena de polícias que o interpelaram na frente dos filhos e o vão levar brevemente a julgamento, acusado de ter escrito na sua página do Facebook que se sentia «Charlie Coulibaly» - sendo Coulibaly o ihadista que atacou o mercado de produtos judeus.

Mas o que está em causa, a meu ver, é que a liberdade de expressão não é um fim em si, como tem sido apresentada, mas é um instrumento de boa convivência. Só assim faz sentido a repressão sobre Dieudonné como faria sentido a responsabilização dos autores de mensagens públicas profanatórias.

Outra questão é a abordagem do assunto do ponto de vista legal, que é a forma como ele está a ser tratado em França. Neste âmbito, parece que há um confronto entre a proibição de difamação de grupos religiosos, e a liberdade de expressão.

O que é proibido, diz-se, é a ofensa a pessoas individuais e não a instituições. E as caricaturas do jornal Charlie Hebdon referem-se a um símbolo religioso (uma personagem sacralizada para representar uma corrente religiosa, digo eu) e não a um indivíduo concreto. Quanto à incriminação de Dieudonné, é devida a um alegado “incitamento ao terrorismo”. Mas esta é uma abordagem que só interessa para efeitos jurídicos, acho eu.