Ensaio sobre a nossa cegueira

Somos um país de cegos que se deixa governar por outros cegos.

E nesta cegueira nos benzemos. E nesta cegueira nos coçamos. E nesta cegueira nos sentamos, nos ajoelhamos, pedindo esmola, humildemente, digo humilhadamente, cúmplices, fingidos, mansos - a culpa não é minha, é da minha vizinha; pois, o que vocês queriam era ir para o poleiro, cacaracá, cocorocó, cocó não paga IVA, ainda há quem se queixe, deixe mas é o homem governar que já nem se pode ir de férias descansado... Roma e Pavia não se fizeram num dia. "Mansos, a tua tia". Os homens estão lá há meia dúzia de semanas e já querias o quê? Deixem-nos trabalhar que eles lá sabem o que estão a fazer. Já agora somos todos economistas, não? Vocês andaram a comprar casas sem dinheiro e agora queriam o quê? Não comprassem. Quem não tem dinheiro não tem vícios. Vícios, sim! Se “o país” deve, paga. Ainda bem que há as instituições internacionais para nos ajudarem. Se não fossem eles a terra não dava batata espanhola, uvas de Itália e alho francês... da Bélgica. O alho, é que dava! E o mar dava o quê? Alguma vez se comeu peixe em Portugal antes da ajuda internacional?

Fico por aqui. Tudo o mais já disse o José Saramago no "Ensaio Sobre a Cegueira" de que transcrevo apenas esta passagem:

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

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2 Comments:

Blogger MM - Lisboa said...

Muito bom texto!

13 agosto, 2011  
Blogger Álvaro Lins said...

Para lá da retribuição da visita, cumpre-me dizer que gostei do que li!Não é elogio, até porque sou avesso a elogios fáceis. É uma constatação.
Na linha do texto apenas digo: ninguém nos mandou ter ambições de ambicionar viver melhor:)!
Isso é só para alguns!
Razão tinha o "Botas" quando dizia que os portugueses eram pobrezinhos, mas honrados!
Era assim que devíamos ter permanecido!
Desejar ter outro nível de vida?! Onde se viu?!
Saramago, como grande escritor e como homem de crenças sólidas, transcreveu aquilo que observou (e bem), uma sociedade putrefacta, onde os abutres ainda querem levar os restos.
Vou regressar

15 agosto, 2011  

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