18/12/2009

Heróis cobardes



Num POST de “Herdeiro de Aécio” que frequento com prazer e proveito intelectual, o seu autor apresentou uma tese que, na minha interpretação, mostra como algumas personagens da História, pretendendo-se heróis, se revelam cobardes quando está em causa defender a sua vidinha. No caso concreto trata-se de Andrei Vlasov.

Em defesa de Vlasov – só para ter o prazer de contrariar o estimado autor do post – a primeira ideia que me ocorreu, foi de imaginar o que aconteceria aos grandes heróis consagrados pela História – se os há pequenos – no caso de terem perdido as suas lutas e daí decorrer a sua tortura pelos vencedores. Tarefa árdua e ociosa, que além de obrigar a uma pesquisa fastidiosa, teria por conclusão uma hipótese mais ou menos fantasiosa.

Outra ideia, inspirada pelo método literário e cinematográfico, mas também pelo método indutivo das ciências, era pegar numa personagem supostamente exemplar e, com essa árvore, pretender retratar uma floresta humana; isto é, demonstrar que o comportamento de Vlasov era comum, normal. Mas esta ideia cheirava demasiado a sofisma para que o não fosse, e eu tenho os meus escrúpulos.

Da negação daquelas duas ideias – oh dialéctica bendita! – emergiu a solução que adoptei: negar a insinuada representatividade do caso Vlasov, afinal uma história individual, e negar a verosimilhança das confissões sob o efeito de tortura (ou ameaça de castigo físico cruel, se não é o mesmo).

Mas valerá a pena? Quem conhece Vlasov, afinal, além do António Teixeira e, seguramente, do meu amigo João Ferro? Ele não é Trotsky, por muito semelhante que fosse a sua crítica do regime soviético – que não a sua visão alternativa. Ele não é Kruchov ou Gorbachov… Ele não é senão uma figura apagada (!) da História, a quem eu, e António Teixeira antes de mim, fizemos o favor de atribuir alguma importância nos nossos blogues.

E que tal se falássemos de Himmler, o chefe da polícia nazista que abandonou Hitler e tentou entregar a Alemanha para os Aliados em troca de sua liberdade? Não teve melhor sorte que Vlasov, correndo no sentido contrário ao deste, mas sempre é mais conhecido.

Ok, eu sei que não temos que fazer um concurso de traidores...

Nota:
"O Beijo de Judas" de Michelangelo Caravaggio, inserido no topo deste post, não documenta as personagens desta história, como já terão reparado...

8 comentários:

jrd disse...

Mais perto dos nossos dias, ainda que num contexto diferente, temos um traidor com "T" grande, o biltre Pinochet.

intimidades disse...

egoismo, todos nos somos um bocado egoistas, o que fazemos com ele e que faz a diferenca

Jokas
paula

A.Teixeira disse...

É mais do que simpático da sua parte, António Marques Pinto, e promove-me na prática, quando considera que eu apresento teses quando eu me limito a contar uma história.

Se calhar é por ser sobre pessoas apagadas da História. O termo, perdoe-me, mas não é feliz, porque a história soviética daquele tempo está repleta de pessoas literalmente “apagadas” das fotografias… Serão pessoas discretas daquelas que só eu e o seu amigo João Ferro terão ouvido falar. Se calhar deliberadamente porque percorreram percursos sinuosos e toda as Histórias Oficiais – aqui é a da Grande Guerra Patriótica! – gostam de bons e maus e detestam sinusóides.

Se calhar o que lhe parecerá estranho terá sido eu não ter diabolizado o traidor. Mas quererá o António Marques Pinto, dado que escolheu o tema da traição, esclarecer-me aquilo que terá traído Vlasov: terá traído a pátria (em russo, a “rodina”), terá traído a causa comunista, ou terá traído a sua classe de origem? Ou terá traído todas? Ou uma combinação delas?

Porque já agora, e visto que o António Marques Pinto quer que eu me refira a alguém equivalente do lado alemão, eu também não vou seguir a sua sugestão de um dos “maus” como é o caso de Himmler. Que tal se escolher Friederich Paulus, outra pessoa “apagada” que eu até já mencionara no meu poste? O que achará o António que separará, para além do resultado final da Segunda Guerra Mundial, as traições daqueles dois generais (Vlasov e Paulus)?

antónio m p disse...

Não achei nada estranho que o António Teixeira não tivesse diabolizado o traidor. Eu próprio, se reparar, também não o faço. Pelo contrário, problematizo a diabolização que vulgarmente se faz destas personagens. E não é só porque não acredito no diabo, é por três ordens de razões que julgava ter explicitado com mais clareza:

1)Tenho dificuldade em fazer juízos morais sobre pessoas confrontadas com situações de violência em que eu nunca fui testado. Neste sentido é que eu questionei “o que aconteceria aos grandes heróis consagrados pela História no caso de terem perdido as suas batalhas e daí decorrer a sua tortura pelos vencedores.

2)Do ponto de vista (oficial) de Vlasov, combater o regime soviético colocava-o do lado do povo descontente – que o povo é muita e variada gente – e dos «muitos milhares dos melhores comandantes, incluindo marechais, que foram presos e fuzilados ou enviados para campos de trabalho, para nunca mais voltar» – como ele diria.

3)O contexto histórico e os sentimentos subjectivos das populações que lhe estão associados, criaram grandes equívocos na época, de que as biografias de Stefan Zweig dão testemunho, no plano pessoal, para citar um exemplo não-militar.

Nada disto santifica os comportamentos pró-nazis, a meu ver, mas quem tolera um Mário Soares que se apoia na CIA contra o PCP, pode bem olhar com alguma ligeireza moral para um Vlasov.

Quanto a este ser traidor, reconheço a complexidade do conceito. Como alguém já observou, a traição - se vitoriosa - passa a patriotismo.

Num processo revolucionário, traidor é o militar que volta as armas contra o exército que servia ou aquele que volta as armas contra a revolução? Spínola traiu a revolução socialista, a revolução democrática, o seu povo, o seu país? Otelo Saraiva de Carvalho traiu o Exército Português? E o que é o Exército Português no contexto de uma mudança de regime?

Parece que somos forçados a considerar que trair é um verbo transitivo, isto é, carece de complemento directo, só faz sentido quando se refere o objecto da traição.

Parece claro que o conceito de “traição nacional” é diferente do conceito de traição moral. Esta aplica-se a Judas – na versão tradicional – visto que não traiu por convicção mas por interesse pessoal, material.

Quanto a Vlasov, e mesmo que fosse por convicção, ou por mudança de convicção, que ele tivesse mudado de trincheira, o facto é que passou do exército de um país para o exército de outro país no contexto de uma guerra, e esta circunstância não escapa ao conceito militar de traição. A que não terão escapado também alguns beijos como se usava ou usa naquela região.

antónio m p disse...

De Friedrich Paulus, tanto quanto julgo saber, já teriamos que falar em rendição mais do que em traição, mas chegados aqui é manifesto que o jogo das palavras pode ser perigoso para avaliar comportamentos em contextos tão difíceis.

Dizer que Paulus traiu Hitler, pode fazer sentido; fazer disso um juizo de valor, é difícil, pois são as circunstâncias e não as convicções que determinam estes comportamentos. Embora para mim seja uma virtude, por si só, trair Hitler, e uma segunda virtude salvar a vida dos soldados.

Como já morreram todos, dispenso-me de dizer mais que isto: não queria nenhum deles como amigo.

João Moutinho disse...

É um deleite apreciar a vossa dialética.
Já fiz um comentário no "outro" blog acerca deste assunto.
Se bem que não seja isto que se esteja a discutir é de referir que o Paulus voltou com vida á Alemanha.
Dos 24 generais alemães 23 volatram com vida.
Dos 106.000 homens só 6.000 voltaram com vida.
Na Antiga União Soviética as hierarquias eram muito a sério.

antónio m p disse...

João Moutinho, agradeço a sua contribuição para este palratório. Registo a distinção de classes que demonstra existir entre os generais e os homens... Que tomada à letra seria mais uma distinção de espécies, hehe.

Digo isto com simpática ironia, entenda, ou não fosse eu admirador de Vasco Gonçalves, por exemplo.

João Moutinho disse...

A distinção de espécies existia também nos Americanos.
É o caso do Von Braun, oficial das SS e que matou mais prisioneiros com as suas experiências do que cidadãos ingleses com as "salsichas voadoras".
As vantagens de ser religioso é que de alguma forma acreditamos "cá se fazem lá se pagam".