02/01/2018

Festas de caca

Os piores dias do ano são o 25 de Dezembro e o primeiro de Janeiro. Não tenho grandes dúvidas sobre isso.



Na noite de Natal,  uma genuina benfeitora, porventura uma avó generosa, trabalha mais que noutro dia qualquer para inventar um dia feliz para a toda a família – um conjunto heterogéneo de pessoas que não se encontram nem querem encontrar durante todo o resto do ano é encaminhada para um improvisado templo particular onde se celebra uma falsa comunhão. É uma espécie de bodo aos pobres-de-alma, que dura o tempo de uma ceia, e findo o qual regressa cada um à sua solidão, frustrado porque o milagre da sagrada família não passou de uma ilusão.

No dia seguinte, 25 de Dezembro, acorda-se para o vazio interior com fome de felicidade. Também as ruas estão vazias, as lojas fechadas, os cafés, os restaurantes, encerrados... A cidade parece ter sido devastada e os poucos que se atrevem a percorrê-la assemelham-se a fantasmas aturdidos. Os únicos sinais de vida são os amontoados de lixo que a véspera derramou. É a cagada do Natal.

Mas o povo não desiste e, uma semana depois, organiza uma noite de arromba, a noite de fim-de-ano. Agora a família é toda a gente e o templo é a praça pública, a maior que houver; o presépio é um palco gigantesco e profusamente iluminado, com muitos meninos e meninas contratados para provocar excitação com música e barulho e beijos alcoolizados. É a festa pela festa e bem-haja quem puder ou souber aproveitar porque esta vida são dois dias e o dia seguinte vai ser uma desgraça.

O dia seguinte, primeiro de Janeiro, é feriado para que as pessoas acordem devagar para a realidade do ano novo que começa. Novamente as ruas estão vazias, as lojas fechadas, os cafés, os restaurantes, encerrados... E a cidade fantasma oferece uma imagem de destruição aos seres que a percorram em busca de um resto de felicidade, de alegria, de vida ao menos. Mas tudo o que terão para desfrutar são garrafas vazias, copos partidos, lixos sortidos e muito abundantes. É a porcaria do ano novo.

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