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2011/08/24

Líbia na contra-informação

Na batalha da Informação em curso, relativamente à Líbia, a razão encolhe e os edifícios dilatam.

Assim é para Metro Gael que se difunde como jornalista mas que na verdade é o nome de um blogue em que o autor não se identifica. Segundo ele(*), a reportagem da Al Jazeera sobre a ocupação da Praça Verde de Tripoli, pelas forças rebeldes, não passa de uma encenação. Segundo Miguel Urbano Rodrigues e alguns seguidores imprudentes, “ele” fala verdade – a verdade a que temos direito...


Isto é, a Praça Verde, de Tripoli, ou uma parte dela, terá sido “reconstruída cenograficamente” num estúdio do Qatar (assim como os americanos fazem para os filmes de cow-boys, estão a ver?) e os rebeldes não passavam de figurantes inseridos nesse “décor” artificial – tudo a fingir, portanto.

Aquilo que a Al Jazeera mostrou, foi isto:



A suposta desmontagem que faz o anónimo autor do Metro Gael consiste em comparar a imagem anterior com a “verdadeira praça” que documenta com a foto seguinte:

E para demonstração de que a primeira é uma falsificação, assinala algumas “diferença grosseiras” na arquitectura. Por exemplo, o formato dos arcos e da moldura em relevo na parede que encima um dos arcos.



Ora eu que já puz o Cardeal Policarpo a discursar na Alameda D. Afonso Henriques sem que ele precisasse de sair dos estúdios da RTP, ao tempo na Av. 5 de Outubro, fico espantado com a capacidade de produção audiovisual do Qatar, mesmo sem ignorar a sua riqueza e desenvolvimento!

A menos que o mentiroso da fita seja o anónimo autor de Metro Gael e que não haja nenhuma diferença entre as duas imagens para além da compressão a que as ditas são sujeitas, voluntariamente ou não, quando se recebe no televisor um formato de imagem diferente daquele que foi produzido ou emitido. É o caso de vermos em formato panorâmico uma imagem produzida para o formato 4x3 ou vice versa.

No caso das fotos anteriores, basta expandir ou comprimir as fotos para que a arquitectura se recomponha. E até convém, porque a foto vertical não convence nem um cego, de tal modo as pessoas ficam esguias, os passeios laterais definham, etc. E os automóveis? Repararam no formato dos carros? Como tudo é estranho... na Líbia.

A seguir comparo a imagem comprimida que Metro Gael nos oferece, com a imagem por mim rectificada a partir dela, por expansão adequada (descompressão).

Conclusão: Metro Gael mente acusando outros de mentirem. Mas se o faz a favor do nosso lado, há que aproveitar. Como se as ambiguidades do processo não fossem suficientes. Como se "resistir.org" merecesse este engano.

(*) Metro Gael, aparece na Net como autor de um blogue onde se diz irlandês;a viver em Paris onde escreve semanalmente uma coluna para o blogue Metro Eireann. De Metro em Metro ainda não percebi quem é o homem, se é homem.

2011/04/04

Comunistas primários

Assim como acontece com os anti-comunistas, também os comunistas podem ser classificados em “primários” e... normais. O amigo R. a quem nós chamávamos carinhosamente de Staline (!), identificava-se com o comunismo primário, uma grelha simplificada e deformada de análise que comprime as diversidades em dois campos, como se a Humanidade vivesse entrincheirada e o mundo fosse um cenário de guerra. Esta visão levava-o a considerar com toda a facilidade que Gorbachov não passou de um traidor, que Mário Soares era agente da CIA e que eu sou “uma folha seca”, como diz secamente Jerónimo de Sousa.

Se o amigo R., fosse ignorante, podia vir a ser esclarecido; se fosse estúpido, podia ser perdoado, mas ele era outra coisa: um comunista primário. Como os anti-comunistas primários, não tinha por onde evoluir, escolhera aquela personagem e representava-a, com ou sem convicção, em todas as circunstâncias.

Este método infantil de análise política e social ocorre hoje com patética exuberância nas “Reflexiones” de Fidel Castro e nas “conversas em família” de Hugo Chavez, mas também num vasto espaço do movimento comunista assumido e organizado que não se fica pelo Partido Comunista Português e até abrange sectores que simplesmente, simplificadamente, se inscrevem no anti-imperialismo à maneira do século passado. Instalados em conceitos formais, barricados no medo de arriscar, repudiam as lutas populares e os seus apoiantes se não forem lideradas por homens da sua confiança política, se não seguirem atrás duma bandeira que se confunda com a sua. Sob o manto diáfano das bandeiras em que confiam, poderão revelar-se regimes corruptos, injustos, violentos, que sempre terão a confiança destes amigos incondicionais. O anti-imperialismo tudo justifica.

É assim que parece ganhar força a corrente que condena a intervenção da ONU na Líbia, que é como quem diz, que se coloca do lado da família Khadafi contra a família líbia, do lado do ditador contra o movimento de protesto democrático. Uma corrente que parece ganhar força porque os revoltosos se revelam cada vez mais frágeis no confronto com as forças armadas do regime.

É uma interpretação estranha de “libertação dos povos”, de “internacionalismo”, de socialismo. É a visão de quem nasceu para combater os dinossauros e faz disso o seu objectivo de vida mesmo que eles tenham sido extintos há 65 milhões de anos – não percebendo que os animais mudam de tamanho e de forma como tudo o que é vivo; não percebendo ou não querendo perceber os fenómenos contraditórios e conflituais que se desenvolvem no seio dos próprios países.

A intervenção estrangeira nascida para impedir um massacre na Líbia, pode descambar apesar de todas as garantias e reservas declaradas pelos países intervenientes, mas não é pelo desvio que se identifica o caminho. Mais, é na medida em que somos autores do traçado que temos autoridade para corrigir os desvios.

Num processo de desfecho incerto há uma certeza que conviria reter: a aspiração de um povo à liberdade política e cívica, à dignidade, à democracia. Importando menos ou em segundo plano, se os revoltosos são estudantes, operários, comerciantes ou religiosos. Ou antigos soldados com a bandeira da Líbia pré-Khadafi – para voltar à questão das vestes com que se apresentam as revoluções.

A questão não é saber se a Revolução Francesa ou o "25 de Abril" alcançaram plenamente os objectivos populares mas saber se estes beneficiaram com aquelas lutas.

2011/03/25

Para memória presente


Em Fevereiro de 2011, Muammar Khadafi reagiu violentamente contra os manifestantes a quem chamou de "ratos de esgoto".

Os ataques de Khadafi usaram artilharia pesada e aviação militar contra civis, provocando centenas de mortos logo na primeira semana dos protestos.

"O que estamos testemunhando hoje é inimaginável. Aviões de guerra e helicópteros estão bombardeando indiscriminadamente uma área após a outra. Existem muitos, muitos mortos", afirmou a testemunha Adel Mohamed Saleh, em declarações ao vivo à Al Jazeera.