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2016/10/17

Jornalismo à caça

O nome de Pedro Dias é repetido à exaustão com ou sem necessidade. Onde se usaria normalmente uma forma como “ele”, “este”, “aquele”, ou outro modo  de designação como “o autor de”, “o suspeito”, etc., o próprio nome é usado até à náusea para emprestar às narrativas a força dramática que lhes falta. É um sintoma da subjectividade com que repórteres e pivots do audiovisual tratam o assunto.

O cuidado legal de o tratar como “presumível” assassino, isso então só voltará ao código deontológico do jornalismo quando já não houver memória de Pedro Dias. É “a caça ao homem” levada a cabo pelos orgãos de… informação.
Neste contexto de irracionalidade apetece transcrever as declarações do “homicida de Aguiar da Beira” em entrevista… simulada! a este blogue.

ENTREVISTA
CP (Contém Palavras) – É verdade que matou a tiro um guarda e um civil neste processo em que está a ser procurado pela Polícia?
PD (Pedro Dias)- Sim, é verdade, mas é preciso compreender as circunstâncias.
CP – Isto tudo começou quando o Pedro foi abordado pela GNR junto ao edifício inacabado de um hotel, em Caldas da Cavaca, Aguiar da Beira…
PD – O que é que levou a GNR ao meu encontro naquele lugar? Essa deveria ser a pergunta fundamental para compreender o desenlace desta tragédia.
CP – A GNR diz que a patrulha se encontrava já ali “a fazer operações no terreno” quando encontrou o automóvel com o Pedro Dias. Estaria a fazer o patrulhamento de rotina…
PD – Admitindo que sim, que apareceram ali por acaso… Quando se aproximaram de mim, apontaram as suas armas e um deles disparou.
CP – Um dos guardas disparou?
PD – Exactamente. Só que em vez de me atingir a mim, atingiu um colega dele. Parece que isso já foi reconhecido por eles próprios.
CP – Sim, mas não se disse que esse foi o primeiro tiro a ser disparado.
PD – Pois não, o que se diz é que fui eu que disparei primeiro. Mas eu só disparei depois de me tentarem alvejar primeiro. Quando vi que me queriam matar, tive que atirar para me defender.
CP – E porque é que a GNR havia de querer matá-lo assim?
PD – Eles receberam uma informação via rádio, de que eu seria um tipo muito perigoso, e terão ficado assustados. Isso pode ter levado a uma precipitação.
CP – Portanto a sua versão é que um dos agentes se precipitou, disparou um tiro sem razão e você ripostou em sua defesa.
PD – Exactamente.
CP – Mas o guarda que disparou terá visto algum gesto suspeito da sua parte ou uma arma…
PD – Estava muito nevoeiro. É possível que isso o tenha desorientado, não sei.
CP – Mas o Pedro estava armado!?
PD – Sim, estava. Mas eles não sabiam. De resto, se não estivesse armado tinha sido morto.
CP – E como explica a morte do civil…
PD – Quando eu tentava arranjar alimentos e furtar um carro para fugir,  fui surpreendido pelos moradores que reagiram e eu tive que neutralizá-los.
CP – A partir daí…
PD – Foram as circunstâncias…

2011/08/17

Nós, eles e o inferno

De Hitler a Pinochet, de Bush a Ratko Mladic, e muitos antes e depois e entretanto, a História está cheia de genocidas-lobos para quem a Justiça, quando bate à porta, já as chamas do inferno se apagaram. Eu desta vez venho falar apenas dos cães rafeiros.



Ninguém está mais habilitado a falar do Inferno do que um preso vulgar. Logo a condenação o retira da vida, o retira à vida. Com as roupas e tudo o que deixa à entrada na prisão, ele despe a personalidade, deixa de ser pessoa. Daqui em diante deixará de ter direitos e vontade, passará a ter regras para cumprir, será obediente como um cão – desejará ser cão para não saber que é um homem desumanizado. É a estratégia do camaleão: adaptar-se ao meio para se proteger.

Na melhor das hipóteses, para ele, nasceu e foi criado na lixeira da sociedade – no espaço da cidade onde os homens sobrevivem da esmola e do crime, são considerados e se consideram marginais, não usam a palavra dignidade porque não tem sentido em suas vidas, não respeitam ninguém porque ninguém os respeita... Na melhor das hipóteses, para eles, a violência nas prisões que tanto nos comove, a nós que somos cidadãos de plenos direitos, é o clima a que estão “habituados”. Afinal sempre deve custar menos viver no inferno quando se é diabo.

O que os prende e reprime, a eles que nasceram e cresceram no inferno, é a própria cidade que nós dominamos, isto é, a forma como estão estruturadas e como funcionam as sociedades modernas – organizadas pelos e para os privilegiados que somos nós neste contexto. Mais do que condená-los, os tribunais acusam-nos, a nós, de desumanidade para com os que nascem na miséria. Na miséria de tudo, entenda-se.

Não quero comover-me e comover-vos com descrições de violência habitual ou excepcional, com os abusos e com os desesperos, os suicídios, as autoflagelações mais escabrosas – fica assim apenas esta referência abstracta.

Na melhor das hipóteses, para eles, praticaram crimes. Porque isso lhes dá uma razão para estar preso e para tudo o que daqui decorre. O pior de tudo é sofrer sem razão.

Talvez por absurdo se possa inferir que o genocida motivado por “razões” supostamente ideológicas, as tenha em tão grande consideração que a prisão lhe seja facilmente suportável – é a sublimação do sofrimento. Talvez não haja nada de absurdo nesta tese, afinal. E sendo assim, só a desconstrução da "sua razão" o poderia castigar realmente com o merecido sofrimento associado à culpa – e não tanto por causa do criminoso quanto para exorcismo das vítimas sobreviventes, familiares incluídos.

Tudo isto conduz - pretendo eu - a uma filosofia sobre a repressão do crime violento que sugere métodos de castigo e regeneração de novo tipo: independentemente da privação da liberdade, o criminoso deve ser conduzido a perceber que a sua própria razão o condena pelo crime que praticou. Isto obriga o agente da Justiça a conhecer as motivações e a desmontá-las ou a confrontar a sociedade com elas.

2007/09/13

crimes sem remorso

Indivíduos que são inteligentes e que são capazes de raciocinar bem, tornam-se monstros sociais quando eles não sentem "emoção social", que é a base da moral, do sentimento que está certo ou errado, etc.

António Damásio , neurologista português

PSICOPATA
Segundo a teoria pela qual uma pessoa psicopata é uma pessoa perversa, supõe-se que nesta classe o doente é um sujeito que se mantém a par da realidade, mas que carece de Superego. Isto faz com que a pessoa psicopata possa cometer actos criminosos sem sentir culpa.

SUPER-EGO
O super-ego é inconsciente, é a censura das pulsões que a sociedade e a cultura impõem ao id, impedindo-o de satisfazer plenamente os seus instintos e desejos. É a repressão, particularmente, a repressão sexual. Manifesta-se à consciência indiretamente, sob forma da moral, como um conjunto de interdições e deveres, e por meio da educação, pela produção do "eu ideal", isto é, da pessoa moral, boa e virtuosa.

Nota: O Id é a estrutura da personalidade original, básica e central do ser humano, exposta tanto às exigências somáticas do corpo às exigências do ego e do superego.

RESPONSABILIDADE
Do ponto de vista penal, existe o dilema, amplamente discutido, sobre se uma personalidade doente é imputável, especialmente se é de origem psicótica. Mesmo que se trate de uma personalidade doente (exemplos: pessoas sádicas, violadoras, etc.) há tendência para sustentar que há uma punição correspondente, dado que, mesmo doente, a pessoa mantém consciência dos seus actos e pode evitar cometê-los.

Os psicopatas muitas vezes conseguem entender que seus atos são errados, porém não conseguem se autodeterminar com relação ao seu entendimento. Ocasionando com isso, os crimes bárbaros, e na maioria das vezes, podem, os psicopatas, tornarem-se assassinos em série.
(Textos extraídos da Wikipedia)


EXCERTO de um texto de Renato M.E. Sabbatini, em http://www.cerebromente.org.br/n07/doencas/disease.htm :


O indivíduo sociopata geralmente exibe um charme superficial para as outras pessoas e tem uma inteligência normal ou acima da média. Não mostra sintomas de outras doenças mentais, tais como neuroses, alucinações, delírios, irritações ou psicoses. Eles podem ter um comportamento tranqüilo no relacionamento social normal e têm uma considerável presença social e boa fluência verbal. Em alguns casos, eles são os líderes sociais de seus grupos. Muito poucas pessoas, mesmo após um contato duradouro com os sociopatas, são capazes de imaginar o seu "lado negro", o qual a maioria dos sociopatas é capaz de esconder com sucesso durante sua vida inteira, levando a uma dupla existência. Vítimas fatais de sociopatas violentos percebem seu verdadeiro lado apenas alguns momentos antes de sua morte.

Os sociopatas são caracterizados pelo desprezo pelas obrigações sociais e por uma falta de consideração com os sentimentos dos outros. Eles exibem egocentrismo patológico, emoções superficiais, falta de auto-percepção, pobre controle da impulsividade (incluindo baixa tolerância para frustração e limiar baixo para descarga de agressão), irresponsabilidade, falta de empatia com outros seres humanos e ausência de remorso, ansiedade e sentimento de culpa em relação ao seu comportamento anti-social.

Eles são geralmente cínicos, manipuladores, incapazes de manter uma relação e de amar. Eles mentem sem qualquer vergonha, roubam, abusam, trapaceiam, negligenciam suas famílias e parentes, e colocam em risco suas vidas e a de outras pessoas.

Os sociopatas são incapazes de aprender com a punição, e de modificar seus comportamentos. Quando eles descobrem que seu comportamento não é tolerado pela sociedade, eles reagem escondendo-o, mas nunca o suprimindo, e disfarçando de forma inteligente as suas características de personalidade.

Os próprios sociopatas se descrevem como "predadores" e geralmente são orgulhosos disto. Eles não têm o tipo mais comum de comportamento agressivo, que é o da violência acompanhada de descarga emocional (geralmente raiva ou medo) e nem ativação do sistema nervoso simpático (dilatação das pupilas, aumento dos batimentos cardíacos e respiração, descarga de adrenalina, etc).

Seu tipo de violência é similar à agressão predatória, que é acompanhada por excitação simpática mínima ou por falta dela, e é planejado, proposital, e sem emoção ("a sangue-frio"). Isto está correlacionado com um senso de superioridade, de que eles podem exercer poder e domínio irrestrito sobre outros, ignorar suas necessidades e justificar o uso do que quer que eles sintam para alcancar seus ideais e evitar consequências adversas para seus atos.

Por exemplo, em Justine, o personagem que incorpora o Marquês de Sade diz que tudo é justificado quando o objetivo é a gratificação de seus sentidos, e que a ele é permitido usar outros seres humanos da forma como ele desejar para aquele propósito.

O distúrbio sociopático também está altamente associado com a incidência de abuso de drogas e alcoolismo. De fato, esta associação piora os aspectos do comportamento sociopático, assim considera-se que eles são mutuamente reforçadores.

(Este texto foi sujeito a cortes e realinhamento para o blogue)