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2010/03/02

Jornalistas, precisam-se.

“Como estão a ver na imagem” é uma expressão obsessivamente “recorrente” no discurso verbal da televisão. Mas se estão a ver, só pode ser na imagem.

A menos que se trate de linguagem metafórica mas «está-se mesmo a ver» que não é o caso. Neste sentido, ver é perceber, como se... percebe. Portanto, amigos jornalistas, antes de entrarem nas nossas casas, «vejam se» limpam a gramática à porta «visto que» a não limparam na escola nem na universidade. Porque, «como vêem» neste pedaço de literatura, não lhes falta onde gastar o verbo sem dizer disparates – os que os dizem e só esses, claro, mas são muitos e muito persistentes.

Também há quem refira buscas nos escombros para encontrar «sobreviventes ainda com vida». Notícia seria encontrar sobreviventes mortos, isso é que era! Mas desde a ressureição de Jesus Cristo que não temos esse privilégio.

Como os preços dos bens de consumo estão a aumentar (e aumentar não é o mesmo que subir!) parece-me igualmente oportuno prevenir para outra ocorrência literária iminente: quando derem por isso e tiverem a coragem de denunciar que se trata de uma forma furtiva (duplamente furtiva) de reduzir o valor dos salários, não digam que a gasolina aumentou, que o pão aumentou, que o café aumentou – até porque é provável que tudo isto venha a diminuir. Digam sim que «o preço» da gasolina, do pão, do café, aumentou.

Ou então não digam nada; mostrem apenas esse belo sorriso que vos deu o emprego, como decidiu fazer a apresentadora de tv brasileira, Jackeline Petkovic (na foto).

Por falar em desemprego, não digam também «cu» desemprego está a aumentar. Guardem o dito para onde fôr chamado.

Nem comam as últimas sílabas das palavras porque uma coisa é o Papa e outra é o pá, o gajo, o bacano. Tanto stress verbal pode dar a impressão de que são pessoas importantes, sem tempo a perder. Mas perder a dignidade... profissional não é risco que se «corra».

Estou certo que os jornalistas competentes compreenderão o objectivo que «tenho em vista» e, mais que isso, comungarão do mesmo «ponto de vista».

2009/11/24

Nutissias

«Marcelo Rebelo de Sousa só concorre se não tiver concorrência»
Pergunto: Como é que se concorre se não há concorrência?

«Ahmadinejad tem desenvolvido relações com os países latino-americanos como Venezuela, Bolívia, Nicarágua, com líderes conhecidos pelas suas posições anti-americanas».
Pergunto: Os países mencionados não são americanos? Como podem ter posições anti-americanas?

«Erosão da costa portuguesa está a levar zonas do país a recuar 10 metros por ano»
Pergunto: A Espanha está preparada para receber novos territórios? Ou é só a costa e não a zona que recua?

«Livro sobre o Porto lançado em Gaia».
Pergunto: E Gaia aguenta com o Porto inteiro? Ou a ideia é outra e a crise já chegou às vírgulas? É que nem Saramago...

Estes exemplos de "boa literatura", entre outros, estão no JN de ontem, 23 de Novembro. “A não perder”, como diria o Mário Crespo. Mas se já não encontrar essa edição, pode encontrar textos semelhantes noutras edições e noutros jornais...

2009/11/17

Ensino instável

«Fontes Pereira de Melo, faz parte da proxima materia que vamos dar na disciplina de história. Foi um homem muito importante que devolveu a Portugal, a paz e instabilidade politica». Assim escreve num blogue uma turma do 8º ano...

Em comentário, uma colega deles escreve assim:
« Boas! Cultura geral é sempre importante! bj.»

Considerando a quantidade e a qualidade dos erros na escrita, as questões que eu coloco são as seguintes:

1) Será por falta do Magalhães?
2) Se o nosso Ensino e a nossa Cultura continuarem como estão, aonde vamos parar?
3) O que dirão os nossos "homens do futuro" sobre Cavaco Silva e José Sócrates quanto à sua contribuição para a... instabilidade?

Cuidem-se, senhores importantes!

2009/09/09

Asfixia da gramática

A ver se nos entendemos: asfixia democrática ou democracia asfixiada? Ou tanto faz? Socialismo democrático ou democracia socialista é a mesma coisa? E grande mulher é o mesmo que mulher grande? Manuela Ferreira Leite quer a verdade acima de tudo ou tudo acima da verdade? Ou tanto lhe faz?


Poderia fazer sentido para George Bush que ele qualificasse como asfixia democrática a forma como assassinou Sadam Hussein, mas será disso que estamos todos a falar, políticos, jornalistas, doutores e gente de mais humilde condição?