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2017/11/07

Cheque ao rei Filipe VI


Qualquer coisa me diz que a crise política da Catalunha tem pouco a ver com Rajoy mas tudo a ver com Filipe VI.

Independência e república, as reivindicações do movimento independentista, não são tanto questões da competência do chefe de governo mas sobretudo do domínio do chefe de estado: soberania e regime.

Disto deu sinal o rei quando proferiu um discurso severo em 3 de Outubro. Onde disse "Estamos viviendo momentos muy graves para nuestra vida democrática" deve ler-se "... para nuestra vida monarquica".

Outro sinal, este vindo de Rajoy, é a frase que este usa sempre para responder às pretensões dos independentistas: "Não posso! É contra a constituição". Ora "não posso" é diferente de "não quero". Ainda que Rajoy não possa nem queira, entenda-se, ele invoca o chefe do estado em matéria de competência e invoca a constituição em matéria de legitimidade - que outra coisa se esperaria que fizesse?

Enquanto torres, cavalos e bispos partidários protegem Rajoy, este protege o rei e Puigdemond procura juntar as pedras que tem e as que ainda não tem. E o jogo continua, felizmente em ambiente desportivo.

2016/11/30

Elegemos com o coração

À hora a que escrevo este texto, o primeiro-ministro português, republicano, oferece um jantar de boas-vindas aos monárquicos reis de Espanha. A diferença ideológica entre um e outros é tão irrelevante para o convívio político, quanto a ementa.

Como já se viu, a população está mais interessada (exclusivamente interessada?) na beleza do casal Filipe e Letícia e nos seus sorrisos do que nas suas ideias. E não é uma simples questão de “alienação de massas”, é porque eles são a representação viva de um mito alimentado ao longo de milénios: de que os reis e raínhas são deuses humanos.

Mas esta relativização da importância das ideias em relação ao fascínio das pessoas em si mesmas, está presente em circunstâncias mais comuns. Ela pesa também nos critérios com que os cidadãos elegem os seus “ídolos” políticos.

Será que elegemos com o coração?

Foi impróprio mas não foi destituído de verdade o que disse Jerónimo de Sousa acerca da primeira volta das eleições presidenciais: que o Partido Comunista teria melhores resultados se tivesse “arranjado uma candidata mais engraçadinha”. Referia-se à candidata Marisa Matias do Bloco de Esquerda. Mas o fenómeno Mariana Mortágua, do mesmo partido e por maioria de razão, é outro exemplo indisfarçável, embora involuntário, deste efeito de sedução na política.

Bom proveito, magestades! Bom proveito, Portugal!

2014/06/03

España y sus borrascas


Entre o rescaldo do terrorismo e a erupção do separatismo, entre umas eleições europeias em que os dois partidos "do arco do poder", o PSOE e o PP juntos, não atingem 50% dos votos expressos e em que a renúncia do rei Juan Carlos parece levantar mais clamores contra a monarquia do que amores pelo sucessor Filipe VI, a Espanha vive um período tempestuoso.

Do ponto de vista optimista, para o regime instalado, o terrorismo agoniza, o separatismo cristaliza, as eleições não são legislativas e o príncipe Felipe tem boas condições para ser eleito chefe de estado de uma eventual república.

Neste contexto, está aberto um espaço de debate e de conflitualidade cuja evolução parece depender mais de algum erro do que da assertividade das forças em confronto, mais da precipitação do que da serenidade. Flutuar e dar pequenas braçadas parece ser mais prudente do que expor-se em terreno aberto - este estará mais reservado às forças sociais. 

Pelo menos até que estas ganhem confiança num quadro político novo que se vá desenhando. Ou aparentemente novo.