2008/11/01

Obrigado, avô.

À urna, pela República

Não perca tempo à procura deste assunto no SITE da Presidência da República. Não vem lá. E teria que vir? Afinal já foi há cem anos... !


A CML remete o assunto para a sua Agenda ( agendalx.pt, secção Festivais)de onde transcrevo:

«Para evocar a vitória do Partido Republicano Português nas eleições municipais de Lisboa de 1 de Novembro de 1908, que transformou a cidade numa das primeiras capitais republicanas da Europa, tendo sido um dos eventos que marcou o caminho para a instauração da República a nível nacional, a Câmara Municipal de Lisboa (CML), através da Direcção Municipal de Cultura, promove um conjunto de eventos para comemorar o Centenário da Primeira Vereação Republicana em Lisboa.
Obrigado, meu avô, pela tua coragem, pelo teu sacrifício.

2008/10/31

Cambia, todo cambia.

Los líderes reunidos en la XVIII Cumbre Iberoamericana subrayan la importancia de no sacrificar las políticas sociales con la crisis como argumento.
Foto EFE / El Pais.com 2008Out31
Los líderes regionales apostarán por una "participación universal, democrática y equitativa" en el debate y solución de la actual crisis financiera que azota las economías mundiales, según el borrador de declaración, en el que también expresarán su "determinación de participar y contribuir activamente en un proceso de transformación profunda y amplia de la arquitectura financiera internacional, que establezca instrumentos de prevención y respuesta inmediata ante futuras crisis y garantice una regulación eficaz de los mercados de capitales".

Las soluciones a la crisis, según ellos, no deben de pasar por una merma de las políticas sociales. Por ello, apuestan por adoptar "las medidas necesarias para proteger el empleo y la inversión, garantizar la disponibilidad de financiamiento para las actividades productivas e impulsar políticas sociales que beneficien en particular a los sectores más vulnerables de sus sociedades".

Por último, recuerdan la "responsabilidad del sistema financiero de los países desarrollados en la actual crisis" y la "urgencia de una conclusión satisfactoria y equilibrada para las negociaciones multilaterales para la Ronda de Doha, tomando plenamente en consideración los intereses de los países en desarrollo".

(Entretanto, enquanto José Sócrates andava a vender computadores:)

El ministro de Relaciones Exteriores de Brasil, Celso Amorim, ha informado hoy que habló con la representante de comercio de Estados Unidos, Susan Schwab, para solicitar que España y otros países en desarrollo estén presentes en la próxima cumbre del G-20. Las gestiones diplomáticas brasileñas se han llevado a cabo, a pesar de que el presidente José Luis Rodríguez Zapatero no pidió el apoyo explícito a su homólogo brasileño, Luiz Inácio Lula Da Silva, durante la reunión que han mantenido en el marco de la Cumbre Iberoamericana que se celebra en San Salvador.

El Pais 2008-10-30

Alguém se lembra ainda do G-7? Que diferença, apesar de tudo... É caso para lembrar aquela magnífica canção de Mercedes de Sosa: «Cambia, todo cambia».

2008/10/30

Mariza no coração dos russos

Roubo a José Milhases esta reportagem sobre a forma como a nossa Mariza é vista e ouvida na Rússia. Porque as apreciações dizem tudo o que eu próprio penso – incluindo a atenção aos músicos, tantas vezes e tão injustamente menosprezados:

O crítico musical (Serguei Sossedov, no jornal electrónico km.ru) afirma ainda que "nessas baladas canta-se o quotidiano dos habitantes desse país, as suas tristezas, alegrias, buscas espirituais, sonhos, esperanças e, claro, o amor".


Sossedov chama também a atenção para o "trabalho brilhante" dos guitarristas: "nos seus dedos, cada corda não só soa de forma penetrante, como parece conversar connosco".Sobre a cantora, o crítico russo não hesita em compará-la com Cesária Évora mas "Mariza é vinte mais vezes expressiva, quente e sensual", conclui.

Por seu lado, a revista Joy afirma que "esta bela jovem canta fado, e isso significa que canta em português. Os temas tocados com equilíbrio e sensualidade, a mestria hispano-portuguesa da guitarra acústica e a voz sentimental de Mariza são precisamente aquilo que é necessário às pessoas cansadas do ritmo enlouquecedor das grandes cidades", conclui.

2008/10/28

Dar ao pedal na RTP

Acabo de ver o José Rodrigues dos Santos atrapalhando a leitura do Telejornal enquanto dava ao pedal. Chegamos a isto: a RTP, de acordo com a sua gestão de emagrecimento irracional, dispensou , mesmo nos directos, o trabalho de operadores de teleponto que accionavam a passagem do texto à medida que é lido pelos apresentadores. Agora os próprios apresentadores são obrigados a acumular aquela tarefa.

Não é fácil, não é recomendável, não é próprio, mas é barato.
E a Televisão não escapa à onda, digo, à pedalada.

Por este caminho ainda havemos de ver os pivots a pintar o cenário, o que, em alguns casos que não o citado, só lhes fazia bem... Para já, vamos assistindo às gafes inevitáveis porque os pedais são máquinas mas o cérebro é humano – ainda que desse mais jeito à gestão, que assim não fosse.

É caso para dizer: Aguenta-te, ó Zé! E força no pedal.

2008/10/24

As palavras da crise

O drama financeiro e económico a que assistimos, abre espaço a todas as especulações sobre um futuro próximo e longínquo que os governos asseguram que será controlável mas que os opositores garantem que será desastroso. O regresso à desgraça de 1929 é invocado por uns como inevitável e repudiado por outros como improvável. Eu próprio me atrevi a invocar AQUI esse episódio histórico.

Com teses tão autorizadas e contraditórias de quem não foi capaz de prever os maiores dilúvios politicos das últimas décadas, a implosão do bloco socialista e a crise financeira em curso, estamos à vontade para dizer... nada. Mas a pressão dos media, que já me levou a ter opiniões sobre futebol, força-me agora a ter opinião sobre economia e finanças. Afinal, se alguém previu alguma coisa com a devida antecedência, foi o meu pai quando me encaminhou para essa área de formação! Que eu tenha dado mais importância a “O Capital” do que a “Formação Política e Organização Corporativa”, já é da minha responsabilidade e dos que eu acompanhava. Alguém tinha que, modestamente, arrancar as urtigas e plantar os cravos...

Apesar de tudo, ou por tudo aquilo a que já assisti(mos) durante essa jardinagem, nem o optimismo oficial me descansa, nem o pessimismo militante me arrasa. Partilhando, como raro acontece, a posição da maioria, observo intranquilo.

Nesta posição de observador “a revelação da verdade” parece ocorrer descontinuada e analiticamente, ora numa frase, ora numa tese, ora numa ideia ainda mal explicitada...
Mas há desde logo neste emaranhado, um conjunto de palavras que ganham uma presença obsessiva numa rigorosa ordenação histórica: desregulamentação do mercado ou livre concorrência, produção em larga escala, procura deficitária, empréstimos, hipotecas, juros, moderação salarial, desemprego, endividamento, bancos, crise, recessão... (Com alguma sorte não chegaremos à palavra xenofobia). No princípio e no fim deste comboio é inevitável ler a palavra “capitalismo”.

Se o produto dialectico das duas crises sistémicas, do socialismo e do capitalismo, for um novo sistema que emerge dos anteriores – seguindo a tese marxista de que o novo já existe potencialmente no seio do velho –
é de esperar uma nova ordenação de expressões verbais se venha a afirmar: regulação do mercado, política de pleno-emprego, juros fixos, desenvolvimento sustentado e participação democrática plena. No lugar da máquina deste comboio é inevitável ler “estado social”. Ou expressão sinónima.

Mas isto, reconheço, ainda não é ciência; é só necessidade. A necessidade de evitar que 1929 seja invocado pelo próprio devir e agravada pelas novas circunstâncias da mundialização imediata dos fenómenos político-económicos.

2008/10/21

A minha crise económica


O meu avô, trabalhador ferroviário, conseguia amealhar uns tostões que mais provinham de uns biscates que fazia na loja de um vizinho do que do seu salário magro como um carril de comboio.

Amealhar era, não pouca vezes, esconder no forro do colchão. Mas se disso sabia toda a gente, a minha avó também. E bem depressa, numa inspecção periódica a que não faltaria, haveria de tomar o que houvesse, por empréstimo a fundo perdido e sem juros, ávida como estava de ir às compras, fosse por uma saia que não tivesse vergonha de levar à missa, fosse por uma sertã, a que no sul se chama frigideira, de que estava precisada há vários anos... Por uma flores esperaria ainda uma jarra vazia, que o tempo não era para luxos.

Das humildes poupanças, pois, do meu avô, e dos parcos lucros do vizinho, se juntava no banco um "pé de meia" que, mais juntando de uns e outros, ia enchendo o papo do banqueiro e o seu guarda-fatos, as suas jarras de flores e ainda sobrava para emprestar a juros ao Ti Manel Tijolo que apesar do nome era um tipo esperto, dedicado desde cedo à construção do que mais tarde se viria a chamar de imobiliário.

Vai meu avô penando e aforrando à custa da barriga, vai minha avó cozinhando as tripas, e Ti Manel Tijolo acumula negócios que já é mais conhecido na Banca do que minha avó na mercearia.

De tantas voltas darem o mundo e os comboios, chegou a minha vez de entrar nesta história. Vou ter com o filho de Ti Manel, herdeiro da arte e do negócio do Tijolo, para comprar uma casa para mim e para a família que de mim vier. Negócio puxa conversa e lá se acertou o preço ao que se seguiria o pedido de empréstimo.

No dia D, vá-se lá saber se é de Deus ou de Diabo, fui eu à banca pedir emprestado aquele dinheiro, afinal, que o meu avô lhes havia anteriormente confiado. Com grande relutância aparente, mais arrogância do que convicção, abriu o banco os cordões ao cofre, virtualmente, claro, e fechou-se o negócio nos termos que se seguem.

O banco emprestava-me os 20.000 contos e eu reembolsava-o a prestações ao longo dos anos. Do valor daquelas prestações não havia conta certa; certo era apenas que o banco ganhava aquilo que eu perdia.
Passam mais uns comboios, mais uns anos, e vão-se-me as poupanças para a inflacção dos preços e o congelamento do salário, ficando sem poupança e quase sem colchão, minha mulher e eu aprendendo a cozinhar açorda, meus filhos à espera de nascerem e a banca, cada vez mais mais gorda, batendo à porta de recibo na mão. Não tarda, é a Polícia: "Operação Hipoteca ! Abra e saia!".

Saia?... Se ao menos minha avó tivesse comprado a saia, o meu avô não emprestava à banca as suas poupanças e esta, sem dinheiro, não me endividava.

É isso! Assim que esta crise for ultrapassada, o que eu vou fazer é comprar um colchão de palha.