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2013/01/22

Mali em contexto (2)

O Mali é uma das nações mais pobres do mundo. Como se isso não bastasse, os combates que decorrem na região obrigam a população a fugir aterrorizada para os países limítrofes.

São conhecidas as barbaridades cometidas por alguns grupos islâmicos extremistas, mas também é sabido que as forças do governo prenderam, torturaram e mataram tuaregs, aparentemente por razões étnicas... apenas.

Em Setembro do ano passado, por exemplo, estas prenderam 16 clérigos que se dirigiam a uma conferência religiosa e executaram-nos sumariamente.


Tudo isto parece explicar a missão “humanitária” que representaria a intervenção internacional naquele país. Mas a incoerência das forças internacionais nestas matérias fazem pensar noutras motivações.

Os interesses norte-americanos no Mali vão realmente para além da questão política. Num contexto em que o governo chinês promove fortemente as suas relações económicas com África, e em que a China é a maior importadora dos produtos do Mali, há quem pense que isto pesa mais nas preocupações do governo dos EE. UU. do que o combate ao terrorismo internacional, naquele país.

Contrariando a tradicional hegemonia dos EUA no continente africano, os países deste continente abastecem em grande quantidade a China, com minério e energia e acolhem cada vez mais investimentos.

Quanto à França, parece que a luta quase pessoal de Hollande contra os combatentes da Al Qaeda colhe popularidade junto da população francesa, embora o coloque numa posição frágil pelo desfecho que ela possa ter, e os partidos políticos à sua direita e à sua esquerda mostrem reservas sobre a preparação e os riscos que esta intervenção apresenta. Mélenchon, na esquerda política, alega inclusivamente, contra esta intervenção, que “os interesses fundamentais da França não estão em causa” no conflito interno do Mali.

Se não são “fundamentais”, que interesses estão em causa no Mali, onde há cerca de seis mil cidadãos franceses, para além da questão da segurança?

O Mali tem a terceira maior produção de ouro na África, o qual é extraído na região sul. E, como se lê numa página electrónica do Ministério da Economia e Finanças de França,
 «La France n’est plus le premier investisseur étranger au Mali, mais reste le partenaire le plus visible par le nombre d’implantations commerciales(...). En 2010, on recense près de 60 filiales et sociétés à capitaux français (participations minoritaires incluses). On dénombre par ailleurs près d’une soixantaine d’investissements privés réalisés par des ressortissants français ou binationaux installés au Mali, dans l’hôtellerie, la restauration, le bâtiment, les services». Indicador não menos significativo é que a Air France tem uma ligação diária por dia com o Mali.

Além de ouro e urâneo, o país possui destacadas reservas de cobre, diamante, manganês, ferro, fosfato e outros metais, além da possibilidade de se tornar importante exportador de petróleo – com a maioria das reservas localizadas na região norte.

A instabilidade no continente africano é tanto mais grave para a França quanto é certo que os países limítrofes do Mali, nomeadamente, são produtores de materiais essenciais à indústria francesa. Esta indústria abastece-se, em grande medida, de energia nuclear, cuja produção depende do urâneo fornecido pelo Niger!

Dos interesses ocidentais instalados na Argélia, mas sobretudo do conflito destes com as forças rebeldes da região, não têm faltado notícias por estes dias nos meios de informação pública.

2013/01/20

Mali em contexto

Depois de ter sido colónia francesa até 1961, a que sucederam duas ditaduras, o Mali viveu como país soberano e democrático a partir de 1991.

Nisto teve um papel fundamental o general Amadou Toumani Touré que ficou conhecido como “soldado da democracia”.


Em 1992, Touré negociou a paz com os rebeldes e em 2002 foi eleito presidente. Reeleito em 2007, cumpriria normalmente este mandato até Junho de 2012 se não tivesse ocorrido um golpe de estado apenas a três meses desta data!

Com efeito, em Março daquele ano, um golpe de estado afastava o “soldado da democracia” que era agora acusado pelos revoltosos, de ser frouxo no combate ao avanço do Movimento Nacional pela Liberação de Azawad (MNLA), grupo separatista islâmico da etnia Tuaregue.

De notar que o MNLA concorre na tomada de poder no norte do Mali, com o grupo islâmico Ansar Dine: o primeiro luta pela independência de Azawade, enquanto o segundo pretende introduzir a lei islâmica (sharia) em todo o país, mas defende a integridade territorial do Mali.

Consta que os dois grupos, que não são os únicos, têm ligações com a facção da Al-Qaeda no norte da África, conhecida como Al-Qaeda no Magrebe Islâmico… cuja especialidade é sequestrar ocidentais em troca de resgates!

Intervenção estrangeira

O presidente francês François Hollande afirmou no dia 14 de Janeiro que a intervenção militar no Mali era “a única solução” para “libertar o país” e preservar sua integridade territorial, isto é, impedir que grupos rebeldes islâmicos que já controlam o norte do Mali assumissem o controle de todo o país, transformando o Mali no que ele chamou de "um Estado terrorista" que poderia ameaçar o restante da África e da Europa.


Segundo o governo francês, o próprio governo interino de Mali pediu a ajuda francesa quando os rebeldes avançaram até assumir o controle de Konna.

A iniciativa da França conta já com o apoio da maioria dos países europeus e também dos Estados Unidos. Mas também diversos países africanos começaram a enviar tropas "para ajudar o governo do Mali".

Entretanto, nos meios de comunicação franceses já se manifestaram preocupações com a intervenção, dizendo que ''é fácil entrar, mas difícil sair''. Até porque os próprios oficiais do exército francês admitem que os rebeldes estão mais bem armados e melhor organizados do que se imaginava.

E afinal, o que move realmente todos estes países? É o que tentarei abordar no próximo artigo.

2008/09/07

Angola quer !


Dados os interesses políticos e económicos em jogo, e as fragilidades do regime, não é difícil encontrar pretextos para a contestação legítima da Oposição angolana. Outra coisa é saber qual será a estratégia que melhor serve os angolanos, neste contexto. E se a Oposição ganha mais em capitalizar créditos de vítima enquanto não espera ganhar estas eleições, ou alimentar uma desestabilização de que o partido no Poder tirará proveito como força de “reposição da ordem”. Tanto mais que em 2009 haverá eleição para a presidência.
Depois de um primeiro acto eleitoral realizado em 1992, só agora se assiste a um segundo. Concorrem a este, dez partidos e quatro coligações.

Por todo o país, o eleitorado está distribuído em 12. 274 assembleias de voto, com o total de 37.995 mesas, assistidas por 266.000 agentes eleitorais.
Em Luanda, onde são assinaladas irregularidades burocráticas, foram criadas 2.584 assembleias de voto.

O presidente da CNE anunciou, na sexta-feira, que as 320 Assembleias de voto onde foram registadas irregularidades, iriam funcionar a partir das 07h00 de Sábado para permitir que todos os eleitores de Luanda exercessem o seu direito cívico.

Segundo afirmou, esta excepção é possível porque a Lei Eleitoral assim o permite. "O Regulamento da Lei Eleitoral permite-nos realizar o acto num segundo dia de forma excepcional", afirmou Caetano de Sousa.

Há quem se questione sobre as garantias de que as urnas de voto não serão violadas; há quem se questione sobre se não houve intenção premeditada de criar os problemas que se registaram, visto que houve todo o tempo para preparar o acto eleitoral, mas há também quem se questione sobre se as irregularidades, pelo caracter burocrático e pelo número limitado onde ocorreram, deverão pôr em causa umas eleições cuja realização, por si só, representam um passo importante na evolução democrática e sobretudo representam um estímulo à confiança dos angolanos nas possibilidades da paz e da democracia.
Uma coisa ficou demonstrada neste processo eleitoral: que o povo merece, que Angola quer !