Devido, em grande parte, à redução do preço do petróleo no mercado mundial, a economia angolana passa por uma das suas piores crises.
É o resultado talvez inevitável em qualquer país que tenha andado a nadar em petróleo quando este valia ouro, descuidando a diversificação da economia para fazer face à desvalorização da sua fonte de riqueza mais generosa.
A semelhança entre Angola e a Venezuela nesta matéria, por exemplo, é não só o choque económico mas também o choque político decorrente daquele. A diferença está na resposta que um e outro país dão ou não dão ao problema. A diferença, enfim, é que Angola parece estar a dar uma resposta inteligente.
Nicolás Maduro pode ter lido Karl Marx, tal como José Eduardo dos Santos e João Lourenço, embora sem a profundidade destes, mas contentou-se com as teses da luta de classes e da ditadura do proletariado. Não desenvolveu o Pensamento Económico. Eduardo dos Santos, é certo, desenvolveu-o a seu jeito…
João Lourenço, o novo presidente de Angola, está a adoptar medidas correctivas das práticas políticas e sociais, tão ajustadas como inusitadas. Se é por causa da crise económica e das exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), com vista a um futuro programa de apoio, dir-se-ia que “há (alguns) males que vêm por bem”.
Os constrangimentos a que terá que submeter-se para satisfazer a senhora Christine Lagarde (FMI) de tão má reputação na Europa e na América Latina, são conhecidos e reiterados: “é importante tentar reduzir a grande presença do Estado na economia”. Segundo ela, existe um programa de reestruturação de empresas públicas angolanas que inclui o encerramento de 48 e a privatização de outras 53...
Em todo o caso, o povo angolano não há-de estar disponível para uma nova forma de colonização e poderá criar, na complexidade dialéctica deste processo, uma nova e fecunda oportunidade.
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2017/11/19
2017/09/02
Um lado obscuro de Angola
Para ser mais rigoroso, o título devia dizer "O lado oculto e obscuro das campanhas em Portugal contra o MPLA".
Sempre foi claro para quem quisesse ver, que as motivações de João Soares ou Maria Antónia Pala, Torres Couto e Manuel Monteiro, entre outra gente, não era a corrupção ou a falta de democracia, mas sim as cumplicidades ideológicas destes activistas.
Independentemente dos pretextos que o regime angolano de José Eduardo dos Santos ofereça às campanhas que se desenvolvem em Portugal contra ele, são motivações anti-progressistas que movem este conluio, tal como se passa com a Venezuela.
O recente artigo do Expresso sobre Savimbi, ajuda involuntariamente a esclarecer estes meandros da militância anti-MPLA que decorre em Portugal desde o início das lutas de independência de Angola. Recomenda-se por esta razão!
Sempre foi claro para quem quisesse ver, que as motivações de João Soares ou Maria Antónia Pala, Torres Couto e Manuel Monteiro, entre outra gente, não era a corrupção ou a falta de democracia, mas sim as cumplicidades ideológicas destes activistas.
Independentemente dos pretextos que o regime angolano de José Eduardo dos Santos ofereça às campanhas que se desenvolvem em Portugal contra ele, são motivações anti-progressistas que movem este conluio, tal como se passa com a Venezuela.
O recente artigo do Expresso sobre Savimbi, ajuda involuntariamente a esclarecer estes meandros da militância anti-MPLA que decorre em Portugal desde o início das lutas de independência de Angola. Recomenda-se por esta razão!
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2017/02/25
"Angola é nossa"
Desde o início dos anos 90, o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, abandonou progressivamente a ideologia marxista e estabeleceu uma economia liberal em Angola.
A sua família é detentora de imenso património, que inclui casas nas principais capitais europeias, participações em grandes empresas, holdings em paraísos fiscais e contas bancárias na Suíça - um património acumulado ao longo de décadas de exercício do poder.
Os seus adversários acusam-no de ignorar as necessidades sociais e económicas de Angola, concentrando-se em acumular riqueza para a família, ao mesmo tempo em que silencia a oposição ao seu governo.
2016/04/03
Declaração de voto
O Partido Comunista Português tem uma história riquíssima de luta contra o fascismo português e o colonialismo, nomeadamente em solidariedade com o Movimento Popular de Libertação de Angola.
Esses laços históricos não podem deixar de ter ainda agora um peso muito importante na relação institucional entre o PCP e o MPLA, o que me parece ser um elemento fundamental na posição que tomou na Assembleia da República, contra a condenação do governo angolano.
O Bloco de Esquerda e o Partido Ecologista os Verdes, porque não têm história, não têm esse constrangimento.
Por outro lado, as posições individuais dos deputados e até as posições dos partidos políticos, têm um caracter e uma importância diferente das posições do Estado. Ora o que teve de grave a iniciativa do BE, foi colocar na esfera do estado português a responsabilidade de condenar o estado angolano.
Outro aspecto reprovável da iniciativa do Bloco, é a provocação que faz, com isto, ao PCP com quem tem neste momento uma parceria de responsabilidades no apoio ao governo português do Partido Socialista.
Faltou à direcção do Bloco de Esquerda o sentido de responsabilidade e de oportunidade que, por maioria de razão, se podia esperar do Partido Socialista que tem um historial em Angola de luta contra o MPLA, ao lado da UNITA.
Entretanto, uma tomada de posição não governemental contra o regime autoritário e cleptocrático vigente em Angola, seria bem-vinda e aí estaria eu e certamente muitos comunistas.
Esses laços históricos não podem deixar de ter ainda agora um peso muito importante na relação institucional entre o PCP e o MPLA, o que me parece ser um elemento fundamental na posição que tomou na Assembleia da República, contra a condenação do governo angolano.
O Bloco de Esquerda e o Partido Ecologista os Verdes, porque não têm história, não têm esse constrangimento.
Por outro lado, as posições individuais dos deputados e até as posições dos partidos políticos, têm um caracter e uma importância diferente das posições do Estado. Ora o que teve de grave a iniciativa do BE, foi colocar na esfera do estado português a responsabilidade de condenar o estado angolano.
Outro aspecto reprovável da iniciativa do Bloco, é a provocação que faz, com isto, ao PCP com quem tem neste momento uma parceria de responsabilidades no apoio ao governo português do Partido Socialista.
Faltou à direcção do Bloco de Esquerda o sentido de responsabilidade e de oportunidade que, por maioria de razão, se podia esperar do Partido Socialista que tem um historial em Angola de luta contra o MPLA, ao lado da UNITA.
Entretanto, uma tomada de posição não governemental contra o regime autoritário e cleptocrático vigente em Angola, seria bem-vinda e aí estaria eu e certamente muitos comunistas.
2014/11/18
Princesa republicana
Para ser quem é e para ter o que tem, Isabel dos Santos não precisava de estudar e trabalhar. Isso não pode ser dito de todas as princesas... republicanas.
Depois - ou antes? - aquele sorriso jovial, aquela simpatia genuína, conquistaria facilmente o coração e a fortuna que ela quisesse, sem ter que ser filha do Presidente de Angola.
Herdou uma situação económica privilegiada? Não sei se isso é para ela assim tão importante como para os seus detractores - tão reverentes, geralmente, às princesas monárquicas.
Segundo António Costa, director do Diário Económico, citado em wikipedia, «Isabel dos Santos investe em Portugal há anos, e tem participações que são geridas de forma profissional, com a indicação de gestores profissionais, com o perfil que se exige a empresas cotadas e mercados desenvolvidos. É o caso da NOS e do BPI, por exemplo, e não há notícia, em nenhuma das empresas, de problemas com a accionista Isabel dos Santos. Pelo contrário, porque não só investe, como abre mercados às empresas onde tem capital».
2011/05/21
A importância do protesto
Era noite em Angola, no Cuango. Ou foi na Cabaca? No isolado destacamento apareceram vultos agitados; no silêncio da floresta que nos rodeava, rompiam vozes atormentadas – era um pelotão que regressava de uma operação no mato e trazia um morto e vários feridos.
Eles e nós, os que tinhamos ficado no aquartelamento, tentávamos organizar o socorro, acorrer aos mais necessitados. A certa altura o médico, alferes-miliciano, alertou para darmos atenção aos que não gritavam nem gemiam de dor. Afinal, era entre esses que estavam os doentes mais graves – os que nem força tinham para falar.
Por isso, quando vejo as manifestações que decorrem no Médio-Oriente e no Magreb, penso naqueles e naquelas que na mesma região se sentem impotentes para protestar, e quando assisto ás grandes concentrações em Madrid, penso em Cuba onde a repressão contra os direitos mais elementares dos cidadãos continua diariamente.
Ganha pois uma dupla importância o grito dos que têm capacidade para fazê-lo: exprimem as suas dores e chamam a atenção para as dores daqueles que nem gemer podem.
Eles e nós, os que tinhamos ficado no aquartelamento, tentávamos organizar o socorro, acorrer aos mais necessitados. A certa altura o médico, alferes-miliciano, alertou para darmos atenção aos que não gritavam nem gemiam de dor. Afinal, era entre esses que estavam os doentes mais graves – os que nem força tinham para falar.Por isso, quando vejo as manifestações que decorrem no Médio-Oriente e no Magreb, penso naqueles e naquelas que na mesma região se sentem impotentes para protestar, e quando assisto ás grandes concentrações em Madrid, penso em Cuba onde a repressão contra os direitos mais elementares dos cidadãos continua diariamente.
Ganha pois uma dupla importância o grito dos que têm capacidade para fazê-lo: exprimem as suas dores e chamam a atenção para as dores daqueles que nem gemer podem.
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2010/03/04
Angola é nossa irmã
Destacamento militar da Cabaca / AngolaA nossa guerra era de sobrevivência, não só às armas mas também ao tédio, ao cansaço, à aviação inimiga (os mosquitos), e às minas antipessoais mais irascíveis (que não as mais perigosas) - as malditas matacanhas e as formigas mordedoras.
Também havia as outras minas, é claro, as instantâneas e letais, e não se passou o tempo todo sem termos disso a prova e as vítimas, como se invoca nesta lápide onde inscrevi a legenda que invoca uma morte. (O militar que posa para a foto que recortei da Net, esse não conheço).*Naqueles tempos em que a vida dos portugueses - até ao último soldado, como dizia Salazar - não valia nada em comparação com a propriedade das colónias, a rádio emitia uma espécie de hino onde se cantava "Angola é nossa". A expressão ainda hoje me causa calafrios.
Em vez de proclamar que Angola era nossa, sendo que todos os que me rodeavam - talvez todos - estariam dispostos a vender ou a dar a sua parte!, eu inscrevia muito discreta e inutilmente na pala do meu boné (o quico), a sigla A.P.A. que queria dizer "Angola Para os Angolanos". Ainda não era um posição anti-americana e menos ainda anti-soviética, era tão simplesmente anti-colonial - na minha cabeça e no meu cérebro apenas, visto que quase ninguém mais sabia o significado...!
Hoje que Angola se esforça por aumentar os níveis de exportação de petróleo que foram drasticamente reduzidos nos últimos meses, é caso para colocar-se esta questão filosófica: sendo o petróleo angolano uma componente do seu (sub)solo, importá-lo, apropriá-lo, é uma forma de colonização? Paradoxalmente, é o contrário.
No entanto, aquela era a leitura forçada que faziam os anti-comunistas acerca do apoio da União Soviética ao povo colonizado de Angola, assim como viria a acontecer com o apoio de Cuba e com o próprio apoio a Cuba por parte da URSS. A questão, portanto, não está no que se aliena mas sim na liberdade e no interesse legítimo de o fazer.
Não sei o que é que a União Soviética ou Cuba ganharam com o apoio que deram nas lutas de libertação de Angola, mas sei que foi com a sua ajuda que o hino colonial ganhou uma versão muito mais digna: «Angola é nossa, é nossa irmã»!
Notas:
O militar que posa junto da lápide deve ser da Companhia que nos foi render. Recortei a foto na Net.
A menina que aparece na última foto é Isabel dos Santos, filha primogénita do presidente angolano.
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2008/09/07
Angola quer !

Dados os interesses políticos e económicos em jogo, e as fragilidades do regime, não é difícil encontrar pretextos para a contestação legítima da Oposição angolana. Outra coisa é saber qual será a estratégia que melhor serve os angolanos, neste contexto. E se a Oposição ganha mais em capitalizar créditos de vítima enquanto não espera ganhar estas eleições, ou alimentar uma desestabilização de que o partido no Poder tirará proveito como força de “reposição da ordem”. Tanto mais que em 2009 haverá eleição para a presidência.
Depois de um primeiro acto eleitoral realizado em 1992, só agora se assiste a um segundo. Concorrem a este, dez partidos e quatro coligações.
Por todo o país, o eleitorado está distribuído em 12. 274 assembleias de voto, com o total de 37.995 mesas, assistidas por 266.000 agentes eleitorais.
Em Luanda, onde são assinaladas irregularidades burocráticas, foram criadas 2.584 assembleias de voto.
O presidente da CNE anunciou, na sexta-feira, que as 320 Assembleias de voto onde foram registadas irregularidades, iriam funcionar a partir das 07h00 de Sábado para permitir que todos os eleitores de Luanda exercessem o seu direito cívico.
Segundo afirmou, esta excepção é possível porque a Lei Eleitoral assim o permite. "O Regulamento da Lei Eleitoral permite-nos realizar o acto num segundo dia de forma excepcional", afirmou Caetano de Sousa.
Há quem se questione sobre as garantias de que as urnas de voto não serão violadas; há quem se questione sobre se não houve intenção premeditada de criar os problemas que se registaram, visto que houve todo o tempo para preparar o acto eleitoral, mas há também quem se questione sobre se as irregularidades, pelo caracter burocrático e pelo número limitado onde ocorreram, deverão pôr em causa umas eleições cuja realização, por si só, representam um passo importante na evolução democrática e sobretudo representam um estímulo à confiança dos angolanos nas possibilidades da paz e da democracia.
Por todo o país, o eleitorado está distribuído em 12. 274 assembleias de voto, com o total de 37.995 mesas, assistidas por 266.000 agentes eleitorais.
Em Luanda, onde são assinaladas irregularidades burocráticas, foram criadas 2.584 assembleias de voto.
O presidente da CNE anunciou, na sexta-feira, que as 320 Assembleias de voto onde foram registadas irregularidades, iriam funcionar a partir das 07h00 de Sábado para permitir que todos os eleitores de Luanda exercessem o seu direito cívico.
Segundo afirmou, esta excepção é possível porque a Lei Eleitoral assim o permite. "O Regulamento da Lei Eleitoral permite-nos realizar o acto num segundo dia de forma excepcional", afirmou Caetano de Sousa.
Há quem se questione sobre as garantias de que as urnas de voto não serão violadas; há quem se questione sobre se não houve intenção premeditada de criar os problemas que se registaram, visto que houve todo o tempo para preparar o acto eleitoral, mas há também quem se questione sobre se as irregularidades, pelo caracter burocrático e pelo número limitado onde ocorreram, deverão pôr em causa umas eleições cuja realização, por si só, representam um passo importante na evolução democrática e sobretudo representam um estímulo à confiança dos angolanos nas possibilidades da paz e da democracia.
Uma coisa ficou demonstrada neste processo eleitoral: que o povo merece, que Angola quer !
2008/07/30
Guerra e mal-entendidos(2)
A vila de Quimbele, que me recorde, era uma rua, um quartel e um posto de correio, um café, um mercado (na foto, ao fundo) e algumas casas alinhadas de um e outro lado da rua de terra batida. Se era mais que isto, me perdoem os seus habitantes, decerto orgulhosos como eu da terra onde nasceram.
Foi de lá que partimos para o destacamento do Cuango onde me era destinado viver ou fazer pela vida durante ano e meio, se bem me recordo. Era lá que iamos depois buscar os mantimentos, as rações de combate e a correspondência que chegava “da metrópole”.
Anoitecia em Quimbele. O furriel C. já devia ter alinhado pela milésima vez as botas de forma milimetricamente paralela, e já teria assobiado uma dezenas de vezes, uma por cada folha que avançava na leitura de um livro qualquer. Eu aguardava o sono à porta da caserna. Junto de mim estava pelo menos o soldado cozinheiro, que sem ele não seria possível esta história que vos trago.
Não sei a que propósito, e não vou inventar para enriquecer a trama, falou-se de um tempo anterior, da instrução militar, dos quarteis da metrópole. E foi assim que ele me surpreendeu ao dizer que fui eu que lhe dei instrução. Para falar verdade eu não me lembrava de nenhum dos soldados a quem dei instrução em Portugal. De um modo geral, tudo o que era militar era uma mancha verde plasmada no horizonte.
- Não se lembra? Uma vez até esteve a falar connosco assim dumas coisas de moral...
Aqui desconfiei que era ele e não eu quem trocava as personagens da história. Alguém me imagina a ter conversas de moral naquela idade e naquelas circunstâncias? Mas que moral podia eu tratar?
- Até nos falou em a gente comprar uns livros...
Como é costume, os livros trazem luz e o que me parecia uma imagem obscura da memória do soldado, de repente ganha forma e tudo se esclarece. Agora sim, lembrava-me de ter utilizado um tempo que seria destinado a acção psicológica ou outro disparate desse género, para falar de alguma coisa que tivesse interesse para todos, para a vida interior que não para rastejar em lamaçais imaginários ou saltar valas onde se podem fazer pontes. Em todo o caso, como vamos ver, eu estava a fazer “acção psicológica” – isso não nego.
Aquilo de que eu falei com os soldados e que ele invocava agora em Quimbele, era de se criar uma biblioteca para o pelotão: cada um daria uma pequena quantia com que comprariamos alguns livros, e uma vez que eles circulavam por todos, isso oferecia muitas possibilidades de leitura.
E para que a proposta encontrasse apoio entre os circunstantes, falei sobre a vantagem de ler livros e fui ao ponto de dar um exemplo... impensável para aquelas circunstâncias. Nada mais, nada menos, do que A Mãe, de Máximo Gorki ! A história de uma mãe que, por amor ao filho, o ajuda nas suas actividades revolucionárias e se torna, como ele, comunista. Só isso!!!
Já se vê donde vinha a ideia do soldado: na aldeia onde vivia, certamente, nunca ouviu alguém falar de amor e livros que não fosse o pároco local. O raciocínio é compreensível e aceitável. O equívoco seria inevitável. Mas ainda me pergunto se foi um mal-entendido ou se, em última análise, não se tratava mesmo duma questão de moral.
Creio que só depois de regressar de Angola é que encontrei e li um livro que se chama “A superioridade moral dos comunistas”. Mas confesso que não fui eu que o escrevi.
P.s.: Escusado será dizer que fui aconselhado por um oficial a não levar avante aquela ideia, o que eu acolhi até porque não tive “feed-back” da proposta – pudera!
Foi de lá que partimos para o destacamento do Cuango onde me era destinado viver ou fazer pela vida durante ano e meio, se bem me recordo. Era lá que iamos depois buscar os mantimentos, as rações de combate e a correspondência que chegava “da metrópole”.Anoitecia em Quimbele. O furriel C. já devia ter alinhado pela milésima vez as botas de forma milimetricamente paralela, e já teria assobiado uma dezenas de vezes, uma por cada folha que avançava na leitura de um livro qualquer. Eu aguardava o sono à porta da caserna. Junto de mim estava pelo menos o soldado cozinheiro, que sem ele não seria possível esta história que vos trago.
Não sei a que propósito, e não vou inventar para enriquecer a trama, falou-se de um tempo anterior, da instrução militar, dos quarteis da metrópole. E foi assim que ele me surpreendeu ao dizer que fui eu que lhe dei instrução. Para falar verdade eu não me lembrava de nenhum dos soldados a quem dei instrução em Portugal. De um modo geral, tudo o que era militar era uma mancha verde plasmada no horizonte.
- Não se lembra? Uma vez até esteve a falar connosco assim dumas coisas de moral...
Aqui desconfiei que era ele e não eu quem trocava as personagens da história. Alguém me imagina a ter conversas de moral naquela idade e naquelas circunstâncias? Mas que moral podia eu tratar?
- Até nos falou em a gente comprar uns livros...
Como é costume, os livros trazem luz e o que me parecia uma imagem obscura da memória do soldado, de repente ganha forma e tudo se esclarece. Agora sim, lembrava-me de ter utilizado um tempo que seria destinado a acção psicológica ou outro disparate desse género, para falar de alguma coisa que tivesse interesse para todos, para a vida interior que não para rastejar em lamaçais imaginários ou saltar valas onde se podem fazer pontes. Em todo o caso, como vamos ver, eu estava a fazer “acção psicológica” – isso não nego.
Aquilo de que eu falei com os soldados e que ele invocava agora em Quimbele, era de se criar uma biblioteca para o pelotão: cada um daria uma pequena quantia com que comprariamos alguns livros, e uma vez que eles circulavam por todos, isso oferecia muitas possibilidades de leitura.
E para que a proposta encontrasse apoio entre os circunstantes, falei sobre a vantagem de ler livros e fui ao ponto de dar um exemplo... impensável para aquelas circunstâncias. Nada mais, nada menos, do que A Mãe, de Máximo Gorki ! A história de uma mãe que, por amor ao filho, o ajuda nas suas actividades revolucionárias e se torna, como ele, comunista. Só isso!!!Já se vê donde vinha a ideia do soldado: na aldeia onde vivia, certamente, nunca ouviu alguém falar de amor e livros que não fosse o pároco local. O raciocínio é compreensível e aceitável. O equívoco seria inevitável. Mas ainda me pergunto se foi um mal-entendido ou se, em última análise, não se tratava mesmo duma questão de moral.
Creio que só depois de regressar de Angola é que encontrei e li um livro que se chama “A superioridade moral dos comunistas”. Mas confesso que não fui eu que o escrevi.
P.s.: Escusado será dizer que fui aconselhado por um oficial a não levar avante aquela ideia, o que eu acolhi até porque não tive “feed-back” da proposta – pudera!
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