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2024/07/09

IA - O futuro já chegou

Estamos destinados a falar com “pessoas” que não existem, a fazer negócios com pessoas que não existem, a consultar médicos que não existem, a discutir política com interlocutores inumanos.
O fenómeno da inteligência artificial (IA) não é uma ideia do futuro, é já uma realidade no presente. O que se discute não é a sua existência, é saber quem e como domina a sua actividade e desenvolvimento, sendo que isto é uma parte importante das tensões entre as grandes economias mundiais.
Nada para que não estejamos já treinados, nomeadamente quando viajamos em automóveis sem condutor ou em aviões sem pilotos, mas também quando perguntamos, na internet, como tratar uma doença, ou quando movimentamos dinheiro no “balcão” multibanco.
Das notícias (The Guardian):
A decisão das empresas americanas, face às tensões entre Pequim e Washington, provoca corrida para atrair consumidores para modelos domésticos de inteligência artificial (IA).

2013/05/29

contra a (política da) troika *




Uma pergunta apenas à troica:
- Porque é que nos emprestam tanto dinheiro???

Não, não digam que é para nos ajudar, porque então eu terei que fazer outra pergunta:
- E porque é que nos querem "ajudar"?

* A origem do termo vem da "troika" que em russo significa um carro conduzido por três cavalos alinhados lado a lado... ("E o burro sou eu" - como dizia o outro).

2013/01/22

Mali em contexto (2)

O Mali é uma das nações mais pobres do mundo. Como se isso não bastasse, os combates que decorrem na região obrigam a população a fugir aterrorizada para os países limítrofes.

São conhecidas as barbaridades cometidas por alguns grupos islâmicos extremistas, mas também é sabido que as forças do governo prenderam, torturaram e mataram tuaregs, aparentemente por razões étnicas... apenas.

Em Setembro do ano passado, por exemplo, estas prenderam 16 clérigos que se dirigiam a uma conferência religiosa e executaram-nos sumariamente.


Tudo isto parece explicar a missão “humanitária” que representaria a intervenção internacional naquele país. Mas a incoerência das forças internacionais nestas matérias fazem pensar noutras motivações.

Os interesses norte-americanos no Mali vão realmente para além da questão política. Num contexto em que o governo chinês promove fortemente as suas relações económicas com África, e em que a China é a maior importadora dos produtos do Mali, há quem pense que isto pesa mais nas preocupações do governo dos EE. UU. do que o combate ao terrorismo internacional, naquele país.

Contrariando a tradicional hegemonia dos EUA no continente africano, os países deste continente abastecem em grande quantidade a China, com minério e energia e acolhem cada vez mais investimentos.

Quanto à França, parece que a luta quase pessoal de Hollande contra os combatentes da Al Qaeda colhe popularidade junto da população francesa, embora o coloque numa posição frágil pelo desfecho que ela possa ter, e os partidos políticos à sua direita e à sua esquerda mostrem reservas sobre a preparação e os riscos que esta intervenção apresenta. Mélenchon, na esquerda política, alega inclusivamente, contra esta intervenção, que “os interesses fundamentais da França não estão em causa” no conflito interno do Mali.

Se não são “fundamentais”, que interesses estão em causa no Mali, onde há cerca de seis mil cidadãos franceses, para além da questão da segurança?

O Mali tem a terceira maior produção de ouro na África, o qual é extraído na região sul. E, como se lê numa página electrónica do Ministério da Economia e Finanças de França,
 «La France n’est plus le premier investisseur étranger au Mali, mais reste le partenaire le plus visible par le nombre d’implantations commerciales(...). En 2010, on recense près de 60 filiales et sociétés à capitaux français (participations minoritaires incluses). On dénombre par ailleurs près d’une soixantaine d’investissements privés réalisés par des ressortissants français ou binationaux installés au Mali, dans l’hôtellerie, la restauration, le bâtiment, les services». Indicador não menos significativo é que a Air France tem uma ligação diária por dia com o Mali.

Além de ouro e urâneo, o país possui destacadas reservas de cobre, diamante, manganês, ferro, fosfato e outros metais, além da possibilidade de se tornar importante exportador de petróleo – com a maioria das reservas localizadas na região norte.

A instabilidade no continente africano é tanto mais grave para a França quanto é certo que os países limítrofes do Mali, nomeadamente, são produtores de materiais essenciais à indústria francesa. Esta indústria abastece-se, em grande medida, de energia nuclear, cuja produção depende do urâneo fornecido pelo Niger!

Dos interesses ocidentais instalados na Argélia, mas sobretudo do conflito destes com as forças rebeldes da região, não têm faltado notícias por estes dias nos meios de informação pública.

2011/12/03

Novo rumo na América Latina

É preciso ir à imprensa e aos sítios electrónicos brasileiros para encontrar notícias, em língua portuguesa, sobre a cimeira da “Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños”, CELAC, que se reuniu em 2 e 3 de Dezembro. Afinal estão em causa “apenas” 550 milhões de habitantes e um PIB global de uns seis biliões de dólares...
Esta comunidade de estados prossegue um velho objectivo de tornar mais autónomos e desenvolvidos os países da região, libertando-os da tutela das grandes potências americanas e europeias. "Estamos aqui a pôr a pedra fundamental da unidade, a independência e o desenvolvimento", disse Chávez no início da cerimónia.

A CELAC que a “comunicação social” portuguesa ignora, reuniu os mais altos representantes de 33 estados, independentemente da sua diversidade cultural e política.
Desde as figuras consensuais de Dilma Rousseff, pelo Brasil, e Cristina Fernández, pela Argentina, até às mais polémicas como Hugo Chavez e Raul Castro; desde o presidente Santos, da Colômbia (na foto abaixo, ao lado de Raul Castro!), até ao conselheiro Luis Almagro, do Uruguai, desde Sebastian Piñera, do Chile, até Rafael Correa, do Equador, o sentimento de que o futuro da região depende da sua união, foi manifesto. E tanto bastaria para justificar o encontro.

Num processo federador que já passou por outras iniciativas congéneres como MERCOSUL, fundado em 1991, ALBA, em 2004, ou UNASUR em 2008, «el nuevo foro es considerado como una pieza clave en la arquitectura de la integración regional».

Alguém disse numa outra cimeira, que a América Latina devia aprender com a União Europeia, verificando o que ela fez de bem... e de mal. Talvez estivesse a pensar no caracter antidemocrático como se processam as decisões na comunidade europeia, de que o Tratado de Lisboa ou o papel de Merkel e Sarkozy são bem representativos.

Além do mais, a CELAC emerge com entusiasmo numa região que floresce economicamente, enquanto a UE imerge actualmente com sofrimento numa região que apodrece economicamente. A primeira, caminha da miséria para o desenvolvimento, enquanto a segunda caminha do desenvolvimento para a miséria. A primeira quer afastar-se do garrote liberal e imperialista; a segunda submete-se à tortura – submete o seu povo, entenda-se.

Quem não está a gostar da “brincadeira” é a administração norte-americana e a “sua” Organização de Estados Americanos, OEA, hostilizada por alguns na cimeira deste fim-de-semana, o que outros tentaram contrariar com a afirmação de que «a CELAC não está contra ninguém». O valor político desta última posição, enfim, será equivalente à declaração norte-americana de que a nova organização «é um sócio» na região.

A História, portanto, não acaba aqui. Os rumos tradicionais destas regiões, talvez. Sobre isto vale a pena registar a declaração de Felipe Calderón, segundo o qual nasceu uma "nova América". Se assim foi, a comunicação social portuguesa há-de dar por isso, mais cedo ou mais tarde...

2010/11/14

Assim falava... Karl Marx
(sobre economia)

Recupero este post que havia publicado em Maio, por razões de crescente actualidade.

Anoto apenas, já que o não fiz na altura, que onde se diz burguês ou burguesia deve ler-se aquele ou aquela classe que detém o poder económico. A razão do termo usado é o contexto histórico em que o texto foi escrito. As imagens e apenas as imagens são actuais. O texto é integralmente de 1848... Embora não pareça!

«A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela. A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro».

«A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contactos em toda a parte».
«A burguesia, pela sua exploração do mercado mundial, configurou de um modo cosmopolita a produção e o consumo de todos os países. (...) As antiquíssimas indústrias nacionais foram aniquiladas, e são ainda diariamente aniquiladas. São desalojadas por novas indústrias cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, por indústrias que já não laboram matérias-primas nativas, mas matérias-primas oriundas das zonas mais afastadas, e cujos fabricos são consumidos não só no próprio país como simultaneamente em todas as partes do mundo».
«Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram [necessidades] novas que exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais longínquos».

«Para o lugar da velha auto-suficiência e do velho isolamento locais e nacionais, entram um intercâmbio omnilateral, uma dependência das nações umas das outras.

(...) A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos bárbaros ao estrangeiro».

«Compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas»
.

Excertos do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels.